tô no meu quarto livro da aurora venturini, e venho por meio desta expressar minha profunda tristeza por ser meio lerda e descobrir as coisas tão tarde; aurora morreu em 2015, deixando um transatlântico de livros esquisitamente fascinantes pra gente que gosta de sentir tudo demais.
lendo as obras da garota me apoiando sobre uma mesa de madeira que manca um lado desde 2024, é normal sentir o desejo passear por entre ser melhor amiga dela ou entrar por baixo de sua pele e ser ela.
não se deixe levar pelos trechos marcados por quem tem medo do caruncho dentado que é o lado perverso da natureza humana: muita gente bota luz nos trechos chatos do livro, em que ela só descreve um pensamento torto que ocorreria a qualquer uma de nós numa quarta-feira.
“perguntei a petra se ela sentia amor pelo vizinho e ela me disse que sentia amor pela lembrança de carina que foi sua irmãzinha grávida por aquele urso vendedor de batatas e que ele tinha toda a certeza de que ela o adorava, porque para praticar aquilo que vocês sabem é preciso amar profundamente do contrário ele deixaria de amá-la e pensaria que ela era uma prostituta.”
na barsa online - ou google, como alguns ainda chamam - dá pra ter uma ideia de que “as primas” é seu livro mais recomendado, e eu até concordo que é a obra ideal pra amar venturini.
ele funciona como um ame-a ou recomende-a pra inimigos de estômago sensível, já que sua escrita é considerada por um pessoal-referência como “deforme, compulsiva e marginal”.
não é bem assim, meio que é.
o que acontece é que aurora não era inocente.
sua escrita não fica nesse deixa que eu deixo característico de escritores de netflix (é com você mesmo que eu tô falando, raphael); aurora não luta pra que você entenda na primeira lida corrida, ou vai à merda se você não entender nem na décima; se nada se retorceu e azedou aí dentro dessa sua cabeçona de airfryer conforme se desenvolve a cena de uma garota deficiente sendo aliciada por um homem de confiança… aí eu fico preocupada, você deve ter questões muito piores pra tratar e vou mudar de lado quando te vir na rua.
viu como eu sei usar o verbo? é que eu sou escritora, mo.
prestação de serviço: ao pessoal que se rendeu igual uma cadelinha de apartamento pro kindle (oie, tudo bem), o livro tá incluído na assinatura prime aqui, mas também pode ser comprado por um preço honestíssimo - mais ou menos o valor daquele vinho de mercado que você compra no pão de açúcar por causa do rótulo em relevo e se arrepende depois porque tem gosto de cortiça molhada.
mas ao contrário do vinho, “as primas” é um item que você não vai querer enfiar no rabo do dono.
espero ter ajudado.
cor tem gosto e som tem cheiro
desde os meus 14 anos (ou antes) que eu associo cor a gosto e som a cheiro, mas vocês precisam entender que em 2005 não era tão legal ser esquisito como é em 2026, então eu não queria que as pessoas soubessem.
parênteses: também nunca foi um conflito mental tão pesado assim, não era tipo esconder esquizofrenia paranóide risos mas depois de adulta, engrossando a multidão de psicologicamente alterados & diagnosticados por profissionais tão confiáveis como o vorcaro, descobri que isso se chama sinestesia - quer dizer que você bagunça os sentidos. dei graças a deus por não ter um sexto, imagina sentir gosto de morto.
pra combinar com o assunto, trouxe 2 cursos gratuitos da usp pra quem quase sempre sente demais e quer piorar nesse aspecto, em nome do senhor.
o som das imagens: música e pintura na história da arte ocidental
investigar as relações entre música e pintura na tradição ocidental, dos gregos ao final do século XVIIIo cinema de jean-claude rousseau: apontamentos para uma ideia de imagem
apresentar a obra de Jean-Claude Rousseau, cineasta francês que, desde a década de 80, desenvolve uma obra com uma estilística BEM específica
achou que seria só reclamação e eu joguei uma resenha + 2 cursos nessa sua cara

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