Fracasso pode ser a palavra certa para descrever a temporada atual da Hyundai Motorsport no WRC.
Depois de na temporada passada ter conseguido arrastar a luta pelo Mundial de Construtores até à última curva e ter levado o “seu” piloto a campeão do mundo, esperava-se grandes coisas da Hyundai para esta época. Mas a verdade, é que vimos um retrocesso significativo, digno de ser ensinado nos cursos de gestão, pelas universidades deste mundo, sobre o que não fazer.
No início de 2024, a FIA anunciou que no ano seguinte, os carros Rally1 iriam acabar e que seriam substituídos por carros Rally2 com um kit que os tornaria mais competitivos, mantendo as equipas oficiais num nível acima da classe secundária dos ralis. Nessa altura, a Hyundai encontrava-se a desenvolver um novo i20 Rally1 para 2025, de forma a poder introduzir muitas alterações sem estar sujeita ao sistema de jokers, tentando substituir assim um carro que nasceu muito mal em 2022.
Felizmente, a FIA adiou esta ideia para este ano, contudo, isto atrasou o desenvolvimento do novo Hyundai i20. O compromisso arranjado entre a FIA e as equipas do WRC, foi permitir a Hyundai utilizar muitas destas evoluções sem estarem sujeitas ao sistema de jokers em vigor. Excepcionalmente, a equipa da marca sul-coreana utilizou de uma assentada quase todos os seus jokers que poderia utilizar até ao final dos regulamentos Rally1, sobrando apenas dois, sem ter necessidade de introduzir um novo carro de raíz.
O desenvolvimento e homologação destes jokers também sofreu alguns atrasos, levando a que na primeira ronda, o Rallye Monte Carlo, a marca corresse com o carro da temporada anterior. Na Suécia até correu moderadamente bem a estreia, mas logo a seguir no Safari voltaram a usar a versão de 2024. Nas Canárias, foi um espetáculo triste em que víamos o carro a ter sobre e subviragem na mesma curva e a ficar a calendários dos Toyota. A partir daí, na fase de pisos de terra, notou-se alguma evolução, mas especialmente no asfalto, verificou-se que estas evoluções não foram o sucesso que a marca ambicionava.
Os pilotos não parecem confortáveis no carro e o mesmo perdeu muita competitividade para o Toyota Yaris. O resultado? Uma vitória em doze provas e, enquanto equipa, em apenas três provas marcaram mais pontos que a rival Toyota. E, no Rally da Europa Central, o Ott Tänak até preferiu usar a versão de 2024, de forma a tentar ser competitivo numa tentativa desesperada de se tentar manter na luta pelo título… O Thierry Neuville e o Adrien Fourmaux também preferiam, mas como estão fora da luta pelo título, ficaram com a missão de tentar desenvolver o carro nas provas que faltam. Isto é capaz de ser dos maiores atestados de incompetência que vi um piloto passar aos engenheiros.
Mas pode haver explicações para esta queda de performance.
Cyril Abiteboul, presidente da Hyundai Motorsport, já assumiu que a entrada da equipa no WEC, pode ter desestabilizado as operações do WRC. A Genesis, marca que irá representar o grupo sul coreano no Mundial de Resistência, irá correr com um LMDh a partir de 2026. O chassis será construído pela Oreca, contudo, toda a parte mecânica está a ser desenvolvida pela equipa, incluindo o motor V8 híbrido. Todo um novo mundo de desafios para a equipa.
Cyril Abiteboul, François-Xavier Demaison (Diretor Técnico) e Julien Moncet (Head of Powertrain) e o resto da equipa têm dividido a sua atenção entre WEC e WRC, algo que pode ter sido um passo maior que a perna.
Em todas as vitórias existe mérito dos vencedores e demérito dos vencidos. Em 2024, a vitória de Thierry Neuville e a subida de rendimento da Hyundai, pode ter sido derivada também um demérito muito grande por parte da Toyota, que passou uma fase mais complicada com a reforma a tempo parcial do Kalle Rovanperä. E é verdade que em 2025, voltaram a parecer a equipa que tem dominado o WRC nos últimos anos, mas também aqui vemos o demérito da Hyundai que é incapaz de esboçar resistência ao domínio da marca nipónica. Neste ano mau, não vemos na Hyundai um momento de brilho, não os vemos a antecipar os rivais com uma estratégia de pneus ou de afinações. Vemos a equipa sempre a correr atrás do prejuízo e isso muitas vezes leva os pilotos a cometer exageros, na procura de se manter na luta. Os pilotos nunca estão satisfeitos com as afinações nas primeiras classificativas e isso diz muito do mau trabalho de preparação que tem sido feito este ano.
No meio destas mudanças todas, a Hyundai também mudou de instalações, saindo da sua base de Alzenau. Irão manter-se na Alemanha, em Offenbach, a cerca de trinta quilómetros da base original e bastante mais perto de Frankfurt e de um dos maiores aeroportos da Europa.
Foi anunciado há pouco mais de uma semana que Andrew Wheatley será o novo Diretor Desportivo da equipa no WRC, libertando assim o Cyril Abiteboul e outro staff importante para se focarem mais na estreia da Genesis já em 2026 no WEC, não perdendo assim tanto foco no WRC, como até agora.
Um pequeno passo na direção certa? Sim, talvez. O Andrew Wheatley possui imensa experiência no campeonato e tem capacidade de ajudar a equipa a ser melhor. Mas também é o assumir de um erro que cometeram em 2025, em que sobre estimaram as suas capacidades, subestimaram a concorrência e voltaram a deixar o WRC numa espécie de um troféu monomarca, onde são dez carros à partida e no fim ganha o Toyota…

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