Nem todo rompimento começa com uma briga. Muitos começam com uma conversa que nunca aconteceu. É mais fácil seguir adiante do que parar e enfrentar o que precisa ser dito. Porque isso exige confronto, e é justamente isso que mais tentamos evitar.
Algo acontece, alguém se contraria, e o silêncio surge, não como pausa, mas como corte. E, aos poucos, o que deixa de ser dito começa a afastar não só duas pessoas, mas também a pessoa de si mesma.
Talvez por isso as relações pareçam cada vez mais frágeis. Zygmunt Bauman chamou esse tempo de “líquido”, que são nada mais nada menos que vínculos que não sustentam a tensão, que se desfazem ao primeiro desconforto, que não suportam o peso de uma conversa difícil.
Porque, no curto prazo, fugir parece mais fácil
“Para quê enfrentar isso agora, se posso simplesmente seguir sem precisar passar por essa conversa incômoda?”
E é nesse ponto que o que antes era alinhamento começa a se transformar em afastamento. Os problemas deixam de ser resolvidos, os ajustes deixam de ser feitos e, com o tempo, as conversas se tornam menos frequentes.
Clarice Lispector expressa bem esse risco do silêncio quando diz em A Paixão Segundo G.H.:
Por te falar eu te assustarei e te perderei? mas se eu não falar eu me perderei, e por me perder eu te perderia.
A fuga seduz porque não é confortável se expor, expressar fragilidades e correr o risco de que o que será dito não seja bem recebido. Não é difícil pender para esse lado. Afinal, o nosso cérebro tende a buscar o que é mais fácil, e nesse caso, o mais fácil é deixar para lá.
Só que, mesmo fazendo isso e seguindo como se nada tivesse acontecido, a armadilha já está montada. O conflito não foi embora, a situação não se resolveu sozinha e, quando retorna, vem quase sempre com maior peso do que tinha no início.
É aí que o longo prazo bate à porta. Quando deixamos de colocar o conflito na mesa, o preço a se pagar é alto. O relacionamento se desgasta e o fim passa a parecer inevitável.
Pelo caminho mais difícil.
O desconforto estará lá. A tensão também. O medo de se expor, sem saber o que virá do outro lado, não desaparece.
Mas o que pode fazer alguém escolher o conflito é uma única coisa: decisão.
O amor, e qualquer vínculo verdadeiro, seja de amizade, seja familiar, não se sustenta sem confronto. Se assim fosse, o que restaria seria apenas anulação: a sua ou a do outro.
Manter uma conexão viva dá trabalho. Exige tempo, exige ajustes, exige autoconhecimento. E, quanto mais se foge disso, mais se foge de si mesmo.
Porque, quando você evita um conflito que precisa ser enfrentado, não está apenas se afastando do outro, está abrindo mão da possibilidade de se tornar quem só você poderia ser.
Olhar nos olhos de alguém e dizer o que incomoda é, antes de tudo, um gesto de respeito pela própria história, pelas experiências que nos formaram e pelo desejo de lidar com o outro de forma honesta.
Essa coragem não nasce de um dia para o outro. Ela se constrói aos poucos, na medida em que deixamos de viver apenas para agradar e começamos a nos posicionar sem nos anular.
Não se trata de um discurso de força ou de autoafirmação vazia, mas de compromisso com a verdade. Porque fingir que nada está acontecendo não mantém a paz, apenas sustenta um silêncio que, mais cedo ou mais tarde, cobra o seu preço.
Se entrar em um conflito é algo que te faz sentir mal só de pensar, talvez seja o momento de reavaliar o quanto você tem perdido de si mesmo por não falar.
Mas…
Se a intenção de ambos os lados é continuar, talvez atravessar uma tempestade seja exatamente o que é necessário.
Se desejar, responda este e-mail contando o que mais conversou com você hoje.
Talvez esta carta também possa alcançar alguém que precise dessas palavras. Se lembrar de alguém, encaminhe-a.
Nos encontramos na próxima segunda.

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