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Ada News · Jul 3, 2026

#9 O que carga mental tem a ver com seu interesse em tecnologia? Talvez tudo.

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E se o que nos afasta do que queremos aprender é o quanto estamos sobrecarregadas com os oito diferentes tipos de carga mental que existem?

Quando o Ada nasceu, pelas mãos de Natasha Madov, Diana Assennato e, em seguida, euzinha, foi para fazer jornalismo de tecnologia com uma perspectiva feminina. Definir o que essa “perspectiva feminina” quer dizer não é tarefa fácil, e foi motivo de várias conversas. Na época, a gente se perguntava: em que momento da história, essa mesma história que coloca Ada Lovelace (1815-1852) como uma das pioneiras da computação, as mulheres perderam o bonde?

Ada, muitas vezes referida como uma das primeiras programadoras, mais conhecida por sua estreita parceria com Charles Babbage e suas ideias visionárias, foi quem imaginou o futuro dos computadores como manipuladores de símbolos, bem como suas possibilidades criativas de longo alcance. Como pode ser que desde Ada Lovelace, que viveu há mais 200 anos, tenhamos tão poucas mulheres na história da Computação? Tão poucas que eu tenha contado nos dedos durante a visita que fiz ao Museu da Computação no Vale do Silício recentemente e que seu panfleto sobre “Mulheres na Computação” tenha apenas nove nomes, contando com a Ada. Nove.

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Panfleto do Museu da Computação com nove mulheres.

A explicação, já sabemos: mulheres ainda são minoria nas áreas de STEM (acrônimo em inglês para Ciência, Tecnologia, Engenharia e Matemática). Mas e o que afasta as mulheres da tecnologia enquanto consumidoras? E, mesmo as mulheres sendo 50% da população mundial, por que o jornalismo de tecnologia ainda falha em aproximá-las? O que está faltando nessa comunicação? O que seria essa perspectiva feminina hoje?

Bati um papo com a minha IA, que vem me acompanhando nesses meses de estudo e de retomada do Ada como um espaço de experimentação, e cheguei a algumas definições interessantes.

  • Perspectiva feminina é olhar para tecnologia, negócios e eficiência sem separar produtividade de vida real: tempo, cuidado, carga mental, autonomia, colaboração e segurança também entram na conta.

  • É uma forma de criar soluções mais humanas, práticas e inclusivas, sem perder ambição, rigor ou resultado.

  • É também uma forma de interpretar a partir das experiências, necessidades, desafios e repertórios vividos por mulheres, mas sem assumir que existe “uma mulher universal” ou que todas pensam igual.

  • É o entendimento de que mais mulheres podem se interessar, consumir e fazer tecnologia se forem acolhidas.

É um caminho para uma definição, aberto a críticas, mas que conecta com outra reflexão que ando fazendo, especialmente depois de estudar questões de gênero e trabalho, feminismo e sexualidade, além de masculinidades na era da IA. E também com alguns questionamentos que ando fazendo sobre o tempo e, sempre ela, a tal carga mental.

Antes de seguir com essa tema, porém, uma pequena anedota pessoal:

Todos os sábados, eu e meu companheiro tomamos um café da manhã mais demorado. É o dia que temos mais tempo e disposição para acordar com calma, passear com as cachorras, comprar um pão e fazer ovos mexidos. Para ele, esse é um momento de inspiração. Quase todos os sábados depois de comer ele vai para o escritório trabalhar em alguma ideia que teve, enquanto eu, sem me dar conta, já estou colocando a louça para lavar, arrumando a sala e pensando no almoço.

A verdade é que tarefas domésticas nunca foram meu forte, mas eu cresci fazendo e internalizei de uma forma que nem percebo mais. Filha de pais separados com um irmão poucos anos mais novo, fui criada por uma mãe que não fazia distinção e que ensinou tudo aos dois: limpar a casa, arrumar o quarto, lavar roupa e cozinhar. Não à toa o meu irmão faz tudo isso melhor do que eu.

