RSS Amplifier

Vamos Escrever de FUm · Mar 9, 2025

Para Inglês Ver

0
Sign in to vote or save

Vamos Falar de FUm 🏁🎙🔊 · Vamos Escrever de FUm

Terminada a primeira ronda do Campeonato Portugal de Ralis, na qual Kris Meeke e Dani Sordo ocuparam os lugares mais altos do pódio, fico com um sentimento agridoce.

Como adepto da modalidade, fico satisfeito por ver estas antigas estrelas do WRC a brindarem-nos com as suas qualidades ao volante. Apesar das idades “avançadas” continuam com um ritmo bem acima da média e uma habilidade fora do comum. Contudo, pergunto-me: a sua presença é saudável para os ralis em Portugal?

Kris Meeke e Dani Sordo celebram no final do Rally Serras de Fafe [Foto: Hyundai]

Vamos usar o turismo, um dos tópicos impactantes na sociedade portuguesa na última década, como metáfora de comparação. Muitas cidades portuguesas têm sido inundadas de turistas na última década, algo que como tudo neste mundo, tem as suas vantagens e desvantagens e divide as opiniões de todos.

O turismo tem uma capacidade de gerar empregos diretos na sociedade, ajudar a promover a cultura das cidades/países, aumentar a visibilidade das mesmas no panorama internacional e traz consigo novos investimentos nas cidades que muitas vezes acabam por melhorá-las.

Longe vão os tempos onde a baixa do Porto, por exemplo, tinha demasiados edifícios abandonados e ruas com pouco movimento. Da mesma forma, longe vão os tempos onde o CPR tinha dois ou três carros S2000 e não havia praticamente luta pela vitória porque havia uma combinação carro/piloto bastante superior à concorrência.

Na última década temos visto a um crescimento do campeonato em termos de competitividade e qualidade de pilotos envolvidos. Pilotos internacionais têm vindo mais regularmente competir com os locais, especialmente nas rondas onde há classificativas comuns com o Rally de Portugal.

Esta internacionalização atingiu um novo máximo com a contratação do Craig Breen por parte da Hyundai Portugal em 2023, mais tarde substituído pelo Kris Meeke. Muitos adeptos foram contra esta contratação e alguns pilotos também demonstraram o seu desagrado, como por exemplo, o Armindo Araújo em podcast gravado aqui no VamosFalardeFUm.

Por um lado, esta contratação trouxe mais atenção, especialmente internacional, ao campeonato. Não me recordo de alguma vez ver os meios de comunicação estrangeiros tão atentos ao que se passa cá em Portugal.

A curto prazo pode ajudar a captar mais investimentos, seja sob a forma de patrocínios a pilotos, equipas, provas ou até campeonato. Com mais dinheiro hipoteticamente disponível, muito boas coisas podem ser feitas, que poderiam colmatar falhas existentes. Desde descida de custos das provas, de forma a captar mais pilotos, a criação de programas para jovens pilotos, seja por parte das equipas ou até da FPAK, são duas entre muitas outras ideias que poderiam ser implementadas.

Um bom exemplo disto é a equipa da Hyundai Portugal que esta época, em conjunto com a FPAK, tem nas suas fileiras Hugo Lopes e Gonçalo Henriques, que são de longe os jovens pilotos mais interessantes a aparecer recentemente no panorama nacional, para meia temporada cada. O número de provas ao volante do Hyundai i20 Rally2 é bastante reduzido, mas permite lançar algumas bases para que possam mostrar o seu talento.

Por outro lado, como nem tudo é um mar de rosas, o turismo também tem bastantes pontos negativos. O aumento do número de turistas coloca uma pressão adicional nas populações locais, aumentando a pressão sobre o mercado imobiliário e infraestruturas das cidades. Há de repente um incentivo económico em esvaziar habitações para a criação de alojamentos locais e hotéis, levando a que uma parte dos habitantes locais se vejam forçados a sair da sua terra e a mudar-se.

O mesmo pode acontecer no CPR. Os pilotos locais que, com mais ou menos talento, ajudaram o campeonato a crescer nos últimos anos, estão a perder apoios dos patrocinadores porque, de repente, estão a ser eclipsados dos lugares cimeiros. Eu não censuro os patrocinadores, também pensaria duas vezes em investir o meu dinheiro a patrocinar alguém que não vai ter tanta exposição mediática como antes. Tudo isto é negócio, ninguém tem apoios e patrocínios única e exclusivamente com base no seu talento ou potencial futuro. Com isto, a Toyota e a Hyundai poderão acabar a monopolizar os retornos que tudo isto tem, ainda que exposição mediática seja algo que este campeonato tem a menos. Mas isso é todo um outro tópico de discussão.

O enorme foço entre o Kris Meeke, Dani Sordo e os restantes pilotos, vai acabar por criar uma fraca competitividade pela luta do campeonato. Isso vai gerar um maior desinteresse pelos ralis porque que interesse tem um filme, se já sabemos o final? Os restantes pilotos irão querer continuar a participar apenas devido ao seu gosto pela modalidade, sabendo que as chances de ganharem reduziram a praticamente zero?

E a longo prazo, mantendo-se esta aposta em pilotos de renome estrangeiros, que interesse terão os jovens em prosseguir uma carreira desportiva no campeonato? Sabendo à partida que as suas chances de progredir até o mais alto nível em Portugal estarão comprometidas por esses pilotos, se já anteriormente à sua chegada nos queixávamos da falta de renovação de intervenientes na luta pelo título?

São tudo questões relevantes que só o tempo trará a resposta.

O Campeonato Portugal de Ralis e o turismo, atualmente, têm muitos pontos em comum como acabei de constatar. Ambos têm muito potencial de fazer crescer todos os envolvidos, mas apenas quando bem geridos por quem as governa, de forma a equilibrar a balança dos positivos e negativos.

Por isso, fica a questão principal. A FPAK vai conseguir fazer o campeonato crescer, ou vai deixar que se torne um campeonato para inglês ver?

Read the original on vff1.substack.com

Comments

Nothing yet. Say the first thing.

    Sign in to join the conversation.