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Ada News · Jun 18, 2026

#8 Já consumimos notícia via chatbot, o que mais vamos fazer via IA?

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Emily Canto Nunes · Ada News

Peço licença, mas além de tecnologia e IA, hoje vou falar também de jornalismo. Como jornalista não-praticante que passou os últimos meses rodeada por jornalistas de todo o mundo e admira quem ainda está nas trincheiras, não consigo deixar de me importar com o menino jornalismo, como meu amigo Tiago Agostini chama nosso querido campo. Especialmente com a IA atropelando todo mundo, inclusive o jornalismo. Segundo um relatório da Reuters que saiu recentemente, o Digital News Report 2026, os chatbots de IA já começam a aparecer como fonte de notícias dentro do bolo das plataformas.

A fatia ainda é pequena, mas, eu diria, representativa, principalmente se considerarmos que essa é a primeira vez na história do relatório que as plataformas, ou seja, redes sociais como Facebook e Instagram, sites de vídeos como YouTube e TikTok, agregadores e buscas como do Google e agora os chatbots de IA aparecem como fontes de notícias mais populares que a TV e os sites/aplicativos de notícias. A “plataformização” não apenas no jornalismo, mas eu diria na vida, não é de hoje, mas ver as plataformas ultrapassarem os “veículos tradicionais de mídia” como fonte de informação noticiosa ao mesmo tempo em que a IA aparece como uma fatia do bolo é no mínimo intrigante. Será que veremos uma “IAformização” nascer?

Fonte: Digital News Report 2026

Mas antes, é preciso dar a César o que é de César, ou melhor, os devidos créditos à minha amiga Maíra Carvalho, com quem posso passar horas falando de jornalismo, plataformas, creators, Big Tech e, agora, IA (além de cachorros, restaurantes e drinks). Maíra é uma amiga e uma das mulheres mais inteligentes que eu conheço e que, assim como eu, é uma jornalista não-praticante que se tornou especialista em transformação digital. Ela passou os últimos 10 anos atuando em “who rules the world” (como Meta e TikTok) e entende de economia da atenção como ninguém. Recentemente, tive uma aula sobre a “Creators Economy” com ela, e foi por influência dela que parei e fui ler o Digital News Report 2026. No artigo “Onde as comunidades se reúnem agora: jornalismo, atenção e economia dos criadores” (na tradução livre para o português), Maíra faz a conexão com seus próprios estudos sobre criadores de conteúdo e um resumo importante do relatório da Reuters:

  • Social e vídeo lideram pela primeira vez. Redes sociais e plataformas de vídeo são agora a fonte de notícias mais usada globalmente, com 54%, à frente da TV, com 52%, e de sites e aplicativos de notícias, com 51%. Ao incluir chatbots de IA, o total de fontes de terceiros chega a 56% (Reuters DNR 2026).

  • Uma deriva, não uma mudança repentina. O uso de redes sociais e vídeo tem se mantido relativamente estável, enquanto o consumo de notícias pela TV caiu 13 pontos percentuais e o uso de sites e aplicativos de notícias caiu 12 pontos percentuais desde 2020 (Reuters DNR 2026).

  • Concentração por região. Redes sociais e vídeo superam sites e aplicativos de notícias em 30 dos 48 mercados analisados, principalmente nas Américas, na África Subsaariana e na Ásia. Sites de notícias ainda lideram principalmente na Europa, além de Singapura, Taiwan, Coreia do Sul e Japão (Reuters DNR 2026).

  • Cresce a participação como fonte principal. Globalmente, 30% das pessoas apontam redes sociais e vídeo como sua principal fonte de notícias, acima dos 22% registrados há cinco anos. A parcela que usa apenas redes sociais e vídeo para se informar subiu para 12%, o dobro dos 6% de 2020 (Reuters DNR 2026).

