Eu costumo dizer que um chatbot, seja ele qual for, é aquele “amigo” com quem você não tem tanta intimidade, que não critica se você fala uma bobagem, que elogia por pouca coisa, e que esquece de metade do que vocês conversaram. Isso não necessariamente é ruim, mas, dependendo do seu objetivo, pode ser perigoso ter um amigo condescendente e que arrisca trazer informações equivocadas ou pior, alucinar. Embora chatbots não sejam amigos para todas as horas, o que chega mais perto disso pra mim agora é o NotebookLM, do Google.
Se você não conhece o NotebookLM, vou contar por que você deveria começar a testá-lo. Ele nasceu em meados de 2023, sob o codinome de Project Tailwind, bem alinhado com a missão do Google de “organizar as informações do mundo e torná-las acessíveis e úteis para todos”. Para mim, esse é um produto útil e acessível. Não apenas porque, pelo menos por enquanto, ele permanece gratuito para uso pessoal, mas porque conecta com os primórdios do Google, quando a empresa não queria ser “má” (quem lembra do “dont’t be evil?") e a ideia era ser uma biblioteca digital, e não de Ads.
Aqui, um parênteses importante: essa semana estive em Mountain View visitando a sede do Google um dia antes do Google I/O, evento deles de lançamentos, e ouvi dizer numa conversa que grande parte da receita do Google vem de anúncios (o número era 94%, mas não é oficial). Pois, fui pesquisar, e no ano fiscal de 2025, a publicidade respondeu por aproximadamente 82% da receita da Alphabet, que é a dona da Google. Doido, né?
Voltando ao NotebookLM, cheguei à conclusão de que uma das coisas que eu mais gosto dessa ferramenta é que, com ela, eu me sinto segura. Segura no sentido de que sei que posso confiar no que sai da conversa, porque eu escolhi as fontes. O nome Notebook não é por acaso, a ideia é mesmo que ele seja um caderno inteligente em que você envia documentos, links, PDFs, slides ou outros materiais, e ele responde, resume e organiza as informações com base nesses conteúdos. Agora, ele até permite que você pesquise fontes da web e conecte essas fontes no seu caderno inteligente, mas nesse processo você tem a oportunidade de revisar o que ele sugere antes de incluir, o que garante a confiabilidade das informações, afinal, você escolheu.
Eu tenho usado para tudo: estudar textos acadêmicos, desenvolver projetos, resumir conteúdos, tirar dúvidas e até me inspirar criativamente. Meu plano é pessoal, e ainda gratuito, mas existem três outros planos pagos, Plus, Pro e Ultra.
A interface descomplicada para mim é um dos pontos principais. Do lado esquerdo ficam as suas fontes. Você pode enviar arquivos, vídeos do Youtube, conectar com pastas do seu Google Drive ou mesmo colar um texto. Todas essas fontes vão aparecer no lado esquerdo. Você pode renomear os arquivos para tornar mais fácil de encontrar quando chegar a 100 fontes, que é o limite atual. Uma vez que suas fontes estão lá, você pode migrar para a coluna no meio da ferramenta, e conversar com o caderno.
Quer um resumo? Ele faz. Quer que ele relacione suas fontes e faça uma análise dos pontos em comum e dos divergentes? Ele faz. Tem uma pergunta sobre seu material? Ele responde. Quer pesquisar em só uma fonte, também dá: basta desmarcar todas as outras e deixar só aquela com que você quer “conversar” marcada. E como todo o produto de Inteligência Artificial que se preste (ele é “powered by” Gemini), o Notebook gera insights e sugere perguntas que você pode fazer para as suas fontes.
Mas a mágica acontece mesmo no lado direito da ferramenta, na área de Estúdio. Para além das notas, o Estúdio é onde você vai encontrar tudo que ele produzir, e a graça do Estúdio está nas possibilidades, que imagino devem expandir nos próximos anos. Hoje são nove recursos, além da opção de converter sua conversa em uma Nota. Isso é importante: se você não salvar as respostas dele como Nota elas podem desaparecer depois de tanta conversa, então salve o que você gostar.
