Essa foto me dói de um jeito específico. Eu, com meu bebê no sling, sentada numa escada na entrada de um hotel-fazenda em Águas de Lindóia. Ele sorrindo de um jeito que toca meu coração. Eu, totalmente alheia à foto, olhando para o feed. Era Natal, eu acho. Eu estava de licença-maternidade, sem nenhum compromisso de trabalho, ou urgência para olhar a internet. Minha mãe tira a foto. O bebê percebeu e sorriu. Eu fiquei perdida na internet.
O autor de “A geração superficial - O que a Internet está fazendo com nossos cérebros”, Nicholas Carr, explica melhor que eu o que está acontecendo:
“Nós temos profundamente em nossa biologia esse desejo de saber tudo acontecendo ao nosso redor e isso é amplificado por outro instinto muito básico, nosso instinto social. São os chamados instintos de sobrevivência pois estão conectados à nossa própria sobrevivência como espécie. Mas pense sobre o que fizemos nos últimos anos, criamos essencialmente, este novo ambiente digital, em que entramos por meio de nossos smartphones, criamos um ambiente ilimitado de informações e então pedimos para esse ambiente enviar informações para nós o tempo todo. Nós temos esse instinto que é muito instinto primitivo de querer saber tudo o que está acontecendo ao nosso redor e então criamos um ambiente que não tem fim para a informação. Começamos a ver muito rapidamente um tipo de comportamento compulsivo, você provavelmente já viu esse tipo de comportamento compulsivo em você mesmo, puxando seu telefone mesmo quando nada está acontecendo e não há nem mesmo qualquer razão particular para fazer isso”
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O que nós entregamos quando aceitamos a onipresença do celular e das redes sociais em nossas vidas?
Entregamos o agora. A presença de estar inteiramente em um lugar, conversando com pessoas fisicamente, sem sentir aquela coceira de checar o que está acontecendo na Internet.
Entregamos a memória. Não precisamos mais lembrar de nada. Endereços, aniversários, o nome do ator daquele filme, a letra completa da música… Às vezes a gente até tenta, mas se rende a procurar no nosso HD externo chamado Internet. Com isso, atrofiamos nossa capacidade de buscar internamente algo que um dia aprendemos. Há ainda um agravante: enchemos tanto o nosso sistema de imagens e besteiras que às vezes esquecemos palavras básicas no meio da conversa. É o cérebro nos avisando que está sobrecarregado.
Entregamos a concentração. De aba em aba, a gente nunca termina nada. Não é à toa que essa newsletter se chama Abas Infinitas. É uma tentativa de organizar em uma narrativa tudo o que vejo na internet, tudo o que penso sobre esse mundo que está cada vez mais rápido. Vivemos na era do “Déficit de Atenção Adquirido”, pois a forma como a comunicação online é fragmentada entre diferentes janelas e plataformas, não nos deixa ter nenhum pensamento profundo. Tommy Dixon, escritor que fez um ensaio sobre o fim da era “extremamente online”, escreveu: “À medida que a conversa cultural é dominada pelo que é rápido e barulhento e imediatamente envolvente, perdemos a capacidade de pensar em parágrafos, de refletir profundamente sobre a mesma coisa durante meia hora, de praticar qualquer forma de atenção sustentada.” Eu escrevi sobre a sociedade do cansaço e “a busca pelo Nada” nesta edição da Abas Infinitas.
“A navegação na web exige uma forma particularmente intensa de multitarefas mentais. Além de inundar nossa memória de trabalho com informação, o malabarismo impõe, como denominam os cientistas do cérebro, ‘custos de comutação à nossa cognição’. Toda vez que deslocamos nossa atenção, o nosso cérebro tem que se reorientar novamente, exercendo mais pressão sobre nossos recursos mentais. Muitos estudos demonstraram que a comutação entre apenas duas tarefas pode incrementar substancialmente a nossa carga cognitiva, impedindo o nosso pensamento e aumentando a probabilidade de que passemos por cima ou interpretemos mal informações importantes,” mais uma do Nicholas Carr.
