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VOLTA A MODA · Jul 16, 2026

Por que estamos todos tão nostálgicos?

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Marri Mamede · VOLTA A MODA

Por Maria Clara Bettanin

A volta das revistas impressas, dos discos de vinil, das câmeras analógicas, dos filmes antigos, entre outros elementos da cultura material, vem sendo cada vez mais observada. Muitas vezes, esse interesse parte de pessoas que sequer viveram a época em que esses objetos faziam parte do cotidiano.

Há uma contradição acontecendo. Vivemos na era mais tecnológica da história. Temos acesso quase instantâneo a praticamente qualquer música ou filme já produzido, e nunca foi tão fácil tirar uma fotografia. Mesmo assim, a cada dia que passa, buscamos cada vez mais meios analógicos de consumo.

Reprodução da imagem: Pinterest.

Discos de vinil voltam às prateleiras, vemos cada vez mais fotografias analógicas e muitas pessoas retomam o consumo de revistas físicas. Pensando de uma maneira funcional, nada disso faz sentido. É mais rápido ouvir uma música no Spotify, tirar uma foto com o celular ou ler um livro em PDF. Mas acredito que a questão, nesse caso, não seja a eficiência.

Existe algo que os objetos analógicos nos proporcionam e que a tecnologia, apesar de suas vantagens e avanços, ainda não conseguiu reproduzir completamente: a sensação de estar presente.

Nos acostumamos a viver em um ritmo no qual quase tudo acontece imediatamente. A tecnologia transformou a espera em inconveniência. Quanto mais eliminamos os intervalos entre o desejo e a satisfação, mais cresce a sensação coletiva de ansiedade. Talvez parte do fascínio pelas coisas antigas esteja justamente nisso: recuperar o tempo da experiência. Desacelerar.

Reprodução da imagem: Pinterest.

Segurar uma revista, ouvir o estalo da agulha tocando um disco ou esperar dias para revelar um filme fotográfico são pequenas experiências que introduzem lentidão em um cotidiano construído para eliminar qualquer espera.

A neurociência sugere que a resposta pode estar na forma como nosso cérebro cria memórias. O cheiro do papel, a textura de uma capa ou o peso de um objeto criam marcas sensoriais que ajudam a fixar experiências em nossa mente. Diferentemente das telas, os objetos físicos ocupam espaço e permanecem.

Então, talvez a melhor explicação não esteja na nostalgia. Afinal, a maior parte dos jovens que coleciona vinis ou utiliza câmeras analógicas não viveu a época em que essas tecnologias eram dominantes.

Reprodução da imagem: Pinterest.

O que atrai, de verdade, nessas tecnologias não é visitar o passado, mas escapar dos algoritmos e do imediatismo que a tecnologia atual impõe. Em um ambiente digital onde tudo o que consumimos nos é sugerido, recomendado ou previsto, escolher ouvir um álbum inteiro e precisar virar o

disco na metade, em vez de simplesmente seguir uma playlist automatizada, acaba se tornando um pequeno ato de autonomia.

Talvez seja por isso que o retorno do analógico não se pareça com uma simples tendência. Ele se aproxima mais de uma tentativa silenciosa de recuperar algo que se perdeu no caminho: a capacidade de viver experiências menos perfeitas, menos instantâneas e, justamente por isso, mais humanas.

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