“É à nossa maneira, balbuciando, que enunciamos as alturas divinas.”
A frase de São Gregório Magno deveria preceder toda tentativa de falar de Deus. Mais apropriado é mesmo balbuciar e não tentar explicar como quem pensa dominar o infinito.
Nesta Quaresma, não se trata de ensinar novidade alguma, como se a fé fosse um segredo a ser comercializado, mas de reaprender o sussurro. Se um doutor da Igreja se reconhece criança diante do Mistério, o que dizer de nós?
Muitas vezes nem gaguejamos: experimentamos certo desconforto e a impostura de falar de Deus como se dominássemos o assunto, quando ele nos excede infinitamente. Talvez precisemos, como sugere Hadjadj em Como falar de Deus hoje?, de um verdadeiro antimanual de evangelização: não técnicas para convencer, mas uma pedagogia de contenção.
Vivemos sob o império do desempenho. Trabalhamos muito e opinamos demais. A linguagem tornou-se extensão do ego; falar virou sinônimo de afirmação. Nesse ambiente saturado, o risco é transformar Deus em mais um produto no mercado das convicções.
Esse antimanual nos ensina a não falar para impor ou vencer debates, mas a usar a palavra com reverência, pois, como diz o poeta alemão Hölderlin: “a palavra é a flor da boca. Nela floresce a terra ao encontro da floração do céu.”
A fé não pode se converter em instrumento de disputa sem perder densidade. A palavra religiosa não é arma retórica nem mercadoria simbólica, mas testemunho frágil. Porém, o risco inverso é calar-se por medo.
Balbuciar não é silêncio absoluto; é falar humildemente, consciente dos limites, mas ainda falar, e, entre o excesso e a omissão, escolher a sobriedade.
Nesse ponto, o recente apelo do Papa Leão XIV ganha força inesperada: menos redes sociais, menos exposição impensada e, sobretudo, renúncia à maledicência, que é falar sobre o Outro em claro julgamento sem direito à defesa.
A penitência é simples e exigente: segurar a língua. O jejum não é apenas de alimentos ou bebidas; deve ser verbal. Deve ser também digital: disciplina de não comentar tudo, de não amplificar rumores, de não transformar a fragilidade alheia em espetáculo. Byung-Chul Han oferece o diagnóstico do momento: vivemos a inflação da fala; e o Papa explicita sua consequência moral, que é a maledicência disseminada, o julgamento sem contraditório.
Falar de Deus exige humildade. Abster-se de falar do próximo o exige de igual modo. Assim, a Quaresma pode tornar-se escola da linguagem: jejum da frase precipitada, abstinência da ironia corrosiva, vigilância contra a palavra que adoece a alma. Devemos conter a língua diante dos feitos alheios e admitirmos que não somos juízes da vida dos outros.
Na sociedade do cansaço (Han), vivemos um tempo de tribunas permanentes, opiniões instantâneas e pouca contenção. A penitência proposta é radicalmente contemporânea: silêncio pessoal e o sussurro diante de Deus.
E assim evitaremos cair na profecia de Louis Massignon, em carta a Paul Claudel, em 1912:
“Eu me pergunto se o suplício das gerações vindouras não será a tortura por palavras que mentem quanto ao seu sentido original, ideias voltadas contra Deus.”

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