Se dezembro, na imagem precisa de Mário Quintana, nos coloca no alto do décimo segundo andar do ano, janeiro nos devolve ao primeiro piso — um prédio em obras, aberto ao vento, ainda sem paredes definidas. Saímos do mirante e pisamos num chão provisório, onde quase tudo é projeto e pouca coisa tem forma acabada.
Começar um ano é parecido com atravessar uma porta.
Não uma dessas que se escancaram com promessas, mas uma passagem estreita, que exige atenção ao passo. Entre o que se encerra e o que ainda não começou, há sempre um intervalo incômodo, feito mais de perguntas do que de respostas.
É nesse espaço de transição que o tempo parece pedir menos entusiasmo e mais lucidez.
Talvez por isso, diante do desconhecido, a humanidade tenha recorrido tantas vezes aos oráculos. Queremos saber antes, garantir depois, reduzir o risco.
Joseph Campbell lembra que, nos mitos, o oráculo raramente cumpre essa expectativa. Ele não esclarece: desloca. Não tranquiliza: empurra o herói para fora da zona segura.
Quem espera previsões sai frustrado; quem aceita a travessia descobre que caminhar também é uma forma de resposta.
A tradição cristã herdou esse antigo hábito, mas manteve com ele uma relação vigilante. Sempre desconfiou dos oráculos que se deixam consultar, como se o futuro pudesse ser domado à força.
Não porque o amanhã seja irrelevante, mas porque a ansiedade de arrancar respostas costuma nascer do medo — e o medo, quase sempre, cobra caro.
Ainda assim, a Bíblia fala de oráculos, e muitos.
Os profetas do Velho Testamento os proclamam em nome de Deus, e o povo é chamado a escutá-los. Mas há nisso uma diferença decisiva: esses oráculos não descrevem o que virá e sim alertam sobre o que está errado e o que pode ser modificado para melhor.
São palavras que pesam, não previsões feitas para confortar.
Talvez esteja ali uma chave discreta para o início de mais um ano. Entre os discursos que prometem controle e as palavras que pedem responsabilidade, a escolha não é neutra.
Para alguns, o desejável pode ser o alívio da angústia mesmo que por instantes. Para outros, pode ser necessário uma mudança de vida. Uns falam de metas; outros insistem no modo como usamos o tempo que nos foi confiado.
Janeiro, afinal, não pede adivinhos, pede disposição. O ano que começa não se revela em slogans, listas de intenções ou promessas formuladas à meia-noite.
Ele se constrói no uso cotidiano dos dias, no trabalho silencioso, nas decisões pequenas e repetidas, na fidelidade ao que foi assumido quando o barulho das festas já cessou.
Como católico que sou, não espero do novo ano sinais extraordinários nem garantias antecipadas. Espero, quando muito, a graça do discernimento: essa forma humilde de atravessar as portas sem exigir que o futuro se explique antes da hora.
Entre o que passou e o que ainda não tomou forma, resta-nos atravessar o limiar com atenção, coragem e esperança. O prédio está em obras.
E essa continua sendo uma boa notícia.

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