RSS Amplifier

Abas Infinitas Newsletter · Jun 2, 2026

#46 Abas Infinitas — A Geração Alpha vive em um mundo próprio (e você vai continuar sem entender nada)

0
Sign in to vote or save

Debora Nogueira · Abas Infinitas Newsletter

Na semana passada, meu filho ficou bravo comigo. Eu perguntava o que significava “six seven”. Ele me olhou com aquele misto de vergonha alheia e pena genuína. “Mãe. Isso é brain rot. Para.”

O problema é que ele não conseguiu me explicar o porquê exatamente era brain rot (essa última expressão eu já tinha na minha maleta de ferramentas). Nem de onde veio o six seven. Ele só sabia, no fundo, que aquilo representava algo perturbador da internet, um tipo de contágio cultural que chega antes da compreensão. De repente todos os amigos agem de um jeito novo, usam uma expressão nova, e ninguém sabe muito bem por quê.

No domingo (31), Casemiro e Vini Jr. comemoraram o gol contra o Panamá no Maracanã fazendo o gesto do six seven: as mãos balançando alternadamente com as palmas pra cima.

A resposta honesta cabe em uma linha: não significa nada. E é exatamente por isso que se tornou um dos fenômenos de linguagem mais interessantes dos últimos anos.

A expressão surgiu do refrão da música “Doot Doot (6 7)”, do rapper Skrilla, e explodiu quando o jogador de NBA LaMelo Ball começou a usá-la como referência à própria altura (6 pés e 7 polegadas). Uma professora de matemática no Texas contou ao Wall Street Journal que quando pede para os alunos fazerem as questões seis e sete, eles gritam “Six Seven!”. Isso acontece também na sala de aula do meu filho. Tem até professores que tentam falar o dialeto dos jovens para capturar suas atenções.

Em outubro de 2025, o Dictionary.com elegeu “6-7” como palavra do ano. “É parte piada interna, parte sinal social e parte performance. Quando as pessoas dizem isso, não estão apenas repetindo um meme, estão gritando um sentimento”, explicou o diretor de lexicografia da instituição.

Segundo o Dictionary.com, “6-7” mostra “como o humor digital, a cultura esportiva e a criatividade geracional se misturam perfeitamente no vocabulário atual”. É a primeira “palavra do ano” da história que é um número, que não significa nada e que todo mundo usa.

O desenho South Park também ironizou o fenômeno em um episódio recente, em que alunos obcecados por “6-7” são alertados sobre “numerologia satânica” e o “anticristo”, pelo Peter Thiel, em uma explicação que envolve Donald Trump e seu “minúsculo pênis”.

Não foi coincidência. Em 2024, a Universidade de Oxford elegeu “brain rot” como palavra do ano, definindo o termo como a deterioração do estado mental causada pelo consumo excessivo de conteúdo online de baixa qualidade. O uso da expressão cresceu 230% entre 2023 e 2024.

A Geração Alpha, responsável por criar esse conteúdo, foi também a que criou o termo que o critica. O presidente da Oxford chamou isso de “uma autoconsciência um tanto atrevida sobre o impacto nocivo das redes sociais que herdaram.”

Ou seja: não sabem explicar, mas sabem sentir.

Passei um tempo segurando a entrada do meu filho no Roblox. Queria entender o que era antes de liberar. Pesquisei, conversei com outros pais, li artigos, estabeleci combinados. Senti que tinha feito a coisa certa.

Mas o que acontece é que não há como evitar que ele se afunde cada vez mais na cultura em que está inserido. Cada vez mais entendo menos sobre seu mundo.

Tenho uma falsa ilusão de que estou aprovando jogos, limitando tempo de tela, mas não estou ali ao seu lado o tempo todo, enquanto ele escolhe um corpo musculoso e se fragmenta em mil pedaços, ou quando ele escolhe uma skin de morcego que custa R$ bem reais. Eu estou sempre correndo atrás para tentar entender e limitar o uso do meu cartão.

Os games e a internet oferecem um mundo completamente fora do mundo físico, é óbvio, mas, principalmente, um mundo fora do mundo onde os pais conseguem alcançar, entender, controlar.

Criar uma criança nos anos 20 é ajudar a criar nicknames, e-mails, supervisionar conversas com IAs e lembrar a senha de acesso a sistemas escolares. Eu querendo ou não, meu filho ter presença no Roblox faz parte dele existir em seu mundo, ter uma identidade online presente, que por enquanto eu até consigo influenciar e barrar um pouco, mas que muito em breve se descolará de mim para sempre. Fico sempre imaginando como será quando ele estiver fechado em seu quarto, e em seu mundo online, sem eu ter a possibilidade de perguntar o que está fazendo ou pensando. Deve ser por isso que fico correndo atrás dos memes da geração Alpha. Metade curiosidade de alguém que quer se manter relevante na internet, metade vontade de habitar o seu mundo para que ele não se sinta falando sozinho.