Entregamos a criação. A IA agora faz arte, memes, filmes, roteiros, textos, planeja a dieta, responde o e-mail difícil, decide o que assistir. Abrimos mão da criação humana, e do pensamento que decide se as coisas devem ser de um jeito ou de outro. E com isso, deixamos de valorizar o aprendizado pelo erro e confiar em uma máquina para dizer o que é o certo. Não é que não devamos usar essas ferramentas. É que quando usamos uma muleta permanentemente, a gente fica cada vez mais dependente.
Entregamos a conexão humana. O fato de seguirmos as pessoas nas redes sociais nos dá a falsa impressão de que estamos próximos e acompanhando tudo o que elas estão fazendo, mas isso é só um simulacro de relacionamento. Na verdade, somos stalkers da vida alheia, que não queremos pagar o custo de realmente mandar uma mensagem, encontrar para um café, ou mesmo ter uma conversa mais profunda. Ficamos então nos enganando que temos um milhão de amigos, quando na verdade, temos pouquíssimas conexões realmente reais e profundas.
“Uma das perguntas mais importantes que o homem moderno precisa fazer a si mesmo é: quanto tempo está disposto a passar sendo passivamente entretido?” Tommy Dixon
E isso é só o começo
O capítulo dois está sendo escrito agora em uma velocidade que nenhum humano consegue acompanhar direito.
Um estudo da Gallup apontou que 99% dos norte-americanos usaram pelo menos um produto movido a IA na semana anterior. Dois em cada três sequer sabiam disso. Não é ignorância. É que a IA parou de se anunciar. Ela entrou no teclado, no filtro da foto, no algoritmo do feed, no atendimento do banco. Deixou de ser uma ferramenta que você abre. Virou o ambiente em que você vive.
Nossa dependência de IA e o consumo de conteúdo gerado por IA só tendem a aumentar. E nossa capacidade de distinguir o que é real do que não é só tende a diminuir.
E as fronteiras desse ambiente estão desaparecendo. Deepfakes de políticos declarando guerra ou montando um castelo de areia na praia. Vozes de parentes pedindo dinheiro por telefone. Vídeos de eventos que nunca aconteceram circulando como notícias. Em março de 2025, a Universidade da Califórnia em San Diego reportou que o GPT-4.5 passou no teste de Turing, sendo julgado humano em 73% das interações. Uma máquina convenceu a maioria das pessoas de que era gente. E nem é o modelo mais avançado disponível hoje.
A IA é hoje uma muleta que serve para tudo, e que cada vez mais terá poder sobre o que vemos, o que compramos, e pode até decidir se alguém terá autorização para uma cirurgia em um plano de saúde, ou um julgamento justo no tribunal. Isso não é trivial. E está acontecendo debaixo dos nossos olhos.
Há poucos dias, a Anthropic, empresa que faz o Claude, pediu uma pausa global no desenvolvimento dos modelos mais avançados. Os números que ela própria divulgou explicam o alarme: mais de 80% do código da empresa já é escrito pelo próprio Claude, o tempo de execução de tarefas diminui pela metade a cada quatro meses, e a projeção é que em 2027 sistemas de IA consigam fazer em horas o que leva semanas para humanos qualificados. Mas a empresa reconheceu o paradoxo: se só ela parar, será ultrapassada. O mundo ouviu, e não fez nada.
O autor de Sapiens, Yuval Harari, tem alertado sobre isso há bastante tempo. Para ele, a IA não é automação. É um agente independente, capaz de aprender e evoluir por conta própria, de tomar decisões e inventar novas ideias sozinho. Uma palavra mais adequada para essa tecnologia seria “inteligência alienígena”, pois opera em linhas completamente inorgânicas. Não é uma ferramenta que a gente usa. É uma entidade que pensa de um jeito que não reconhecemos como pensamento, mas que produz resultados que reconhecemos como inteligentes.
E ela está crescendo mais rápido do que qualquer coisa que construímos antes.
Hora de recuar
Equilíbrio é tudo.
Não estou falando de largar tudo e ir viver numa cabana sem Wi‑Fi (mas isso também não seria uma má ideia). Estou falando de uma “recusa de participar” de forma mais consciente.
