Nesta época do ano, munidos de robôs e inteligência artificial, descobrimos quantas e quais músicas mais ouvimos nos aplicativos e os vídeos que nos atraíram no YouTube.
É como estar diante de um espelho, que reflete nossas preferências e, também, aquilo que deixamos de fazer ou o que nos aprisionou nos últimos doze meses.
Se antes o balanço do ano dependia apenas da memória, hoje estamos cercados por relatórios digitais, listas automáticas, notificações triunfais: “parabéns! Este ano, você leu 3.247 páginas!”.
Os que rejeitam o mundo digital recorrem aos seus cadernos para manter vivo o ritual das listas feitas à mão, das páginas rabiscadas com as suas listas de leituras, filmes e séries de Tv.
Esses balanços analógicos carregam uma dose de afeto e subjetividade que nenhum robô consegue replicar. Há um encanto discreto nas retrospectivas escritas à mão – tão raro quanto cultivar uma coleção de discos de vinil.
Esses inventários podem virar assunto nas redes sociais, nas conversas olho no olho, nos jantares da família, nos restaurantes e bares –, até porque são temas bem mais amenos do que discussões em torno de preferências políticas ou esportivas.
Há memórias que simplesmente não cabem em células eletrônicas e nem mesmo nos caderninhos de notas: o pôr do sol numa praia distante; a surpresa de uma estrela cadente num céu de verão, o sabor de uma refeição simples entre amigos, com boa música e um bom vinho; os primeiros passos de um filho ou neto; ou até mesmo o gesto de acordar e olhar para o dia como um presente.
Essas pequenas epifanias não pedem comprovação documentada. Pedem silêncio, tempo e cuidado. São rituais íntimos e antigos: lembrar do que valeu a pena, agradecer o que ficou marcado, esquecer os percalços.
Talvez a melhor retrospectiva seja aquela que não pode ser arquivada, apenas revisitada pela memória afetiva.
Ao fazer esse inventário pessoal, descobrimos o que valeu a pena carregar e o que foi peso desnecessário; o que nos fez crescer e o que nos desgastou. E assim, nesse exercício quase poético de organizar memórias, abrimos a porta para que a vida, com sua maneira imprevisível de recomeçar, possa entrar.
Esse balanço anual também nos oferece um senso de fechamento, dando significado às experiências e nos livrando daquilo que não queremos levar adiante.
Quando os fogos de artifício nos encontrarem à espera do Ano Novo, desejamos que o seu brilho venha nos lembrar que há sempre algo novo a começar provendo espaço mental e emocional para novas possibilidades.
E é justamente no intervalo – entre o que já foi e o que há de vir – que nasce a chance de refazermos nossas escolhas com mais sabedoria e leveza.
Segue o Tempo em seu trabalho e, ainda que munidos apenas com a frágil armação da memória, esperamos a virada como símbolo de esperança, como nos ensina o poeta maior Carlos Drummond de Andrade, em “Passagem do ano”:
“O último dia do ano não é o último dia do tempo…
Outros dias virão. (,,,)
Fica sempre uma franja de vida
onde se sentam dois homens...”

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