O mais legal do Estúdio, disparado, é poder pedir para o NotebookLM criar um resumo em áudio – na verdade ele cria um podcast quase de verdade, mas não é apresentado por humanos. E ele pode ser do tipo “conversa animada entre dois apresentadores” que fazem uma análise detalhada, um resumo, uma crítica e até mesmo um debate. E tudo isso no idioma que você desejar e com três opções de duração. Você pode até “brifar os IA apresentadores” para que eles foquem mais em algum aspecto do tema, por exemplo.
O outro recurso que brilha é o de fazer resumo em vídeo, que pode ser do tipo explicativo ou resumo, na língua que você quiser e com o estilo que você desejar. Tem quadro branco, kawaii, anime, aquarela, impressão retrô, retrô e dobradura. Esses dias tive que me preparar para apresentar um artigo sobre masculinidade e halterofilismo entre homens na Geórgia e arrisco dizer que o vídeo explicativo ficou muito mais legal.
Além de áudio e vídeo, dá para fazer slides, mapa mental, relatórios, cartões didáticos para você estudar, teste, infográfico e tabela de dados. Para mim, o NotebookLM é um dos motivos para ficar de olho no Google, pois eles vem atualizando a ferramenta com novos recursos o tempo todo. O outro motivo é o Google I/O e algumas coisas que escutei nessa minha semana de imersão no Vale do Silício.
Google I/O
A primeira novidade é que a parte de busca do Google ainda não está sob ameaça de plataformas de GenAI como ChatGPT, Claude e Perplexity. Dados de 2025 da Comscore analisados pela Emarketer mostram que todas essas ferramentas juntas representam 3.3% do processo de descoberta online nos Estados Unidos, contra 96,7% para Google e Bing. Tendo em vista que quase ninguém usa Bing, apostaria que o Google ainda vai bem e obrigado.
Outro ponto é que o Google não tem apenas o Gemini por trás do NotebookLM. Ele tem o Gemini por trás de tudo, mas agora com agentes. As novidades, que não foram poucas e dividiram opiniões, se concentram em três áreas: criação de conteúdo, execução de tarefas e personalização de produtos como Gmail e Docs, mas também de Compras e, é claro, Search.
A busca já contava com o AI Overviews e com o AI Mode como recursos separados. Os AI Overview são resumos gerados por IA que aparecem na busca tradicional do Google, no topo da página, para responder rápido e incluir links para se aprofundar. Já o AI Mode é uma experiência mais avançada e conversacional, que vira um chat com contexto contínuo e respostas mais profundas, bem ao estilo de ferramentas de GenAI. Agora, com a mudança na Search Box, a maior atualização em 25 anos segundo a própria empresa, o usuário tem uma experiência única com as duas funções integradas nos resultados de busca e a possibilidade de ter agentes.
Ou seja, agora dá pra conversar com o Google para encontrar o que precisa, não apenas fazer uma pergunta, e ter um agente que continua pesquisando, cruzando fontes e monitorando informações em segundo plano enquanto você, sei lá, dorme.
Na minha opinião, quem achava que o Google estava dormindo na corrida da IA e que estava perdendo espaço na busca, se enganou. Isso porque além de tecnologia, eles tem muito dinheiro e o também o que Cadu Souza, que conheci aqui na imersão no Vale do Silício, chama de BEES (Brand, Ecosystem, Execution, Scale, ou seja, Marca, Ecossistema, poder de Execução e capacidade de escala).
Mas esse papo de AI nas empresas fica para a próxima.
Alguns links da semana:
A ótima Joy Macedo estava no Google I/O e fez vários resumos das novidades.
Você sabia que 18% das unidades de saúde usam IA no Brasil? Matéria da Jennifer Mendonça do Núcleo Jornalismo.
Tem nova turma do Claud.IA aberta para o dia 30/05 em São Paulo com Ana Luiza Leal e Gi Blanco. Para quem não sabe, o Claud.IA é uma experiência educativa com vinhos sobre Claude. E quem chegou até aqui tem desconto, é só clicar lá!
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