RSS Amplifier

Vinte mil léguas · Jul 22, 2026

Elogio à ferrugem

0
Sign in to vote or save

Sofia Nestrovski, Leda Cartum · Vinte mil léguas

John Ruskin (Inglaterra, 1819-1900) detestava a Revolução Industrial e amava a beleza, onde quer que se apresentasse: nas catedrais de Veneza, nas nuvens, na vida animal, no vocabulário raro e estranho da ciência. Socialista, aquarelista, ensaísta, divorciado, vitoriano, Ruskin estudava geologia para pensar em arte, e história da arte para refinar sua sensibilidade científica.

No ensaio abaixo, ele olha para a composição mineral da Terra como quem se demora diante de uma obra de arte. A palestra vem de um mundo anterior à hiperespecialização — as ideias se ligam umas às outras de maneira macia, sem transições duras, e conversam com um público comum. Aqui e ali, vemos detalhes desse outro tempo: dá para perceber, pela maneira dele de falar, que a descoberta do oxigênio ainda não era uma obviedade, “Vocês já devem saber que, no ar misto que respiramos, o componente essencial e necessário para nós se chama oxigênio”; que certos termos científicos são citados por serem raros e estranhos, como que temperando o texto, “potassa”, “soda”, “álcali”, sem função imediata a cumprir a não ser a de dar gosto. Que o intuito maior, ao falar da ferrugem, é o de conferir uma dignidade ampla a tudo o que, na vida, é vida: uma dignidade que começa na transformação dos minérios e culmina em nós, no fato de termos delicadeza e força, uma delicadeza que nasce da força.

Faz lembrar um trecho escrito por Galileu duzentos anos antes, em seu Diálogo sobre os dois máximos sistemas do mundo, e que citamos no episódio final da terceira temporada, “Elogio à leveza”.

Da minha parte, considero a Terra muito nobre e muito admirável justamente pelas suas tantas alterações, mudanças, gerações que ocorrem incessantemente. […] Aqueles que entendem que a perfeição está no que não se corrompe, no que não se altera, dizem isso porque querem continuar vivendo e têm pavor da morte. Eles não pensam que, se o ser humano fosse imortal, eles mesmos nunca teriam nascido. São pessoas que mereciam encontrar uma cabeça de Medusa, que as transformasse em estátuas de mármore ou de diamante, para que pudessem assim ficar mais perfeitas do que são.1

Ruskin foi imensamente lido em sua época, e pouco hoje. Marcel Proust era seu tradutor para o francês; Gandhi e Tolstói o adoravam. Ele dava palestras para trabalhadores, crianças, artistas. Defendia uma “ética da poeira”, das miudezas, das imperfeições. Chegou a dar aulas em Oxford — e famosamente levou seus alunos para longe da sala de aula, para construírem, juntos, uma estrada. Quem fez parte dessa turma foi o jovem Oscar Wilde, que, aliás, é injustamente lembrado sempre como dândi, e poucas vezes como socialista (foi as duas coisas: viajou para dar palestras para trabalhadores das minas de prata dos Estados Unidos, vestido de veludo da cabeça aos pés, gola rufo e luvas brancas; dizem que foi adorado pelos mineiros).

Para a newsletter de hoje, resolvemos traduzir um trecho de uma palestra de Ruskin, de 1858. É um “elogio à ferrugem”, e foi compilado por John Carey em The Faber Book of Science, um dos livros mais importantes para nós duas no Vinte mil léguas: é um volumão de textos científicos selecionado com muito tino por um grande crítico literário, e serviu, entre outras coisas, para nos apontar o caminho para “ler os cientistas como escritores”.

Trecho de The work of iron, in nature, art, and policy. Palestra proferida em Tunbridge Wells, 16 de fevereiro de 1858

Imagino que vocês já saibam que aquela mancha ocre, que às vezes pensamos estar estragando a bacia da nascente, é, na verdade, ferrugem: e que, quando veem a mesma ferrugem em outras partes, devem provavelmente pensar que, além de ter estragado o objeto onde incide, ela própria é ferro estragado; que o ferro, quando enferruja, não passa disso.

Estudos de Ruskin com aquarela e nanquim

Para a maior parte de nossos usos, o ferro está, de fato, inutilizado; e como não podemos usar uma faca ou lâmina enferrujadas tão bem quanto uma polida, concluímos que o ferro possui o grande defeito de estar sujeito à ferrugem. Mas não é o caso. Pelo contrário, o estado mais perfeito e útil do ferro surge com aquela mancha ocre; e é por isso que ele está sempre tão pronto e afeito a se entregar a esse estado. Não é uma falha do ferro, mas sim uma virtude ele gostar tanto de se enferrujar, pois é nessa condição que realiza sua função mais importante no universo, e pode mais gentilmente servir à humanidade. Aliás, num certo sentido, num sentido quase literal, podemos dizer que o ferro, quando enferruja, está vivo; e quando puro e polido, morto. Vocês já devem saber que, no ar misto que respiramos, o componente essencial e necessário para nós se chama oxigênio; e que essa substância é, para todos os animais, no sentido mais preciso da palavra, o “sopro da vida'“ (Gênesis, 2:7).

