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Vinte mil léguas · Jun 22, 2026

Uma ilha maior do que as outras

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Leda Cartum, Sofia Nestrovski · Vinte mil léguas

Para fazer um roteiro do Vinte mil léguas – o podcast de ciências e livros, nós duas escrevemos muito mais do que aquilo que de fato fica na versão final. E um bom tempo depois, quando a gente revisita os arquivos antigos, vamos descobrindo coisas que poderiam ter sido, que quase foram, mas acabaram não sendo – essa história do Copérnico é uma delas. Este texto é um dos tantos retalhos que acabaram sendo cortados de episódios existentes (ou de episódios que nunca chegaram a existir). Para ouvir mais sobre como a hipótese copernicana transformou o mundo a partir do livro de Galileu, indicamos o episódio 8 e o episódio 9 da terceira temporada do Vinte mil léguas.

Século 16. Norte da Polônia. Aqui está Nicolau Copérnico, o caçula de uma família de mercadores da região das minas de cobre da Silésia. A origem do nome dele, aliás, pode ter vindo justamente das minas silesianas de onde veio a sua família: o sobrenome Copérnico é derivado do nome de um antigo vilarejo “Koperniki”, que pode ter vindo de um termo antigo alemão para o metal das minas daquela região, “kopper”, o cobre; mas esse nome pode também não ter nada a ver com as minas, porque outra hipótese é que ele tenha vindo da palavra eslava para o endro – a planta –, que também é “kopper”.

Mas Copérnico agora já está bem longe da sua família: ele vive sozinho há muito tempo, nunca se casou, nunca teve filhos, está nas vésperas dos seus 70 anos. Segundo uma reconstituição do rosto dele feita há bem pouco tempo por arqueólogos a partir do que supõe ser o seu crânio, encontrado 500 anos depois da sua morte, ele tem um nariz bastante adunco e uma cicatriz acima do olho esquerdo. Aqui, na sua casa em meados do século 16, Copérnico está finalmente se convencendo a publicar os escritos que ele está há 30 anos preparando – um projeto sobre “a maravilhosa simetria do Universo”.

Nicolau Copérnico era um cônego, mas bem antes disso ele era alguém muito apaixonado pelo que via no alto, no céu – a ponto de se perguntar “o que é, na verdade, mais belo que o céu, que contém todos os atributos da beleza?”.

Nas viagens que fez saindo das universidades polonesas para passar temporadas em algumas universidades italianas – em Bolonha, em Roma e em Pádua –, Copérnico teve a oportunidade de olhar para a maior parte das estrelas que já tinham sido observadas pelos astrônomos antigos do Egito, da Babilônia, da Grécia ou da Pérsia: antes do telescópio chegar na Europa, ele usava nas suas observações um instrumento de madeira chamado triquetrum, que parece um compasso gigante.

Com o triquetrum, que servia para medir ângulos, e que também tinha sido usado pelo próprio Ptolomeu, Copérnico podia estimar a altitude de um corpo estelar. “O firmamento desafia os astrônomos” – é o que ele diz no primeiro comentário que escreveu sobre esse assunto, quando tinha 37 anos e já tinha percebido, mais por cálculos matemáticos do que propriamente pela observação desse firmamento, que poderia haver uma nova ordem no universo.

Mas foi preciso chegar no seu último ano, 1543, para criar coragem de publicar o livro que ele passou a vida preparando. As revoluções das esferas celestes é um livro em que Copérnico inverte o lugar da Terra com o Sol. Quem se move, segundo a proposta dele – uma proposta que se coloca como meramente hipotética, que não precisa ser verdadeira e nem mesmo provável –, quem se move não é mais o Sol, como entendia o antigo Ptolomeu: quem se move é a Terra.

“Que outra coisa é a Terra” – ele pergunta no livro – “[…] senão uma ilha maior do que as outras?”

Quando Copérnico faz essa pergunta, ele está colocando a questão dos pontos de vista em jogo: tudo depende de quem está olhando para as coisas, e como as coisas estão sendo vistas. O último ato do Copérnico foi o primeiro passo para uma caminhada que, não muito tempo depois, Galileu Galilei assumiria, e levaria para bem longe: trocar as posições fixadas e propor posições novas. A Terra começava a sair do centro do Universo, do seu lugar de repouso, para se tornar um corpo celeste como qualquer outro, que gira em torno de outro centro. Um planetinha, uma ilha, entre outros planetas, outras ilhas flutuantes.

Copérnico começou um trabalho de remodelagem dos céus. O Universo estava mudando de forma, e também de tamanho. O Universo estava se agigantando. Ele sabia disso, mas sabia também que a sua vida estava se encolhendo. Copérnico publicou o livro que mudou os rumos da história da ciência e, logo depois, antes que alguém pudesse pensar em condená-lo ou matá-lo por isso, ele morreu por conta própria. Dizem até que esperou ver as últimas páginas do seu livro impressas – ele já tinha tido um derrame, acordou do coma só para espiar essas páginas, e aí, sim, (talvez satisfeito?) ele se foi. Já tinha feito o que precisava fazer, e deixou para os próximos o trabalho de lidar com isso.

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Vamos sempre conversar a partir de um ou mais livros, e estes são os próximos:

25 de julho | Em sua mesa, havia uma balancinha com a placa que dizia: “O que sei eu?”. O pensador do pensamento, ensaiador dos ensaios, o homem que um dia decidiu que era possível escrever sobre tudo, e assim o fez:

Recomendamos a leitura, sobretudo, dos seguintes ensaios: “Que filosofar é aprender a morrer”, “Sobre os canibais”, “Sobre a solidão”, “Sobre a inconstância de nossas ações”, “Sobre os coxos”, “Sobre a experiência”.

29 de agosto | Kwaidan, Lafcadio Hearn. Editora Fósforo, trad. Sofia Nestrovski

26 de setembro | Meninas, Liudmila Ulítskaia. Editora 34, trad. Irineu Franco Perpétuo.

31 de outubro | A obra-prima ignorada, Honoré de Balzac. Antofágica, trad. Leda Cartum

28 de novembro | Imagens imóveis, Janet Malcolm. Companhia das Letras, trad. Paulo Henriques Britto

12 de dezembro | Os anéis de Saturno, W. G. Sebald. Companhia das Letras, trad. José Marcos Mariani de Macedo.

Os encontros ficam gravados aqui (só para assinantes).

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