Primeiro dia de agosto. É um sábado de sol. Caminho pelas ruas do bairro rumo à Velocity para cumprir aquele combinado da mulher 50+ que quer dormir bem à noite. No meio do caminho, repasso na cabeça o trecho de extremo amor que eu acabara de ler, de um livro sensível e potente que está na minha mesa de cabeceira, “Como Navegar o Abismo”, da Paula Gicovate. Ela relata como foi lidar, afundar e emergir do luto pela perda da mãe depois de um câncer. Sua personagem principal, Nara, é uma chef de cozinha em ascensão e seus sentimentos todos conversam com a cozinha. Dado momento, ela diz que aprendeu a cozinhar depois de ouvir de sua avó que começasse pelo prato que ela mais gostava.
Paula é uma autora visceral e... minha amiga. Me emociono em especial com esse trecho pois ela já havia me prevenido: você vai se encontrar no livro. E de fato, me encontrei dado que tal conselho – na ficção atribuído a sua avó – foi uma fala minha para ela quando trabalhamos juntas, anos atrás. Mesmo antes de criarmos intimidade, Paula me contava sobre aquela vontade bastante comum de cozinhar que se apaga com o descrédito de quem acha que a cozinha é lugar de dom. Posso dizer, pensando hoje, que a cozinha foi um elo entre nós, um fio condutor de afeto que nos ver querer mais perto, uma da vida da outra.
Voltando às ruas do bairro, rumo a Velocity, repasso então não só o trecho mas o quentinho que é saber que tem gente que gosta da gente como a gente é. Eu sei que estou longe de ser uma unanimidade. Costumava brincar com uma amiga minha que se nós fôssemos um rodízio, ela seria de massas – todo mundo ama – e eu seria de japonês – é preciso se acostumar.
Entro na academia, pego minhas sapatilhas, sento no banco que tem os armários atrás. Me abaixo para calçar as sapatilhas e quando retorno à posição ereta, boom. Bato com as costas na porta de um armário recém-aberto. Tá lá, uma querida que resolveu se antecipar e, de papo com a amiga, abriu, deixou aberto, e não previu que dois corpos não ocupam o mesmo espaço.
- “oi, da próxima vez, avisa ou deixa a porta fechada, por favor”, eu disse – tentando ser educada mas não exatamente uma fofa.
- “mas eu estou colocando minhas coisas dentro do armário”, ela rebateu.
(( gente, custava apenas falar “me desculpa!”? – era o que estava na minha cabeça ))
- “sim, mas eu já estava aqui e não tinha como te ver porque eu estava abaixada, como todo mundo faz quando senta aqui pra calçar a sapatilha. É só deixar a porta fechada enquanto tem gente na frente ou avisar, tranquilo”.
- “mas como eu vou deixar a porta fechada se eu estou colocando minhas coisas dentro?” – (( Deus, é sábado de manhã... ))
Bom, vou poupar vocês mas o diálogo terminou com “não existe só você no mundo” da parte dela e “exatamente isso que estou tentando te dizer” da minha parte. Corta para a sala sempre congelante e com vibes de boate da Velocity.
A aula começa, pedala, pedala, pedala. Repasso na minha mente que a tal amiga da querida me olhava como quem me repreendesse durante o diálogo (( não foi um barraco, juro)) . E eu na minha cabeça “mas meu deus do céu, eu já estava ali!”. Imaginei que se fosse uma amiga minha – talvez a Paula – ou meu namorado, eles estariam com esse mesmo olhar, só que pra querida. Ou seja, quem gosta da gente acolhe a gente. Não importa como nem por quê.
Muda o ritmo. Do pedal de força, vai pro giro. E a cabeça vai junto. Vem a Paula, vem a querida, vem a batida nas costas, vem eu xingando por dentro “que folgada!”, vem o olhar da amiga da folgada, vem o livro da Paula, vem a cozinha da Nara, vem o luto da Nara, vem a cura da Nara, a cozinha, a folgada, a batida... alguém me acolha.
Nesse looping insano que é a cabeça de uma aquariana com ascendente em câncer, me pego e me apego no paralelo que eu fiz: a gente sempre acolhe quem a gente gosta. A cozinha também. Se você não gosta da cozinha, ela não vai gostar de você também. Vai te colocar as maiores dificuldades. Ora vai ser a querida que deixa a porta do armário aberta, ora será a amiga da querida que vai te julgar. Mas chega uma hora que vai ser a Paula, que com a voz mais sedosa do mundo vai perguntar “amiga, machucou?”. O caminho de uma situação para outra, porém, quem determina é você.
Acho que foi por isso que, anos atrás, quando a Paula me disse que queria aprender a cozinhar, a única resposta que me ocorreu foi: começa pelo prato que você mais gosta. Não era um conselho técnico. Era um jeito de dizer que toda relação precisa de um começo gentil. Com a cozinha também.
E essa é uma relação que vale a pena cultivar. Porque você dá um pouco de paciência pra cozinha e ela te devolve presença. Ela te ensina a reparar, a experimentar, a esperar. De repente, deixa de ser um lugar onde tudo dá errado e passa a ser um lugar pra onde você volta. Como quem volta pra alguém de quem se gosta.
É ou não é?
(( FIM ))
Ps1: Perdi metade da aula de bike na Velocity pensando no ocorrido mas me rendeu um texto. E nem 2 dias depois, topei com a querida na Velocity e parecia que nada tinha acontecido, nem pra mim nem pra ela. Fiquem tranquilos. rsrsrs. #paz
Ps2:: O final desse texto não é um spoiler do final do livro da Paula Gicovate. Mas poderia ser. #avisei
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