eu sei que cê tá acostumado a rir com o que eu exponho aqui, mas hoje eu preciso pesar o clima.
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tudo começou quando, no começo de julho, eu recebi a notícia da minha demissão durante uma reunião de feedback — não, durante não, essa porrada veio antes mesmo de eu me ajeitar na cadeira. não vou me aprofundar nos motivos aqui, eu costurei alguns nomes na boca do sapo e a entidade ordenou sigilo, porque nada disso importa pro que eu quero te contar hoje :)
depois de passar pela fase do alívio de ter sido tirada de um lugar que nunca foi pra mim, eu entrei de cabeça nas 3 fases do luto:
eu não sirvo pra nada: “perder” o CLT premium, sonho de 99% dos brasileiros, veio de mão dada com a pressão de não ser suficientemente boa pra profissão que eu escolhi;
vou morar na rua: e se eu não conseguir coisa igual ou melhor? isso me paralisou por uns dias;
todo dia ela faz tudo sempre igual: eu tinha uma rotina bem definida e que me servia muito bem. sem ela, eu me sentia sem uma perna, sem um braço.
e, xeu te falar, trabalhar em banco deixa tudo 10 vezes mais dramático na hora de ir embora: eu fui escoltada como se tivesse plantado uma bomba na cadeira do presidente — quem me conhece, sabe que eu jamais apareceria no cidade alerta por um crime tão sessão da tarde desses. mas ó se eu quisesse.
cortando o assunto 1: quer apostar quanto que vai aparecer gente nos comentários falando “ain, mas em qualquer empresa grande o funcionário demitido é escoltado porque FIFIFIFIFIFIFIF”?
irmão, me deixa sofrer, POR GENTILEZA?
brigada.
se você não tirou 5 minutos de trocação na mão livre com o seu chefe, provavelmente a sua dor se pareceu mais com uma angústia profunda que um olho roxo… mas será?
vou te contar mais sobre isso.
a psicóloga social naomi eisenberger já mostrou que a rejeição e a exclusão social podem ativar regiões envolvidas na dor física, como o córtex cingulado anterior dorsal e a ínsula anterior, ou seja: dói na carne, e não é pouco.
entender esse ponto me tirou do limbo de pensar que era tudo puramente golpe do destino ou movimento do universo. e, falar pra você aqui, na boa, basear a vida 100% pela espiritualidade/subjetividade ainda vai te botar de lookinho all white na traseira de um furgão.
quando comecei a compreender que o meu cérebro é, sim, um amontoado de impulsos elétricos estimulados pelo mundo, com cultura, memória, medos e vontades — e não um cristal sagrado merecedor de grandes coisas —, que eu parei de chorar, olhei pra cima e enxerguei uma lanterna acesa procurando por mim, lá no topo do poço.
era eu mesma.
eu aprendi que a gente se afunda muito mais quando resolve botar tempo de expiração no luto.
“vou sofrer por 1 mês! depois disso, eu PRECISO me reerguer.”
mas onde tá escrito que o seu calvário vai durar 30 dias? quem disse que essa caminhada vai dar menos de 2 meses… ou 12?
primeiro, é preciso se dar a permissão de sofrer — e não sou eu quem tá dizendo, é a susan david, uma psicóloga babadeira que desenvolveu o conceito de agilidade emocional:
quando eu tive coragem de olhar com calma e carinho (principalmente por mim) pras emoções mais pesadas, entendi que crescer pode até doer, mas não precisa me matar. eu posso me dar uns dias de ifood sem freio e de fazer as unhas compulsivamente como se o próximo esmalte cintilante fosse me mostrar o caminho.