Ora, é esse mesmo ar que o ferro respira quando enferruja. Ele apanha o oxigênio da atmosfera com a mesma ânsia que nós, ainda que para fins diferentes. O ferro guarda tudo o que extrai do ar; nós, e os outros animais, nos separamos dele em seguida; mas o metal mantém em absoluto o que recebeu desse dote aéreo; e o pó ocre que desprezamos é, na verdade, tão mais nobre que o ferro puro, pois se trata de ferro e ar. Mais nobre, sim, e mais útil — pois de fato, como mostrarei a seguir — a função primeira desse metal, e de todos os outros metais, não é a de produzir facas, tesouras e espetos e panelas, mas de compor a terra que nos alimenta, e quase todas as substâncias que são de primeira necessidade para a nossa existência. Pois tudo isso não passa da soma de metais e oxigênio — metais acrescidos de um sopro de ar. Areia, cal, argila e todas as demais terras — a potassa, a soda, e todos os outros álcalis — são metais que sofreram essa, por assim dizer, mudança vital, e se tornaram aptos a servir ao homem através da unidade permanente com o ar mais puro que ele próprio respira. Só existe um metal que não tende a enferrujar; e sua influência sobre o homem tem, até o momento, provocado a morte, e não a vida; ele só será bem empregado quando ladrilhar nossas ruas e for, enfim, pisoteado.2

A Basílica de São Marcos, em Veneza, por Ruskin, 1877.

Não haveria algo de surpreendente nesse fato, se o tomássemos como exemplo ou lição que a criação inanimada nos dá? Eis aqui esse metal inerte, duro, brilhante, frio — ótimo para espadas e tesouras, mas inútil como alimento. Vocês talvez pensem que o ferro é maravilhoso quando usado em sua forma pura; mas como pareceria o mundo se todos os campos gerassem, em vez de grama, finos arames de ferro? Se toda a terra cultivável fosse coberta não de areia e argila, mas de uma superfície lisa de aço — se a Terra toda, em vez de ser uma esfera verde e acesa, rica em flores e florestas, não tivesse nada para exibir além da imagem de uma vasta fornalha de um terrível motor? Um globo de metal escuro, sem vida, escoriado? É o que a Terra acabaria sendo — é o que provavelmente já foi um dia. Mas é certo que ela seria assim se acaso as substâncias todas que a compõem deixassem de sugar e respirar o brilho da atmosfera; e, enquanto o globo respira, ele amansa sua dureza impiedosa, e se desfaz em grãos de poeira prenhe e boa; ele se recolhe, novamente, na terra que nos alimenta e nas pedras com que construímos; nas rochas que dão forma às montanhas, e nas areias que enlaçam o mar.

Por isso, é impossível para qualquer um de vocês tomar a menor pedrinha no caminho sem nela ler, se assim quiserem, a lição curiosa que ela guarda. De início, vocês a olham como se não passasse de terra. Mas não, ela responde, “eu não sou terra — eu sou a terra e o ar juntos; parte do céu azul que você ama, e pelo qual anseia, já está em mim; é a totalidade da minha vida. Sem isso, eu não seria nada, e seria inútil; não teria coisa alguma a lhe oferecer, nem nenhum alimento. Eu não passaria de uma coisa cruel e desamparada; mas como existe, seguindo minhas necessidades e meu lugar na criação, uma alma gentil aqui dentro de mim, me tornei capaz do bem, e auxilio nos círculos da vitalidade”.

