Peço licença, mas além de tecnologia e IA, hoje vou falar também de jornalismo. Como jornalista não-praticante que passou os últimos meses rodeada por jornalistas de todo o mundo e admira quem ainda está nas trincheiras, não consigo deixar de me importar com o menino jornalismo, como meu amigo Tiago Agostini chama nosso querido campo. Especialmente com a IA atropelando todo mundo, inclusive o jornalismo. Segundo um relatório da Reuters que saiu recentemente, o Digital News Report 2026, os chatbots de IA já começam a aparecer como fonte de notícias dentro do bolo das plataformas.
A fatia ainda é pequena, mas, eu diria, representativa, principalmente se considerarmos que essa é a primeira vez na história do relatório que as plataformas, ou seja, redes sociais como Facebook e Instagram, sites de vídeos como YouTube e TikTok, agregadores e buscas como do Google e agora os chatbots de IA aparecem como fontes de notícias mais populares que a TV e os sites/aplicativos de notícias. A “plataformização” não apenas no jornalismo, mas eu diria na vida, não é de hoje, mas ver as plataformas ultrapassarem os “veículos tradicionais de mídia” como fonte de informação noticiosa ao mesmo tempo em que a IA aparece como uma fatia do bolo é no mínimo intrigante. Será que veremos uma “IAformização” nascer?
Mas antes, é preciso dar a César o que é de César, ou melhor, os devidos créditos à minha amiga Maíra Carvalho, com quem posso passar horas falando de jornalismo, plataformas, creators, Big Tech e, agora, IA (além de cachorros, restaurantes e drinks). Maíra é uma amiga e uma das mulheres mais inteligentes que eu conheço e que, assim como eu, é uma jornalista não-praticante que se tornou especialista em transformação digital. Ela passou os últimos 10 anos atuando em “who rules the world” (como Meta e TikTok) e entende de economia da atenção como ninguém. Recentemente, tive uma aula sobre a “Creators Economy” com ela, e foi por influência dela que parei e fui ler o Digital News Report 2026. No artigo “Onde as comunidades se reúnem agora: jornalismo, atenção e economia dos criadores” (na tradução livre para o português), Maíra faz a conexão com seus próprios estudos sobre criadores de conteúdo e um resumo importante do relatório da Reuters:
Social e vídeo lideram pela primeira vez. Redes sociais e plataformas de vídeo são agora a fonte de notícias mais usada globalmente, com 54%, à frente da TV, com 52%, e de sites e aplicativos de notícias, com 51%. Ao incluir chatbots de IA, o total de fontes de terceiros chega a 56% (Reuters DNR 2026).
Uma deriva, não uma mudança repentina. O uso de redes sociais e vídeo tem se mantido relativamente estável, enquanto o consumo de notícias pela TV caiu 13 pontos percentuais e o uso de sites e aplicativos de notícias caiu 12 pontos percentuais desde 2020 (Reuters DNR 2026).
Concentração por região. Redes sociais e vídeo superam sites e aplicativos de notícias em 30 dos 48 mercados analisados, principalmente nas Américas, na África Subsaariana e na Ásia. Sites de notícias ainda lideram principalmente na Europa, além de Singapura, Taiwan, Coreia do Sul e Japão (Reuters DNR 2026).
Cresce a participação como fonte principal. Globalmente, 30% das pessoas apontam redes sociais e vídeo como sua principal fonte de notícias, acima dos 22% registrados há cinco anos. A parcela que usa apenas redes sociais e vídeo para se informar subiu para 12%, o dobro dos 6% de 2020 (Reuters DNR 2026).
O desafio da atenção agora é generalizado e em todas as idades:
As audiências jovens são decisivas. Entre pessoas de 18 a 24 anos, 52% apontam redes sociais, vídeo e IA como sua principal forma de acessar notícias — 32 pontos percentuais à frente da segunda fonte mais citada (Reuters DNR 2026).
Sites e aplicativos de notícias já não são a principal fonte para nenhuma faixa etária. Pessoas com menos de 55 anos preferem redes sociais e vídeo; aquelas com 55 anos ou mais preferem TV (Reuters DNR 2026).