Quando eu era criança, ficar desatualizada culturalmente tinha um ritmo. Uma música passava meses no rádio antes de virar referência. Mesmo assim, me lembro de um carnaval quando tocou "Mila”, do Netinho, e todo mundo sabia cantar, menos eu. Um bordão de novela levava semanas pra chegar no pátio da escola. Havia tempo de assimilar, de entrar na brincadeira, de não se sentir completamente de fora.

Hoje, meu filho vive num ecossistema onde uma trend nasce, se espalha, satura e morre em semanas, ou mesmo dias. O meme do six seven chegou ao mainstream brasileiro com os jogadores, mas isso já é um sinal de morte para a geração que o propagou. Geralmente, quando os adultos chegam, acabou. Nos EUA, a morte do meme foi decretada ainda no ano passado, quando as marcas chegaram.

Para a Geração Alpha, a internet não é um lugar que se visita, é uma linguagem que se fala. E o dialeto principal dessa linguagem é o meme. Para mim, é uma segunda língua que estudo com dedicação, mas que nunca vou dominar como nativa. Vou sempre ter sotaque, apesar de estar online desde 1998. Isso porque as coisas mudam e são absorvidas diferentemente pelas gerações.

A Geração Alpha não é só a primeira geração que cresceu com a internet, é a primeira que cresce com a IA como ferramenta criativa no kit desde o início. E isso acelerou o ciclo a um ponto que nenhuma geração anterior poderia prever.

Em 2025, as ferramentas de IA tornaram mais fácil do que nunca criar imagens surreais, comerciais falsos, mashups de personagens bizarros, clones de voz e edições intencionalmente precárias. Esses memes se espalharam justamente porque pareciam estranhos, baratos de fazer e infinitamente remixáveis.

O Italian Brainrot é o exemplo mais vivo disso. Qualquer pessoa com acesso a um gerador de imagens de IA pode criar um novo personagem, metade balconista de farmácia, metade lagosta, dar um nome em italiano dramático, gravar uma narração sintética e jogar no TikTok. O animador italiano Fabian Mosele explicou o apelo de forma simples: “É só esquisito.” E o esquisito claramente funciona.

Antes, a cultura pop tinha autores identificáveis. Uma música vinha de um artista. Um meme tinha uma origem rastreável. Agora há trends que surgem de contas anônimas, geradas por IA, sem contexto, sem narrativa, sem propósito além do absurdo compartilhado, e que mesmo assim conquistam milhões de pessoas em escala global.

Toda geração cria um idioma que os mais velhos não falam.

No fim de abril, a atriz Ingrid Guimarães publicou no Instagram os prints de uma conversa com a filha Clara, de 16 anos, e pediu ajuda nos comentários com uma legenda direta: “Sou apenas uma mãe tentando entender o fim de semana de uma filha adolescente. Se alguém puder traduzir, agradeço. Grata!”

A mensagem da Clara dizia: “cpa nn vou p rz amnh”. Que em tradução para o português adulto seria: “se calhar, não vou pra resenha amanhã.” Uma frase com sete palavras virou sete caracteres. A língua não foi simplificada. Foi comprimida para caber numa geração que processa informação a uma velocidade que o alfabeto convencional não acompanha.

Num momento da conversa, a filha menciona aura e Ingrid reage: “O que é aura? Essa figurinha me irrita. Você está perdendo o português, minha filha.”

Mas o que é aura, afinal? Mais um vocabulário que essa geração criou, e ele diz muito sobre como eles enxergam o mundo.

A “aura” funciona como um medidor de presença social. Quem “tem aura” passa uma imagem interessante, respeitada ou misteriosa. É quase a gamificação do carisma aplicada à vida real: você tem pontos, perde pontos, acumula pontos.

E é aí que entra o “farmar aura”. O verbo “farmar” vem do inglês “to farm”, muito usado em jogos com o sentido de repetir ações para acumular recursos. Aplicado à vida social, farmar aura significa agir de forma descolada e confiante para acumular prestígio. Na prática, quem farma aura escolhe com cuidado o que posta: fotos com boa luz, vídeos bem editados, legendas planejadas. É a gamificação da identidade. O carisma virou recurso administrável.

O oposto também existe. Ter menos mil aura (-1000 aura) significa ter passado vergonha, ter feito algo muito sem graça ou ter mostrado uma energia negativa.

O que me fascina nisso é que eles criaram toda uma linguagem para falar sobre reputação, presença e pertencimento, que no fundo é o que adolescentes de todas as gerações sempre quiseram ter. A diferença é que essa geração transformou o conceito em mecânica de jogo. Você não é popular ou impopular. Você está com a aura positiva ou negativa. E isso pode mudar de um post para o outro.

Eu não sei o que é mais incrível: que criaram isso, ou que a Ingrid Guimarães e eu estamos aqui pedindo tradução

Já que esse post ficou bem longo, e estamos falando de Mashup, deixo aqui um set incrível do KL Jay, que eu gosto de ligar na TV de casa e fingir que sou jovem na balada.

Até a próxima!

No posts

Read the original on abasinfinitas.substack.com

Comments

Nothing yet. Say the first thing.

    Sign in to join the conversation.