é preciso se dar esse tempo de nado livre no esgoto do sofrimento.
eu precisei remontar a minha rotina do zero e reaprender a viver sem uma coisa que ocupava mais de 10 horas do meu dia; de uma função que me coroava como pessoa útil, capaz e independente; uma profissional de, olha aí, sucesso.
eu precisava me agarrar a alguma coisa que não fosse a garganta do presidente do bradesco. mas primeiro, relembrei várias e várias vezes que nada me traria a cura instantânea pra dor.
por isso, eu me cobrei menos do que eu geralmente me cobro em fases mais calmas da vida. academia todo dia, salada nas principais refeições e uma hora de ilustração durante o café da tarde? oxe, peraí, e que hora eu vou rolar o reels até sentir meu cérebro escorrer pela orelha? sai, maluco.
✦ se levantar os braços, deus te puxa: você vai acabar morrendo nessa cadeira gamer, vão só jogar um paninho em cima até a polícia chegar. reage e vai andar na rua, correr na praça, faz umas flexões aí. seu mole.
➥ a ciência: no british journal of sports medicine, algumas revisões mostraram que o exercício físico também estimula a produção do BDNF, uma proteína que aumenta a capacidade do cérebro de criar e de se relacionar. vamo, levanta.
✦ nem o pombo do mendigo da minha rua come tão mal assim: não vai te matar fazer, pelo menos, uma refeição saudável no dia (mas vai te matar se não fizer rssssssss).
➥ a ciência: o ensaio clínico SMILES, uma pesquisa parruda sobre nutrição, mostrou que comer de forma equilibrada ajuda muuuuito a reduzir sintomas depressivos.
✦ não precisa mostrar pra ninguém, é só fazer: escreve rápido e errado, ou devagar e sem sentido, pinta feio, desenha esquisito, ninguém precisa saber.
➥ a ciência: o psicólogo james pennebaker estudou durante anos a escrita expressiva, que consistia em deixar as pessoas escreverem livremente sobre suas emoções mais difíceis. ó, quando a dificuldade é traduzida em palavras, ela deixa de ocupar todo o espaço da cabeça.
✦ sai dessa catacumba que você botou netflix e chama de quarto: abre a janela, joga um cloro nessa mancha verde na parede que tem atrás da sua cama, todo mundo sabe que ela tá aí.
➥ a ciência: parece conselho de vó, mas a exposição à luz natural ajuda a sincronizar o ritmo circadiano, o relógio que regula seu sono, sua disposição e hormônios. então, é bom pra ficar coradinho e menos delulu das ideia.
mark twain largou da nossa mão e saiu correndo:
“a pior solidão é não estar confortável consigo mesmo.”
né? lê de novo. você se sente sozinho porque tá mal com você mesmo, meu brother. afinal, a nossa cabeça não foi ensinada a achar tudo bem o mundo sendo do jeito que não é pra sejar.
quando a vida parece andar errado, é natural se afastar das pessoas ou se enxergar como um fardo. eu explico melhor: logo que eu fui demitida, pensei em chamar os amigos que eu fiz no banco pra um café, mas essa ideia rolou na minha cabeça por DIAS até que eu reunisse coragem pra convidar. sim, uma resposta HUMANA ao momento que eu tava vivendo.
depois de deixar essa ansiedade + culpa diluir, consegui retomar as amizades e me perceber como alguém que só tava triste e meio perdida. sabe quem mais agiria assim? você. sua melhor amiga. seu chefe. qualquer um.
cortando o assunto 2: ficar por dentro das fofocas do antigo trabalho é satisfatório demais. e se você condena fofoca, clica ali em “cancelar assinatura” antes que eu derrube sua conta.
voltar a se relacionar com amigos, estar perto das pessoas que gostam de você e dar espaço pra família te apoiar é, sem dúvida alguma, 90% do caminho de volta ao que você considera bom. vê se sai dessa rua escura de pensar que somos totalmente autossuficientes. é assim que os cara fica xarope e entra atirando em escola.
contei tudo isso porque eu quero te ver pisando na cabeça da serpente também. pode acreditar em mim. essa angústia vai passar.
não vou me prolongar muito sobre isso, mas as coisas tão mudando na sua news favorita (mente pra mim)
A carregar...
boa quarta livre pra nois, família.

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