O desafio da atenção agora é generalizado e em todas as idades:

  • As audiências jovens são decisivas. Entre pessoas de 18 a 24 anos, 52% apontam redes sociais, vídeo e IA como sua principal forma de acessar notícias — 32 pontos percentuais à frente da segunda fonte mais citada (Reuters DNR 2026).

  • Sites e aplicativos de notícias já não são a principal fonte para nenhuma faixa etária. Pessoas com menos de 55 anos preferem redes sociais e vídeo; aquelas com 55 anos ou mais preferem TV (Reuters DNR 2026).

  • Um movimento generalizado, exceto entre os mais velhos. Essa deriva atravessa todas as faixas etárias, com exceção do grupo 55+, cujo uso de sites e aplicativos de notícias se manteve estável nos últimos cinco anos (Reuters DNR 2026).

  • Os hábitos não devem voltar atrás com a idade. Entre jovens de 18 a 24 anos que não leram jornal na semana anterior, 56% dizem nunca ter lido jornal regularmente (Reuters DNR 2026).

No Brasil, o buraco é mais fundo: “as redes sociais lideram a televisão por 9 pontos percentuais como fonte semanal de notícias, e o ranking de plataformas para notícias agora é: Instagram, 49%; WhatsApp, 46%; YouTube, 42%; Facebook, 30%; e TikTok, 21% (Reuters DNR 2026, Brasil). Em 2025, os dados mostravam YouTube e Instagram empatados em 37%. Em um ano, o Instagram avançou 12 pontos e assumiu a liderança”.

Conteúdo do artigo
Marcas, criadores, mídia são um elo entre muitos. Imagem: Maíra Carvalho.

Se você tinha alguma dúvida de que a “plataformização da vida” que eu mencionei lá em cima estava acontecendo, agora talvez você tenha certeza.

Um olho no peixe e outro no gato

No final de abril, um grupo de jornalistas da Noruega foi visitar Stanford e bateram um papo com os bolsistas do JSK (programa de jornalismo do qual meu companheiro fez parte e motivo pelo qual estive pelo Vale do Silício). O papo como sempre girava em torno do impacto da IA, em como as redações podem usar a IA para produzir ou distribuir conteúdo de forma mais eficiente, etc. Mas uma pulga pulava atrás da minha orelha: estaria o jornalismo focando no problema errado ou, melhor, tapando o Sol com a peneira? É claro que IA na produção de notícias e o licenciamento de conteúdo são pautas importantes, mas e atenção das pessoas? Como evitar que nessa era da IA o menino jornalismo sofra menos do que vem sofrendo com a “plataformização”?

Não é à toa que as plataformas se tornaram a principal fonte de notícias. Elas não são apenas mais uma ferramenta tecnológica, mas uma infraestrutura social: as plataformas reorganizaram a atenção das pessoas, o mercado (do ponto de vista financeiro e de trabalho), o Estado, a mídia, os valores de privacidade e segurança das pessoas e, é claro, as relações humanas. Inteligência Artificial não é mais uma tecnologia, é uma nova era das plataformas, ou uma “plataformização acelerada”, e a IA vai fazer parte da nossa vida, queiramos ou não. Nesse encontro com os jornalistas noruegueses, compartilhamos a mesma preocupação: será que o jornalismo está de olho no peixe quando deveria estar de olho no gato, ou seja, nas IAs que vão roubar o peixe, como de certa forma fizeram as plataformas?

O gato de olho no peixe. Imagem feita com IA.

Mas, Emily, por que a Noruega importa? Nesse contexto, importa porque o país é considerado um exemplo de resiliência no jornalismo, com forte penetração de Internet, tradição de leitura, instituições públicas de mídia robustas e uma cultura relativamente consolidada de assinatura digital – leia-se, pessoas pagando por jornalismo. Além disso, a Noruega, assim como outros países nórdicos, têm uma tradição de políticas públicas de apoio ao pluralismo da mídia, especialmente imprensa local e regional, que ajuda a preservar a diversidade, a competição e a presença fora dos grandes centros. É tipo um “Estado de bem-estar da mídia” como alguns dizem por aí.

