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VAGAROSA · Apr 16, 2026

Dois jeitos de viver

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Verbena Cartaxo · VAGAROSA

Sento no sofá da sala com o peso do meu mundo nos ombros e uma xícara de café em mãos. Na minha frente, além de uma pequena coleção de livros espalhados no chão, está uma bifurcação.

Dois caminhos possíveis.

Dois jeitos de viver esse pequenito instante que irá passar e jamais voltar, independente do trajeto escolhido.

Conheço bem as curvas de ambos os caminhos e, ainda que não saiba para onde cada um vai me levar (ao menos não dessa vez), sei exatamente como me sentirei ao caminhar cada um deles.

O primeiro, mental, me leva para o meio de um emaranhado desses feito bola de neve descendo morro abaixo. Um nó de possibilidades, opções e incertezas que cresce cresce cresce até aterrorizar toda e qualquer paz de espírito posta a salvo nos cafundós da alma. Dentro dele perco o pouco de controle que tenho sobre a vida e olho para o Desconhecido como se em sua composição não houvesse nadica de nada de magia. Como se me coubesse criar o futuro sozinha, sem a ajuda cósmica nem de Deus, nem dos astros, nem de ninguém que me quer bem. Como se preto e branco fossem as únicas cores na caixinha de giz de cera e cinza a única alquimia possível.

O segundo, corpóreo, me leva para fora do emaranhado e me devolve a certeza medicinal de que, por mais inesperada que a vida possa ser, tem um tantinho dela sobre o qual tenho todo o poder.

Posso escolher como uso os dois minutos que tenho entre uma tarefa e outra, os cinco minutos entre um compromisso e outro, os sessenta segundos entre uma urgência e outra, entre um pedido do marido e um mamãemamãe da filha, entre um carro com o pneu furado, uma panela de pressão apitando, um copo espatifado no chão da cozinha, a campainha e a próxima coisa que requer minha atenção integral.

Já não tenho mais horas a fio para dedicar a minha própria existência, para olhar para a parede e sonhar sem sair do lugar e, se não tomo muito cuidado, facilmente sou engolida por esse jeito de viver acelerado estampado em tudo que é canto onde pouso o olhar. Mas, dentro desse tantinho da vida que acontece em poucos minutos aqui e acolá, sobre o qual eu tenho absoluto controle, posso escolher que caminho tomar.

E você também pode.

Entro no banho e, enquanto a água me cai pelo corpo, derrapando por cada um dos meus centímetros de pele até encontrar o chão e desaparecer pelo ralo, posso continuar a discussão que tive com o marido e pensar em tudo que deveria ter dito e não disse. Posso escanear a geladeira e decidir o que vamos almoçar, responder essa e aquela mensagem pendente e salvar o rascunho num dos arquivos da cachola. Ou posso escolher fazer diferente: tomar o caminho corpóreo e, dentro da falta de tempo que acomete mães e mulheres modernas, ter a pele acariciada pela força da gravidade que faz cada pingo d’água cair em vez de subir.

Sentir o quente encontrar o coro cabeludo, depois a fronte, desfazendo, uma a uma, as linhas de preocupação angariadas ao longo do dia. Perceber o sabão deslizar, o ar sair e tornar a entrar, até lembrar que, ainda que em quatros minutos de banho não caibam horas a fio de autocuidado, cabe ali a única coisa que ninguém jamais nos poderá roubar: a possibilidade de se olhar e enxergar muito além do que aquilo que o outro consegue ver.

Sinto a frustração entrar em ebulição e solto um grito que não sei de onde vem, seguido de um Chega! Agora chega, Victoria! Posso não desligar o fogo e deixar o leite entornar de vez, azedar a amanhã com uma série de berros que assustarão a pequena e não me aliviarão a carga carregada. Ou posso, deliberadamente, suspender a impaciência, dar dois passos para fora da cozinha, encostar as costas na parede fria da sala e, de olhos fechados, senti-la sustentar meu cansaço. Se preferir, posso deitar no chão de taco e deixar que o solo receba o peso da minha frustração, oferecendo ao meu sistema nervoso sobrecarregado um suporte físico que sinalize que estou em segurança, sendo amparada — ainda que, nessa manhã chuvosa, esteja sozinha com a cria em casa, longe da vila que toda mãe deveria ter ao seu redor. Ilhada.

Abro a geladeira e pego três cenouras, um maço de brócolis, um punhado generoso de ervilhas e um restinho de carne moída. O jantar não está pronto e já são dez para seis, estou atrasada dentro do cronograma que eu mesma estabeleci. Posso reforçar a rigidez e mergulhar fundo numa dessas pocinhas de culpa quase imperceptíveis pelas quais, nós mães, somos repetidamente engolidas. Posso picar cenouras correndo, me frustar porque a água demora a ferver, a frigideira que pretendo usar tá suja e a única espátula foi parar sabe se lá onde. Ir me acelerando até ser corroída pela ansiedade de não estar dando conta da sinfonia que me cabe orquestrar. Ou posso parar dois minutos que acredito não ter, respirar fundo e reorientar a rota. Quiçá, mudar os planos.

Lembrar que o mundo não despencará sobre a cabeça de ninguém porque o jantar atrasou, o banho não aconteceu, o orçamento não foi enviado, o relatório não ficou pronto, as mensagens seguem não respondidas, a texto não foi escrito, o cesto de roupa tá cheio, a despensa vazia, ou porque hoje o que a criança jantou foram dois ovos mexidos e um pedaço de pão com manteiga.

Deito na cama, afofo o travesseiro e me espremo para caber na cama de casal que divido com a pequena, mestre em se esparramar. O telefone não deveria dormir no quarto, mas hoje, por aqui, ele está.

Posso pegá-lo. Forçar meus olhos a lidarem com a luz branca quando existe também a possibilidade rara, diária, de contemplar a escuridão. Posso colocar novos estímulos nessa cabeça carecida de silêncio e perder a chance de, por poucos minutos, estar só, em preparação para atravessar o portal que liga esse mundo àquele que existe do lado de lá do sono. Ou posso, resistir ao impulso de ceder ao vício e, no escuro da noite, afundar o corpo no colchão, entregar o que não foi feito, dito, escrito, pensado, criado e planejado para o anjo que guarda minha vida, meu caos e minhas listas, e deixar todo o resto para outra hora que não essa.

Porque essa, ainda que dure muito menos que uma hora inteira, é minha. Só minha e de mais ninguém.

Sento no sofá da sala com o peso do meu mundo nos ombros e uma xícara de chá de camomila em mãos. Melhor não tomar café a essa hora. Na minha frente, além de uma pequena coleção de livros infantis espalhados pelo chão de taco que, vez ou outra, nos serve de pista de baile, está uma bifurcação.

Dois caminhos possíveis.

Posso me ressentir de todo mundo que tem tempo e o desperdiça e desperdiçar o pouco tempo que tenho com ressentimento. Ou posso ir alinhavando dois minutos aqui, três logo ali, dez acolá, sete depois do jantar, quatro durante o banho, vinte antes de dormir, cinco depois de os olhos abrir e — uma respiração por vez — costurar corpo e mente para estar radicalmente presente dentro desse tantinho da vida que sobra só para mim.

E você também pode, sabia?

Com um afeto radical,

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Imagens via Raw pixel, autoria não disponível.

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