Um movimento generalizado, exceto entre os mais velhos. Essa deriva atravessa todas as faixas etárias, com exceção do grupo 55+, cujo uso de sites e aplicativos de notícias se manteve estável nos últimos cinco anos (Reuters DNR 2026).
Os hábitos não devem voltar atrás com a idade. Entre jovens de 18 a 24 anos que não leram jornal na semana anterior, 56% dizem nunca ter lido jornal regularmente (Reuters DNR 2026).
No Brasil, o buraco é mais fundo: “as redes sociais lideram a televisão por 9 pontos percentuais como fonte semanal de notícias, e o ranking de plataformas para notícias agora é: Instagram, 49%; WhatsApp, 46%; YouTube, 42%; Facebook, 30%; e TikTok, 21% (Reuters DNR 2026, Brasil). Em 2025, os dados mostravam YouTube e Instagram empatados em 37%. Em um ano, o Instagram avançou 12 pontos e assumiu a liderança”.
Se você tinha alguma dúvida de que a “plataformização da vida” que eu mencionei lá em cima estava acontecendo, agora talvez você tenha certeza.
Um olho no peixe e outro no gato
No final de abril, um grupo de jornalistas da Noruega foi visitar Stanford e bateram um papo com os bolsistas do JSK (programa de jornalismo do qual meu companheiro fez parte e motivo pelo qual estive pelo Vale do Silício). O papo como sempre girava em torno do impacto da IA, em como as redações podem usar a IA para produzir ou distribuir conteúdo de forma mais eficiente, etc. Mas uma pulga pulava atrás da minha orelha: estaria o jornalismo focando no problema errado ou, melhor, tapando o Sol com a peneira? É claro que IA na produção de notícias e o licenciamento de conteúdo são pautas importantes, mas e atenção das pessoas? Como evitar que nessa era da IA o menino jornalismo sofra menos do que vem sofrendo com a “plataformização”?
Não é à toa que as plataformas se tornaram a principal fonte de notícias. Elas não são apenas mais uma ferramenta tecnológica, mas uma infraestrutura social: as plataformas reorganizaram a atenção das pessoas, o mercado (do ponto de vista financeiro e de trabalho), o Estado, a mídia, os valores de privacidade e segurança das pessoas e, é claro, as relações humanas. Inteligência Artificial não é mais uma tecnologia, é uma nova era das plataformas, ou uma “plataformização acelerada”, e a IA vai fazer parte da nossa vida, queiramos ou não. Nesse encontro com os jornalistas noruegueses, compartilhamos a mesma preocupação: será que o jornalismo está de olho no peixe quando deveria estar de olho no gato, ou seja, nas IAs que vão roubar o peixe, como de certa forma fizeram as plataformas?
Mas, Emily, por que a Noruega importa? Nesse contexto, importa porque o país é considerado um exemplo de resiliência no jornalismo, com forte penetração de Internet, tradição de leitura, instituições públicas de mídia robustas e uma cultura relativamente consolidada de assinatura digital – leia-se, pessoas pagando por jornalismo. Além disso, a Noruega, assim como outros países nórdicos, têm uma tradição de políticas públicas de apoio ao pluralismo da mídia, especialmente imprensa local e regional, que ajuda a preservar a diversidade, a competição e a presença fora dos grandes centros. É tipo um “Estado de bem-estar da mídia” como alguns dizem por aí.
Talvez não seja por acaso que a mesma Noruega ocupa o 1º lugar de liberdade de imprensa da Repórteres Sem Fronteiras de 2026, mesmo ano em que o índice chegou ao pior nível em 25 anos. O menino jornalismo, segundo o The Guardian, está sendo asfixiado. E nem a Noruega está a salvo: o relatório da Reuters de 2026 mostra que mesmo ali a preocupação com notícias falsas e a desconfiança em relação a conteúdos encontrados em redes sociais e ferramentas de IA cresce. No Digital News Report 2026, a média global de evasão de notícias, ou seja, de quem diz evitar notícias “às vezes” ou “com frequência” aparece em 42%; na Noruega o índice é 39%, com alta de 9 pontos percentuais em relação ao ano anterior. Pois é.
