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Ada News · Jul 17, 2026

#10 Agência humana é o superpoder em tempos de IA

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Emily Canto Nunes · Ada News

Dizem por aí que já estamos na “era dos agentes” ou na “era agêntica” da Inteligência Artificial. No contexto de IA, agêntico, que deriva do inglês “agentic”, tornou-se sinônimo de “agentes de IA” que não apenas respondem a uma pergunta, mas conseguem interpretar o objetivo de um tarefa, planejar etapas, usar ferramentas ou consultar informações, executar ações, avaliar o resultado e até o ajustar o caminho, se for o caso.

O que pouca gente fala é que “agentic” deriva de uma outra palavra em inglês que deveríamos estar discutindo muito mais – “agency”. Em português, quando falamos em agência, pensamos em empresas que prestam serviços, agências de publicidade ou de viagem. Mas agência também é a capacidade humana de agir intencionalmente, tomar iniciativa e influenciar resultados. O conceito não nasceu na tecnologia: ele tem raízes na psicologia e nas ciências sociais, especialmente nos trabalhos de Albert Bandura sobre agência humana, isto é, sobre a capacidade de definir objetivos, tomar decisões e agir para alcançá-los. Coincidência ou não, Bandura (1925–2021), um psicólogo canadense-americano considerado um dos pesquisadores mais influentes da psicologia moderna, também foi professor da Universidade Stanford, de onde veio a Dra. Fei-Fei Li, que me fez pensar sobre essa questão da agência humana na era da IA.

Ao mesmo tempo em que tenho balançado a bandeira de que todo mundo precisa aprender sobre IA, também tenho me perguntado como me manter crítica e fazer um uso intencional da inteligência artificial. Sejamos sinceras, a tentação de cada vez mais contar com a IA para quase tudo nessa vida é grande, mas qual é o limite? O quanto vamos deixar nas “mãos” da IA nosso trabalho, nossa vida e nossa capacidade de decisão é o que deveríamos estar nos preocupando também. Especialmente nesta “era agêntica”.

Foi quando encontrei Fei-Fei Li e sua masterclass sobre o futuro da IA e o nosso.

Fei-Fei Li em arte feita por IA e humanos.

Fei-Fei Li é uma cientista da computação sino-americana e uma das figuras mais importantes da inteligência artificial contemporânea, especialmente nas áreas de visão computacional e IA centrada no ser humano. Ela ficou conhecida principalmente por liderar a criação do ImageNet, um enorme banco de imagens identificadas e classificadas que permitiu treinar e comparar sistemas de reconhecimento visual em uma escala inédita. O ImageNet foi decisivo para a evolução do deep learning na década de 2010: em vez de apenas programar regras, pesquisadores passaram a treinar redes neurais com grandes quantidades de exemplos visuais. Ela ensinou a IA a reconhecer um gato por sua imagem.

Atualmente, Fei-Fei é professora de Ciência da Computação em Stanford, cofundadora e CEO da World Labs, empresa dedicada à chamada inteligência espacial (tema para outro dia, porém muito interessante), mas, principalmente, co-diretora do Stanford Institute for Human-Centered Artificial Intelligence (HAI), para onde vou virtualmente voltar hoje.

O Stanford HAI é O lugar atualmente. São eles que todos os anos publicam o AI Index Report, uma espécie de anuário global de como a IA está evoluindo. Mais importante é a sua abordagem de que a Inteligência Artificial deveria ser desenhada para expandir o que o ser humano pode fazer sem retirar do ser humano sua agência ou dignidade.

Esse framework é baseado em três pilares:

1. avanço da IA inspirado na cognição humana;

2. que a pesquisa seja focada em “augmentação” humana, isto é, ampliação das capacidades humanas (augmentation, em inglês);

3. que as pesquisas em IA sejam multidisciplinares e em parceria com ciências sociais e humanas para prever o impacto social e criar governança.

Ainda que se assuma como otimista e esperançosa, Fei-Fei sabe que as tecnologias podem ser facas de dois gumes, como a eletricidade à época de seu surgimento, mas também que podem se tornar seguras com algum tipo de governança. Como ela mesma diz, as máquinas não possuem valores, os valores são humanos e eles estão “embutidos por design”. Uma das provocações que ela faz nesta Masterclass é: “pesquise sobre as empresas por trás das ferramentas de IA que você usa. Você concorda com esses valores?”

Segundo Fei-Fei, a Inteligência Artificial é uma tecnologia civilizatória, como foi a eletricidade, isto é, uma tecnologia que remodela a forma como vivemos, trabalhamos e nos organizamos como sociedade. E por isso mesmo que ela acredita que cada indivíduo tem a responsabilidade para consigo mesmo, com sua comunidade e com o mundo de estar à altura desse desafio. Ou seja, de ter agência sobre seu uso de IA.

Mas como?