Na vida adulta, porém, me deparei com algumas pessoas, especialmente homens, que não só não sabiam fazer nada disso como esperavam que eu dedicasse meu tempo às tarefas domésticas. Não é o caso do meu companheiro, fiquem tranquilas. Mas porque gostamos de manter a equidade fora e dentro de casa, hoje dividimos tudo na ponta do lápis, ou melhor, nos dados de um aplicativo que criamos chamado Dojo Mojo. E quando eu falo para as pessoas que normalmente eu estou atrás dele na dedicação à casa não é apenas porque eu não sou fã de tarefas domésticas, mas porque estou tentando desapegar de alguma carga mental e aprendendo a revalorizar o meu tempo.

Foi nesse processo de reflexão que encontrei o livro, mas especialmente o site, da socióloga Leah Ruppanner, autora do recém-lançado e ainda em inglês Drained: Reduce Your Mental Load to Do Less and Be More. Leah, que é professora da Universidade de Melbourne, na Austrália, passou décadas estudando gênero, trabalho e família e descobriu que ser capaz de reconhecer e medir a carga mental é suficiente para diminuí-la. “Uma vez que a vemos, não podemos ‘desver’. E podemos começar a lidar com isso”, disse ela ao podcast Life Kit da NPR.

Embora todos lidem com a carga mental até certo ponto, as mulheres ainda carregam o maior fardo. Em um estudo feito com com mais de 3.000 pais nos Estados Unidos, ela e outros pesquisadores descobriram que as mulheres eram responsáveis por mais de 70% da carga mental doméstica, incluindo acompanhar os horários de todos ou lembrar de delegar tarefas. E, segundo ela, isso não está relacionado à mentira que todos contam de que as mulheres são melhores em ser multitarefas, ou que os homens não enxergam a bagunça ou são péssimos com gerenciamento doméstico. É tudo mito. De gênero. Ao menos é o que ela diz e atesta com várias pesquisas em seu livro e na auditoria virtual que criou. O site Lighten Lab não apenas avalia sua carga mental, mas te apresenta caminhos para diminuí-la.

Arte feita com IA sob o site da Lighten Lab

A ideia é classificar as tarefas em sua cabeça em oito categorias para que você possa ver para onde sua energia está indo. São elas:

  1. Organização de vida: é a mais fácil de reconhecer; é estar constantemente pensando, planejando, checando e lembrando o que precisa acontecer para os pratos não caírem.

  2. Suporte emocional: o trabalho de estar emocionalmente disponível para os outros: notar aquela pessoa de mau humor, antecipar necessidades, e estar pronta para ouvir, confortar ou guiar alguém.

  3. Higiene de relacionamento: é o esforço para nutrir a relação, seja com parceiros, crianças, amigos e/ou familiares.

  4. Fazedor de mágica: é ser aquela pessoa que pensa em criar tradições, celebrações e memórias para seus entes queridos, tendo que equilibrar as expectativas de todos os envolvidos, o que nem sempre é fácil.

  5. Construção de sonhos: é o esforço de imaginar e investir no futuro, a energia que se coloca pensando no longo prazo, nas metas e possibilidades para si mesmo, para os parceiros e/ou filhos.

  6. Manutenção individual: é estar preocupado em estar bem fisicamente, emocionalmente e mentalmente e mostrar essa faceta para uma sociedade que pressiona para que todos estejam bem e sempre evoluindo.

  7. Segurança: proteger você mesmo e as pessoas que você ama. Estar constantemente atento, planejando e fazendo avaliações de risco mentalmente para que você possa se sentir preparado para o que der e vier ou algo sair errado.

  8. “Meta cuidado”: é estar preocupado em viver e respirar seus valores, é a pergunta macro se estou sendo quem eu quero ser nesse mundo, não apenas no dia a dia, mas também no longo prazo.

Eu fiz e recomendo. Leva menos de 10 minutos. Volta e meia volto ao site para rever os vídeos ou ver alguma notícia nova que saiu sobre o livro ou algum podcast que Leah participou. Depois que você entende seus tipos de carga mental, é impossível “desver”. E, quem sabe, trabalhando para diminuí-la sobra espaço mental e tempo para você entender o que nesse mar de novidades que é a tecnologia lhe interessa.

Espero que o Ada e sua perspectiva feminina seja esse espaço que te ajude a navegar.

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