Tá, mas e onde entra a AI nisso tudo? Na questão central do jornalismo: a confiança.
Segundo o relatório, 37% das pessoas, na média global, dizem confiar “na maior parte das notícias, na maior parte do tempo”. É uma queda de 3 pontos percentuais em relação ao ano anterior e o menor nível desde que o Reuters Institute começou a medir esse indicador, em 2015. O relatório cobriu quase 100 mil pessoas em 48 mercados.
Dessas pessoas, 10% já usam chatbots de IA para encontrar notícias semanalmente. Embora essa fatia do bolo seja pequena, o número, que saiu de 7% para 10% em apenas um ano, representa um aumento substancial e indica que a IA está começando a desempenhar um papel mais significativo no consumo de notícias. A boa notícia é que apenas 1% diz que a IA é sua principal fonte de notícias. Pelo menos por enquanto.
Mas quem está adotando IA? Os jovens, é claro. Se você está na casa dos 40 anos sabe que foi um dos jovens que impulsionou a adoção das redes sociais lá atrás quando elas surgiram. Eu estava lá quando o Orkut começou, e também migrei para o Facebook. Não gosta do TikTok? Paciência, ele provavelmente veio para ficar. A proporção de entrevistados na faixa etária mais jovem usando chatbots para notícias, 17%, é três vezes maior do que a da faixa etária mais velha, embora o crescimento mais significativo em relação a 2025 tenha sido registrado entre os 25-34 anos (aumento de 4 pontos percentuais), ou seja, quem era jovem há 15 anos atrás e aderiu em peso ao Instagram quando ele surgiu.
Admita, você também já foi jovem um dia.
Tá, mas e as pessoas confiam na IA? Não tanto. Veja bem: em um contexto em que apenas 37% das pessoas confiam na maioria das notícias, na maior parte do tempo, não se pode dizer que os 20% que confiam em IA globalmente é pouco. Além disso, entre os usuários de IA, a confiança chega a 44% dos entrevistados em comparação com 17% dos que dizem não usar IA. Outro ponto que mostra que a IA não está tão mal na foto é que a confiança nos chatbots é maior do que nas redes sociais.
Mas e qual é o uso de IA pelas pessoas interessadas em notícias? Graças à deusa o Digital News Report 2026 fez essa pergunta. Em 45 mercados, a resposta foi “fazer uma pergunta de acompanhamento”, relatado por 42% dos usuários. Em um segundo nível, os motivos são vários. Cerca de um terço usa IA para obter as últimas notícias, 35%. Proporções semelhantes usam para simplificar notícias, com 34% usando chatbots para resumo e 30% para tornar as notícias mais fáceis de entender. Ao mesmo tempo, um terço relata um uso mais consultivo, pedindo aos chatbots que avaliem a confiabilidade de uma fonte de notícias. Ou seja, de certo modo, pode-se dizer que IA permite que o usuário consuma notícias de formas variadas, as quais vão além do que as plataformas oferecem. Vem aí “IAformização"?
Links para ler:
Rodrigo Ghedin, dono do insubstituível Manual do Usuário, blog para o qual colaborei no passado e do qual sou a mais recente conselheira, conta como quase foi atropelado (spoiler, tem tecnologia no meio).
Acha que a IA não é tudo isso? Lembre-se que a SpaceX captou bilhões no maior IPO da história e entrou no clube das trilionárias (Exame). Aliás, esse episódio do Café da Manhã sobre “Quanto custa um milionário” está imperdível.
A Casa Branca bloqueou os novos modelos do Claude, da Anthropic. As versões bloqueadas são as mais recentes: o Fable 5, que estava amplamente disponível ao público, e o Mythos 5, restrito a organizações previamente autorizadas. Entenda o que está por trás desse enrosco político-mercado-tecnológico (G1).
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