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Beto Queiroz · Jan 26, 2026

Os fugidios peixes do espírito

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ADALBERTO DE QUEIROZ · Beto Queiroz

No domingo passado, reli uma crônica do poeta Lêdo Ivo, publicada há mais de 60 anos. Ela contém uma imagem capaz de recompensar o leitor que vem em busca de uma leitura leve, dessas que distraem e, por alguns minutos, nos fazem esquecer os aborrecimentos, as intempéries e as angústias do cotidiano.

“Domingo é dia de pescaria – mas, evidentemente, só para quem sabe pescar…”

O ofício do pescador, como o dos poetas, pede paciência, silêncio e solidão.

Assim o poeta-cronista fisga o leitor logo na primeira linha, para contar sua deliciosa “Viagem em torno de uma cocoroca”.

Eu, tal como o pai que aparece de mãos dadas com o filho, observando o pescador domingueiro – também não sei pescar. Mas aprecio os que dominam essa arte… ou seria técnica? Talvez as duas coisas, pois técnica repetida, com o tempo, vira arte.

Na juventude, tive um amigo que antes fora meu chefe num banco: Alfredo Talarico, pescador apaixonado. Lêdo Ivo diz que os pescadores, como os músicos, formam uma espécie de corporação – gente que transforma o próprio ofício numa filosofia de vida.

Talarico era assim. Tamanha era sua devoção à arte, à tralha de pesca e à espera pelo peixe que lhe dediquei dois poemas no meu primeiro livro, reunidos sob o título “O livro do pescador”.

Ele sempre voltava de suas pescarias recarregado de energia para enfrentar as agruras do cotidiano bancário, que, convenhamos, nem sempre promete a mansidão de um rio.

O ofício do pescador, como o dos poetas, pede paciência, silêncio e solidão. Quando abordado à beira-mar, o pescador quase nada responde ao curioso que tenta quebrar-lhe a concentração.

Pescar pede, sobretudo, espera: essa virtude hoje tão desprezada, quando quase tudo quer ser imediato, ruidoso, apressado.

De minha parte, aprendi a apreciar o silêncio com o passar dos anos.

Tenho exercitado muito esse recolhimento quando leio e, principalmente, quando escrevo. Nesses momentos gosto de estar no meu canto, sem ser agarrado por voz nenhuma, porque, como diz Lêdo Ivo, “não desejo beber esse elixir de curiosidade, tédio e convivência que as criaturas servem umas às outras, quando conversam”.

Em certos dias, sinto-me mesmo um colega do pescador: “Sentado a uma mesa, me dedico a capturar, no improfundável rio da vida, os fugidios peixes do espírito.”

Sei a diferença entre ser só e estar sozinho. Ser só é estado profundo, é solidão que não passa, mesmo se houver vozes ao redor, pois é sentimento que dói no corpo e na alma. Estar sozinho é uma escolha, que cabe em um pequeno intervalo de tempo e revigora o espírito. Ser só fere pela permanência, estar só é um prêmio concedido pela maturidade.

Pensando nisso e retomando meu poema “O livro do pescador”, aproveito para convidar o leitor para o lançamento da Seleta de minha poesia, organizada pelo escritor Carlos Willian Leite, no dia 29, às 19h, na Livraria Palavrear.

Deixo aqui um trecho do poema:

Calado e arisco
o pescador espera
que o peixe amadureça sua fome
até rebrilhar à tona d’água
com seu corpo nu
rabanando segredos expostos e náufrago do ar
(...)
por isso tudo
é silêncio
à beira rio
aos cais
ou alto mar.

*Se gostou desta crônica, adquira meu livro “Entre esplendores e misérias” - crônicas de memórias e de viagens. Está disponível na Livraria [tc] (link).

Read the original on adalbertoqueiroz.substack.com

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