O autor inglês Richard Holmes, em um de seus livros de viagem e biografia, refez, anos depois, o percurso da peregrinação de Robert Louis Stevenson pela França. Em Seguindo Viagem, Holmes sustenta que o verdadeiro centro da vida do escritor escocês não estava na aventura nem na errância, mas no elo de amor humano.
Detive-me longamente nessa expressão – “elo de amor humano”; e, aos poucos, fui concluindo que o lar é um dos territórios onde esse elo tanto pode se aprofundar quanto ruir. É ali que a alma encontra, ou não, alguma recomposição, enquanto o mundo lá fora se encarrega de impor derrotas, desgastes, pequenas erosões de confiança, e, às vezes, até a perda da fé.
Passei então a examinar meu próprio cotidiano, atento aos instantes em que esse elo se fortalece ou se fragiliza.
Acordo cedo em alguns dias; em outros, nem tanto. Abro a janela, faço o sinal da cruz diante do quintal, onde plantas nativas convivem com coqueiros que eu mesmo plantei. Agradeço a Deus por mais um dia, em prece silenciosa.
Depois da higiene, sigo para a cozinha. Ponho a mesa, aciono a máquina de café, corto frutas frescas. Minha mulher se ocupa do restante.
É boa cozinheira, e faz isso com uma mistura rara de precisão e afeto. Tapioca ou cuscuz, ovos fritos, sempre separados. Tomamos o café ouvindo música em volume baixo. Ela brinca dizendo que, em noventa por cento das manhãs, reina Chopin.
Preparo um chá chinês. Só, então, dou uma rápida espiada nas mídias sociais. Recolho-me, depois, ao meu recanto de leitura. Quando percebo, a manhã se dissolveu.
À tarde, a engrenagem muda levemente. E o dia passa. E os dias correm; e a vida, silenciosamente, escoa...
Então, me dou conta de que esses gestos miúdos, quase automáticos, compõem mais do que uma rotina: compõem um modo de estar no mundo. Nada têm de grandioso. Ainda assim, tecem pertencimento. Ligam-me à minha mulher, à família, aos livros, à música, a mim mesmo e a Deus. Um elo.
Stevenson talvez estivesse certo. A vida raramente se organiza em torno de feitos memoráveis. Estrutura-se, antes, sobre vínculos discretos. E, talvez, um dos mais difíceis seja este: permanecer em companhia de si mesmo, sem tornar-se um estranho para si – condição silenciosa para sustentar o elo com quem amamos.
Porque o elo de amor humano não nasce do ruído nem da festa. Nasce da permanência. Do silêncio partilhado. Não é feito de promessas grandiosas, mas tecido na repetição dos dias, quando, sem perceber, fazemos escolhas, moldamos hábitos e decidimos quem somos no mundo.
Talvez o segredo esteja em não esperar grandes acontecimentos, mas em perseverar no cuidado quase invisível; na coragem delicada de permitir que alguém nos alcance com seu gesto, seu toque, sua presença – nessa corrente em que somos, uns para os outros, elos.
Ou, quem sabe, simplesmente sustentar uma sucessão de gestos silenciosos que amparam o dia, como nestes versos de Aidenor Aires:
“O poeta carrega a música do mundo.
Colhe andrajos da luz com que um deus se exprime.
E no aconchego de pó, coágulo, evento,
goza o eterno na angústia do dia frágil que redime.”

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