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👁️👄👁️ então, mas e se... · May 3, 2026

e se eu não quiser?

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Thais Basso · 👁️👄👁️ então, mas e se...

olha,

é muito maravilhoso quando uma pessoa que você considera inteligente valida 1 das 1 milhão de coisas que você pensa.

o chão do mundo abriu como uma boca de baleia pra mim, quando a senhorita bira (procurem, pelo amor de deus) disse, recentemente, que

as coisas não precisam ter uma finalidade

Bira (@senhoritabira) • Instagram photos and videos
bira, minha amizade

sempre pensei nisso e - talvez por ser prolixa, talvez por ser facilmente distraída - nunca consegui expressar exatamente o que me afligia quando (peraí, tenho um exemplo bom) eu, na pinacoteca, decidia parar pra ver os detalhes de uma obra que bem podia ser um risco de lápis na parede e só; e eu olhava, olhava, questionava que que aquele negócio tava fazendo ali, e esse pensamento me fazia produzir outro pensamento como “eu estaria pensando nisso se não fosse esse risco de lápis?"

e se não fosse o risco de lápis metafórico que eu vi, lá na quinta série, que me fez gostar de manifestações artísticas escalafobéticas e inexplicáveis, será que eu chegaria a esse raciocínio sobre funcionalidade e utilidade… algum dia?

sei que quando levo alguém a esses lugares, e a pessoa não se deu esse tempo de pensar ainda (veja bem: não falta conhecimento, falta tempo), os questionamentos variam entre:

“mas pra que serve isso?”

“você entendeu alguma coisa?”

“o que o artista quis dizer com isso?”

e, na maior parte das vezes, eu respondo:

eu não sei. mesmo.

mas por que tudo precisa servir pra alguma coisa, passar uma lição de moral ou melhor, por que precisamos entender tudo o que é dito e feito, sempre? e se não tiver o que entender?

tá, lá vem você nos comentários dizer que isso é fruto do capitalismo; afinal, o produzir é só trabalhar e o não-produzir simplesmente não existe.

  • o nosso produzir é trabalhar por dinheiro: que na esmagadora parte das vezes, não vamos receber nem 2% dele;

  • o nosso não-produzir vira ócio “criativo”: ler um livro antes de dormir (mas tem que ser best-seller, útil); puxar ferro pra ficar saudável e forte (pra melhorar aquela dor na lombar adquirida adivinha-onde); assistir a algum filme (ganhador de prêmio, que é pra te deixar mais interessante e esperto).

o problema em transformar o não-produzir em uma oficina forçada de qualquer coisa útil, é que assim não se cria espaço suficiente pra entender ou fazer aquilo que não se tem a obrigação de servir.

fui prolixa de novo, peraí.

vamos lá.

você provavelmente não acredita que ovos quebrados no chão possam ser arte porque você foi treinado pra ser rápido, assertivo, sagaz; é o ver e assimilar, não o observar e questionar - assim como eu e todo mundo foi também.

anna maria maiolino - entrevidas (1981)

quando você vê e assimila: é uma sujeira desgraçada que dá trabalho pra limpar e pô, não tem uma plaquinha pra explicar essa merda, que que isso, perda de tempo, coisa de esquerdista safado.

quando você observa e questiona: beleza, continua sendo meio isso aí de cima; mas nada te prepara pra dar de cara com ovos quebrados numa galeria de arte finíssima no coração de milão; é, a arte também é sensação, ou principalmente sensação. nem sempre boa, é verdade. mas te tira do mesmo e é aí que você cresce - olha a gente voltando, naturalmente, ao servir pra alguma coisa.

é inevitável, mas pelo menos é consciente.

tá bom, agora você é adulto, entende a dinâmica dos impostos ai ai ai como ele é preocupado com o brasil, e me lança esse absoluto clássico no meio do centro cultural da cidade de são paulo:

“mas tão usando nosso dinheiro… pra isso?”

sim, meu amor, tão usando nosso dinheiro pra isso e ainda bem que tão.

eu sou cria do dinheiro público usado tanto pro bem quanto pro mau - foi na escola que fiz minha primeira gravura em madeira, mas também foi lá que vi faltar merenda. esse último item é que deveria te causar revolta.

e aí, essa edição serviu pra alguma coisa?

Read the original on thaisbasso.substack.com

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