Além do framework do Stanford HAI Institute, Fei-Fei reforça a distinção entre automação e augmentação, e também entre tarefas e trabalhos. Automação é quando a IA desempenha uma tarefa de forma independente, sem supervisão de um ser humano. “Augmentação” é quando a IA expande as capacidades humanas sem substituir a colaboração e o julgamento de um ser humano.

De acordo com ela, deveríamos estar focados em colocar a IA para resolver tarefas, não trabalhos inteiros, menos ainda funções que ainda necessitam da agência humana.

Um exemplo que ela mesma compartilha é de um médico de UTI, capaz de ler o estado de paciente em 5 microsegundos apenas observando a postura e suas microexpressões, sem uso de linguagem. Para Fei-Fei, as LLMs capturam apenas uma dimensão da inteligência, a linguagem, que é uma representação insatisfatória do mundo. “Nenhuma descrição verbal consegue capturar esse processo de raciocínio visual holístico” como do médico que ela traz como exemplo.

Logo, o convite é ser intencional com a IA, com perguntas como:

. Como eu faço meu prompt?

. Como eu melhoro as respostas da IA com as minhas próprias ideias?

. Como eu pressiono por melhores respostas?

. Como eu colaboro com a IA de uma forma iterativa?

. Eu estou de acordo com os valores, ética e princípios das empresas de IA?

. Como essa tecnologia pode ajudar as pessoas no dia-a-dia?

. Como reduzimos a ansiedade em relação a IA e aumentamos o empoderamento?

. A quem essa tecnologia realmente serve?

. Quem essa tecnologia pode machucar?

. Quem pode ficar de fora?

E para que a IA seja centrada no humano como propõe Fei-Fei será preciso uma colisão entre partes interessadas: além de nós mesmos, quem desenvolve IA, quem faz política e leis, e dos professores.

Precisamos Agir Agora

Não por acaso, nesta semana, outro instituto de Stanford, o Stanford Digital Economy Lab, divulgou uma declaração assinada por acadêmicos, incluíndo pelo menos 15 prêmio Nobel, entre eles:

Daron Acemoglu, economista do MIT e vencedor do Nobel de Economia de 2024, considerado uma das principais vozes sobre tecnologia, automação, desigualdade e futuro do trabalho; Yoshua Bengio e Yann LeCunn, pioneiros no deep learning moderno; Erik Brynjolfsson, diretor do Stanford Digital Economy Lab, um dos grandes nomes quando o assunto é IA, produtividade e mercado de trabalho; David Autor, um dos maiores especialistas em automação e trabalho; Joseph Stiglitz, Nobel de Economia e ex-economista-chefe do Banco Mundial; Paul Krugman, também prêmio Nobel de Economia; Ben Bernanke, Nobel de Economia e ex-presidente do Federal Reserve, banco central dos EUA; além de Eric Schmidt, ex-CEO do Google e Reid Hoffman, co-fundador do LinkedIn.

Basicamente, o que o site “We Must Act Know” diz é que precisamos agir agora:

  • A IA pode se tornar radicalmente mais poderosa nos próximos 10 anos.

  • Isso poderia impulsionar uma transformação sem precedentes em nossa economia — maior do que a Revolução Industrial, porém ocorrendo em um intervalo de tempo muito mais curto. Tal mudança pode trazer riscos, incluindo o deslocamento de mão de obra em larga escala, bem como oportunidades, como ganhos significativos nos padrões de vida.

  • Economistas, formuladores de políticas e líderes de tecnologia precisam agir agora para compreender os aspectos econômicos e transformadores da IA para criar os incentivos, as salvaguardas e as instituições necessárias para direcionar a IA de modo que ela complemente os seres humanos e beneficie a sociedade.

No fim, aquele meme que circulou esses dias está certo. Seja você mesmo seu data center: beba água e mantenha-se informado, alimentando seu conhecimento.

“Auto empoderamento e agência começam com informação”, Dr. Fei-Fei Li.

Links relacionados:

. Esse “Declaração sobre a Transformação da Economia pela IA” eu vi primeiro no LinkedIn da Bruna Infurna, de quem sou fã, que além de trabalhar no LinkedIn, ser parte do Comitê de IA do IAB Brasil, estar estudando Regulação de Plataformas e IA no IT, vai pra China em breve e está compartilhando suas descobertas em uma delícia de newsletter.

. Sérgio Spagnuolo, meu companheiro de vida e editor dessa newsletter, vem falando bastante sobre intencionalidade no jornalismo em tempos de IA. Recomendo.

. No dia 30 de julho, vou me somar a outras Claudetes para compartilhar um pouco do que estudei enquanto estava em Stanford e também o que vi e vivi no Vale do Silício nos últimos meses. É o primeiro Happy Hour da comunidade da Clau.Tech! Quem assina o Ada tem desconto: só usar ADA. Nos vemos por lá!

E se você quer assistir a aula da Dr. Fei-Fei Li, está lá na plataforma Masterclass (pago).

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Read the original on adanews.substack.com

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