Até aqui, o mesmo interesse foi conferido a todas as terras, e a todos os metais que as compõem; mas um interesse mais profundo e um maior proveito cabem àquela terra cor de ocre que é o ferro, e que tinge o mármore dessas nascentes. Tinge muito mais do que esse mármore. Tinge a enorme Terra, onde quer que olhemos, longe e fundo — é a substância tingidora designada a colorir todo o globo à nossa vista, bem como a submetê-lo a nosso serviço. Vocês já viram esses montes cobertos de neve e talvez apreciaram, de início, o contraste do branco, tão belo, com os cantos escuros das florestas de pinheiros; mas já pararam para considerar se gostariam desses montes eternamente brancos — não o branco puro, mas sujo, o branco do degelo, ainda frio como a neve, mas sem o seu brilho? Essa seria a cor da Terra sem o ferro; essa seria sua cor, e não em um ou outro local apenas, mas em toda parte, o tempo todo. Persigam essa ideia até a perceberem mais detalhada. Pensem primeiro nos seus graciosos caminhos de cascalho nos jardins, tão delicados, como recortes de sol em meio aos canteiros de flores amarelas; imaginem que, de repente, todos foram transformados na cor das cinzas. É assim que seriam sem o ocre de ferro. Pensem nos caminhos sinuosos que cortam as terras comuns, tão calorosos à nossa vista quanto secos sob nossos pés, e os imaginem pavimentados de borralho. Depois, deixem para trás essas terras, e sigam para o campo; se detenham diante do primeiro terreno arado que virem cobrindo as encostas ao sol, com seus sulcos castanho-escuros e a riqueza de suas leiras resplandecentes, revolvidas pela lâminas do arado como as dobras profundas de um manto de veludo avermelhado — imaginem tudo isso subitamente transformado em sulcos lúgubres num campo de lama. É assim que seria sem o ferro. Prossigam, na imaginação, pelos vales e montanhas, até alcançarem a linha curva da costa; desçam à praia varria pela brisa; observem a espuma branca cintilando contra o âmbar da areia, e todo o mar azul recolhido na enseada entre essas faixas de ouro; então imaginem essas baías redondas de areia, que se perdem ao longe, subitamente convertidas em montículos de luto — todas aquelas areias douradas virando lama cinzenta. As fadas já não podem mais dizer umas às outras, “Vinde a estas areias amarelas” [A tempestade, ato I, cena II], mas “Vinde a estas areias pardacentas”. É assim que seriam sem o ferro.

Em certo sentido, portanto, o ferro é o sol e a luz da paisagem, na medida em que essa luz se acende desde dentro da terra.

Uma cor ainda mais nobre do que todas essas — a mais nobre já vista nesta Terra —, uma que pertence a algo mais elevado que o granito egípcio e fomenta uma beleza superior a qualquer rosa ou pôr-do-sol — também essa cor se relaciona, e de maneira misteriosa, à presença desse ferro escuro. Acredito ainda não estar certo ao que o tom carmim de nosso sangue se deve; mas essa cor remete, sem dúvida, à vitalidade, e essa vitalidade, por sua vez, remete à existência do ferro, um de seus elementos constitutivos.

Não é estranho encontrar esse metal severo e firme tão delicadamente imiscuído em nossa vida humana, que sequer somos capazes de ruborizar sem sua assistência?

Retrato de John Ruskin aos três anos e meio. Por James Northcote, 1822.

Para acessar todas as edições da newsletter e participar dos nossos encontros mensais online:

Vamos sempre conversar a partir de um ou mais livros, e estes são os próximos:

25 de julho | Em sua mesa, havia uma balancinha com a placa que dizia: “O que sei eu?”. O pensador do pensamento, ensaiador dos ensaios, o homem que um dia decidiu que era possível escrever sobre tudo, e assim o fez:

Recomendamos a leitura sobretudo dos seguintes ensaios: “Que filosofar é aprender a morrer”, “Sobre os canibais”, “Sobre a solidão”, “Sobre a inconstância de nossas ações”, “Sobre os coxos”, “Sobre a experiência”.

29 de agosto | Kwaidan, Lafcadio Hearn. Editora Fósforo, trad. Sofia Nestrovski

26 de setembro | Meninas, Liudmila Ulítskaia. Editora 34, trad. Irineu Franco Perpétuo

31 de outubro | A obra-prima ignorada, Honoré de Balzac. Antofágica, trad. Leda Cartum

28 de novembro | Imagens imóveis, Janet Malcolm. Companhia das Letras, trad. Paulo Henriques Britto

12 de dezembro | Os anéis de Saturno, W. G. Sebald. Companhia das Letras, trad. José Marcos Mariani de Macedo

Os encontros ficam gravados aqui (só para assinantes).

1

Galileu Galilei, Diálogo sobre os dois máximos sistemas do mundo: ptolomaico e copernicano. Tradução (adaptada por nós), Pablo Mariconda. Imprensa oficial, 2004.

2

Ou seja, o ouro. A ideia de usá-lo para pavimentar nossas ruas remete ao livro do Apocalipse, 21:21. Vem da descrição da nova Jerusalém, cidade para depois do fim dos tempos (na tradução de Frederico Lourenço, Cia. das Letras): “Os alicerces da muralha da cidade estão adornados com toda a pedra preciosa. O primeiro alicerce: jaspe. O segundo: safira. O terceiro: calcedônia. O quarto: esmeralda. O quinto: sardônica. O sexto: sárdio. O sétimo: crisólito. O oitavo: berilo. O nono: topázio. O décimo: crisópraso. O décimo primeiro: jacinto. O décimo segundo: amestista. E os doze portões [eram] doze pérolas: cada um dos portões era de uma pérola; e a rua da cidade [era] de ouro puro, como vidro transparente”.

Nenhuma publicação

Read the original on vintemilleguas.substack.com

Comments

Nothing yet. Say the first thing.

    Sign in to join the conversation.