Talvez não seja por acaso que a mesma Noruega ocupa o 1º lugar de liberdade de imprensa da Repórteres Sem Fronteiras de 2026, mesmo ano em que o índice chegou ao pior nível em 25 anos. O menino jornalismo, segundo o The Guardian, está sendo asfixiado. E nem a Noruega está a salvo: o relatório da Reuters de 2026 mostra que mesmo ali a preocupação com notícias falsas e a desconfiança em relação a conteúdos encontrados em redes sociais e ferramentas de IA cresce. No Digital News Report 2026, a média global de evasão de notícias, ou seja, de quem diz evitar notícias “às vezes” ou “com frequência” aparece em 42%; na Noruega o índice é 39%, com alta de 9 pontos percentuais em relação ao ano anterior. Pois é.

Tá, mas e onde entra a AI nisso tudo? Na questão central do jornalismo: a confiança.

Segundo o relatório, 37% das pessoas, na média global, dizem confiar “na maior parte das notícias, na maior parte do tempo”. É uma queda de 3 pontos percentuais em relação ao ano anterior e o menor nível desde que o Reuters Institute começou a medir esse indicador, em 2015. O relatório cobriu quase 100 mil pessoas em 48 mercados.

Dessas pessoas, 10% já usam chatbots de IA para encontrar notícias semanalmente. Embora essa fatia do bolo seja pequena, o número, que saiu de 7% para 10% em apenas um ano, representa um aumento substancial e indica que a IA está começando a desempenhar um papel mais significativo no consumo de notícias. A boa notícia é que apenas 1% diz que a IA é sua principal fonte de notícias. Pelo menos por enquanto.

Fonte: Digital News Report 2026

Mas quem está adotando IA? Os jovens, é claro. Se você está na casa dos 40 anos sabe que foi um dos jovens que impulsionou a adoção das redes sociais lá atrás quando elas surgiram. Eu estava lá quando o Orkut começou, e também migrei para o Facebook. Não gosta do TikTok? Paciência, ele provavelmente veio para ficar. A proporção de entrevistados na faixa etária mais jovem usando chatbots para notícias, 17%, é três vezes maior do que a da faixa etária mais velha, embora o crescimento mais significativo em relação a 2025 tenha sido registrado entre os 25-34 anos (aumento de 4 pontos percentuais), ou seja, quem era jovem há 15 anos atrás e aderiu em peso ao Instagram quando ele surgiu.

Admita, você também já foi jovem um dia.

Tá, mas e as pessoas confiam na IA? Não tanto. Veja bem: em um contexto em que apenas 37% das pessoas confiam na maioria das notícias, na maior parte do tempo, não se pode dizer que os 20% que confiam em IA globalmente é pouco. Além disso, entre os usuários de IA, a confiança chega a 44% dos entrevistados em comparação com 17% dos que dizem não usar IA. Outro ponto que mostra que a IA não está tão mal na foto é que a confiança nos chatbots é maior do que nas redes sociais.

Mas e qual é o uso de IA pelas pessoas interessadas em notícias? Graças à deusa o Digital News Report 2026 fez essa pergunta. Em 45 mercados, a resposta foi “fazer uma pergunta de acompanhamento”, relatado por 42% dos usuários. Em um segundo nível, os motivos são vários. Cerca de um terço usa IA para obter as últimas notícias, 35%. Proporções semelhantes usam para simplificar notícias, com 34% usando chatbots para resumo e 30% para tornar as notícias mais fáceis de entender. Ao mesmo tempo, um terço relata um uso mais consultivo, pedindo aos chatbots que avaliem a confiabilidade de uma fonte de notícias. Ou seja, de certo modo, pode-se dizer que IA permite que o usuário consuma notícias de formas variadas, as quais vão além do que as plataformas oferecem. Vem aí “IAformização"?

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