“Em algum momento, teremos de desenvolver alguma engrenagem interior para lidar com isso. Porque a tecnologia continuará melhorando sem parar. E ficará cada vez mais fácil, mais conveniente e mais prazeroso permanecer sozinho, diante de imagens numa tela, oferecidas por pessoas que não nos amam, apenas querem o nosso dinheiro. Isso é aceitável em pequenas doses. Mas, se esse for o alimento principal da sua existência, você morrerá. E não falo de uma morte física, mas de uma morte que realmente importa.” — David Foster Wallace
O mais impressionante é o contexto: Wallace estava falando em 1996, antes de redes sociais, smartphones, streaming, TikTok ou algoritmos de recomendação modernos. Ele se referia principalmente à televisão e ao crescimento inicial da internet, mas a observação soa quase profética hoje.
A IA é inevitável (lembrei dessa cena de Hacks, por favor assista). Continuo usando IA no trabalho e me adaptando às ferramentas, porque o mercado não vai esperar. Mas existe uma diferença enorme entre usar a tecnologia como instrumento e alimentá-la com a sua vida como matéria-prima.
Tudo o que você posta vira dado que treina sistemas e algoritmos, o que torna os modelos melhores em nos entender e, portanto, melhores em nos manipular (ou pelo menos nos manter presos em seus loops que nos roubam do mundo físico, da “vida real”). Se não custa nada, você é o produto. Eu fui procurar o autor dessa frase e o Google vestiu totalmente a carapuça.
OK, Google.
Sei que é tarde para limpar o rastro. Mas não é tarde para parar de aumentá-lo. O que estou tentando fazer, aos poucos, e com muito tropeço, é separar as duas coisas. Usar as ferramentas sem me tornar o conteúdo delas. Aparecer menos. Viver mais. Sair e não postar. Comer bem e não fotografar. Ter uma conversa boa e não transformá-la em thread. Sentir saudade de alguém e ligar, em vez de correr para ver o perfil da pessoa. Rir de algo engraçado sem pensar imediatamente se aquilo ficaria bem em uma legenda de post. E principalmente, não dar autorização para o Claude acessar as pastas locais do meu computador. São decisões no micro, que nem escolher separar lixo e tomar banhos rápidos enquanto grandes corporações desperdiçam água e não reciclam. O que eu posso fazer, para sentir que tenho algum efeito no mundo, é no micro mesmo.
A escritora Jia Tolentino se questiona se a gente conseguiria retomar o status do ser humano antes de termos sido capturados pelo mundo digital.
“Não temos nada além de nossas pequenas tentativas de reter nossa humanidade. Devemos agir segundo um modelo de individualidade real, que aceita a culpabilidade, a inconsistência, e a insignificância. Teríamos de pensar com muito cuidado sobre o que estamos recebendo da internet e o quanto estamos dando em troca. Teríamos de nos importar menos com nossas identidades, ser profundamente céticos em relação às nossas opiniões insuportáveis, prestar atenção nos momentos em que a oposição nos beneficia, ter vergonha quando não podemos expressar solidariedade sem nos colocarmos em primeiro lugar”.
A vida offline não é menos real por não ter registro. Um jantar sem foto aconteceu. O pôr do sol que você não conseguiu tirar uma foto boa, te emocionou. Uma tarde lenta sem nada para mostrar foi, talvez, a melhor tarde da semana. A gente foi convencido de que o que não é documentado não conta. Mas conta. Conta só para você, que é exatamente para quem deveria contar mais.
"O vilão aqui não é necessariamente a internet ou mesmo a ideia de mídias sociais, mas a lógica invasiva comercial das mídias sociais e sua motivação financeira de nos manter em um estado constante de ansiedade, inveja e distração para lucrar em cima disso", resume Jenny Odell no livro How to Do Nothing.
Jenny Odell acredita que precisamos ser capazes de fazer as duas coisas: entrar e sair da internet. Contemplar e participar.
"Estar de fora significa não fugir do inimigo, mas conhecê-lo. O inimigo não é o mundo, mas os canais pelos quais ele chega para você. Também significa dar a si mesmo uma pausa crítica que os ciclos da mídia e as narrativas não vão te dar, permitindo-se acreditar em outro mundo enquanto vive neste".
