Estou a caminho do quarto, com o a cabeça descolada do corpo, quando escuto o chamado:
Muuu.
Não é muuuuuuu nem mu, é muuu.
Com exatos três u’s que fazem toda a diferença.
O milho que vamos levar para o picnic de logo mais está numa panela grande, cheia d’água, cozendo enquanto a dona dessa casa alugada, eu, equilibra seus muitos pratinhos. Não sei exatamente o que estou indo buscar, levar ou trazer, só sei que a lição que a vida me fez repetir e repetir até aprender, agora tem serventia diária.
Nada, absolutamente nada, nos obriga a reorientar a rota com tanta frequência quanto a maternidade.
Muuu.
Ela repete, ainda sem apelar para a impaciência herdada do pai. Me fazendo dar dois passos para trás e desistir do que planejava fazer no quarto.
Quatro vacas estão espalhadas pelo chão da sala, à mercê da total falta de interesse. Não é delas que ela fala. Afinal, vaca é muuuuuuu. Com sete u’s. Todos sabemos.
Muuu.
Uma vez mais, agora apontando para a caixinha de som, para ver se a mãe, que está na metade da sua xícara de café matinal, pega no tranco.
Muuu, mamãe. Muuu.
Pego o telefone, abro primeiro o bluetooth, depois o Spotify e, num movimento mecânico do indicador — sim, sou dessas criaturas pré-históricas que teclam única e exclusivamente com o dedo indicador — quase clico na playlist da Palavra Cantada, para mais uma sessão de “Que que tem na sopa do neném”, música que até o marido polonês já sabe de cor e salteado.
Mas, como anjos da guarda existem e, tal qual mães, não tiram férias daqueles de quem cuidam, dou play no álbum que está logo abaixo:
O corpinho de quase treze quilos, em sincronia com o primeiro acorde, começa a se mover. O sorriso que, graças a Deus, ainda não descobriu como se conjuga o verbo economizar se alarga até alcançar os lóbulos das duas orelhas. Os olhos marrom-claros, com notas de verde que só se revelam quando o sol brilha forte e a luz entra pela janela e bate na alma, me observam em aguardo.
E aí? Vai deixar o baile acontecer sem você?
Tiro as pantufas e, de meia listrada, piso no tapete. Antes de desadultecer momentaneamente — enquanto a responsabilidade ainda está no comando — pego os livros que estão espalhados pelo chão e os empilho em cima da mesinha. Melhor evitar possíveis tombos por motivo de escorregamento literário, penso. Não recolho as vacas, deixo-as ocuparem the dance floor conosco.
Muuu, mamãe.
É, filha. Música.
Essa é boa, né?
O corpo de quase 47 quilos começa a se mover. O sorriso que, apesar de já ter descoberto como se conjuga o verbo economizar, ainda sabe se alargar, espicha até alcançar os lóbulos das duas orelhas. Os olhos marrons, com notas de café torra média, que se revelam quando o sol brilha forte e a luz entra pela janela e bate na alma, se voltam para dentro — um mundo feito de memórias, sonhos, incertezas e fé, muita fé.
Deixo de ver a criança que está na minha frente e volto no tempo para contemplar a criança que fui. O relógio na parede marca a falta de pressa, horas e horas vividas dentro do quarto — de frente para o espelho de corpo inteiro que mora atrás da porta do armário que divido com a irmã mais velha — dançando como se não houvesse outro verbo para conjugar.
Não gosto da expressão “balançar o esqueleto”.
E, ainda que, vez ou outra, vá para o deserto recolher ossos com La Loba, não acredito que exista muita medicina no ato de chacoalhá-los.
O que desde sempre faço, primeiro inconscientemente e há mais de uma década de forma altamente intencional, é besuntar as juntas com movimento. Dançar como quem passa óleo de coco nas articulações. Mover até que o encontro de osso com osso seja menos rígido, dobradiço, e mais espiralado. Até que a carne que nos faz criaturas corpóreas seja preenchida de oxigênio e volte a respirar.
Não deixo um único centímetro do corpo de fora desse baile para o qual fui convidada nessa manhã de sábado. Me movimento como se não houvesse pratinhos sendo equilibrados nas minhas mãos-de-mãe que são trocentas, com a liberdade que tem quem sabe que a vida já não está mais só começando e pode, a qualquer momento, sem avisos, findar.
Quando o silêncio entre muuu’s acontece, percebo que a pequena voltou para os livros e está na companhia de um leão que tem medo de rato e um rato que quer aprender a rugir feito leão. Dois amigos improváveis. As vacas voltaram a pastar e, pela porta de vidro que dá para o quintal, contemplam o mato mais verde do vizinho.
Estou só na pista de dança.
Danço uma.
Danço duas.
Danço três muuu’s.
Até a responsabilidade vir me avisar que deu a hora de tirar o milho do fogo. Finjo que não é comigo e danço mais um pouquinho.
Porque, como diria a mestre Pina Bausch, se não dançarmos estaremos todos perdidos. Fadados a uma vida ressecada pela economia de baile; pela incapacidade de lembrar como besuntar o esqueleto com a alma em movimento.
Com um afeto radical,
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