Ela aponta um possível caminho de fuga para resistir à economia da atenção: escolher no quê prestar atenção. Já que não dá para se retirar do mundo digital, devemos estar conscientes do que consumimos em termos de informação e carga mental para podermos agir com consciência quando for necessário.
“O que escolhemos notar e o que não percebemos - é como nós transformamos a realidade para nós mesmos. (...) Não é só que viver em um estado constante de distração é desagradável, ou que uma vida sem pensamento e ação é empobrecida. Se é verdade que o coletivo se espelha e confia na capacidade individual de ‘prestar atenção’, então, em um tempo que exige ação, a distração parece ser uma questão de vida ou morte”, escreveu Jenny.
O meu jeito de gritar com as nuvens
Não tenho ilusão de que essa newsletter possa mudar alguma coisa no grande esquema. A corrida pela nossa atenção vai continuar a todo vapor. As plataformas são grandes demais, os algoritmos rápidos demais, o conforto é conveniente demais.
Mas acredito numa coisa: que as mudanças que importam começam na conversa. Na mesa de bar. No almoço de domingo. Quando alguém fala “você viu isso?” e a discussão vai para um lugar que nenhum algoritmo teria sugerido para nenhum dos dois.
Escrever aqui é o meu jeito de puxar esse assunto. De dizer em voz alta que não é normal estar com o bebê no colo olhando para o feed. Que não é inevitável. Que a gente escolheu isso e pode escolher acertar daqui pra frente.
No fim, a pergunta que todo mundo precisa responder é o quanto você quer viver de verdade, em vez de apenas tentar criar um rastro cool da sua existência na Internet.
Algumas indicações para sair da bolha das redes sociais:
Os melhores filmes, segundo Kubrick
Foi na coluna do Ruy Castro, que eu adoro muito, que vi essa lista de filmes favoritos do Stanley Kubrick. Não os que ele dirigiu, mas os que ele mais gostou de assistir. Adorei ver filmes que venero como Os Boas-Vidas, Na Estrada da Vida, Morangos Silvestres, Ladrões de Bicicleta… Fui atrás de um por um e coloquei numa planilha com os links para assistir (com a ajuda do Claude, é claro). Comecei assistindo Umberto D., que eu nunca tinha ouvido falar e é uma obra-prima de Vittorio de Sica (acima na foto. Neo-realismo italiano só para os fortes). Passei por Glória Feita de Sangue, um dos melhores filmes de guerra que já vi. Pulei para The General, do Buster Keaton, filme de 1926 e com cenas que te deixam boquiaberto do início ao fim, disponível na íntegra no YouTube. Resolvi deixar em um link aberto caso alguém queira explorar esses filmes. O que está em vermelho é porque não achei como assistir. Se tiver alguma dica, deixe nos comentários.
Assistir a um TED Talk por dia
Comecei meio sem querer a assistir a TED Talks enquanto faço exercício. Meu primeiro interesse era absorver o que faz um bom roteiro curto e aprender como entregar informações importantes de forma concisa, mantendo a plateia engajada do início ao fim. O que encontrei foram muitos insights sobre como viver melhor a vida. Aqui está uma lista dos TED Talks mais assistidos de todos os tempos. Esse de cima é um dos meus preferidos: A cientista Jill Bolte Taylor sofreu um derrame e observou de perto suas funções de movimento, fala e autoconsciência entrarem em falência. Uma história incrível.
Ouvir um episódio da Mel Robbins por dia
Esse podcast é maravilhoso porque sempre traz conversas muito práticas para os problemas reais da vida. A Mel está sempre colocando o convidado no desconforto pedindo dicas práticas para que a audiência entenda e aplique o que estão ensinando. São neurocientistas, pesquisadores, agentes do serviço secreto, escritores… Pessoas que realmente trazem valor ao seu dia. E dá para treinar o inglês no meio do caminho.
Deixe seu comentário sobre como você consegue evitar o vício em internet. Vou adorar saber.
Até a próxima!
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