Às vezes eu respiro fundo quando me perguntam com o que trabalho.
Não é por vergonha, nem por falta de clareza. É porque o que eu faço não cabe numa resposta automática. Passei a maior parte da vida trabalhando com educação no ensino superior. Fui professora de arquitetura durante quinze anos. Aos poucos, fui me aproximando das artes visuais, de oficinas de trabalhos manuais, do bordado. Há cinco anos, a arteterapia junguiana se tornou meu eixo de trabalho. E, quando tento resumir, sempre sinto que falta alguma coisa.
Talvez seja mais fácil explicar contando.
Há algum tempo, eu estava em terapia e levei um desenho que tinha feito em casa. Eu queria representar uma pessoa voando, amarrada a uma pedra. Todo mundo conhece aquela sensação de querer ir e ter algo que puxa para baixo. Fiz o desenho e, quando olhei para ele, percebi que a pessoa não estava voando. Estava caindo. Amarrada à pedra, caindo.
Levei o desenho para a sessão pensando em comentar que ele já tinha me dado uma resposta. Eu queria representar a pessoa em voo, mas ela estava caindo. O inconsciente é preciso. O desenho não tinha o que eu desejava representar, tinha o que eu precisava ver.
Minha terapeuta sugeriu que eu fizesse uma intervenção e foi buscar canetas. Enquanto isso, eu resolvi rasgar o desenho para soltar a pessoa da pedra. Reorganizei os pedaços e coloquei a figura na posição de voo. Amarrada à pedra, ela nunca iria voar. Alguma coisa mudou, não sei exatamente o quê, mas rasgar e reorganizar o desenho transformou o que eu sentia.
É assim que eu entendo, na prática, o que a arteterapia pode fazer. A gente dá forma para coisas que ainda não estavam claras. Quando esses conteúdos aparecem na matéria, num desenho, numa colagem, num bordado, eles passam a existir também do lado de fora. E aí é possível mexer. Um gesto pode destravar o que estava parado.
O trabalho que faço no ateliê se chama acompanhamento de processos criativos. É um nome comprido para algo que, na essência, é simples. Eu acompanho pessoas em percursos onde a arte vira caminho de cuidado.
Antes de cada encontro, preparo a mesa, organizo os materiais, cuido do espaço. Esses pequenos rituais fazem parte do trabalho. Eles criam um tempo mais lento, diferente do que está lá fora. O ateliê participa, com sua luz, seus sons, seus materiais. Ele favorece um tipo de presença atenta que o cotidiano raramente permite.
Trabalhamos de formas variadas: bordado, desenho, escrita, pintura, colagem. Mas também por meio de histórias, imagens, contos, músicas. O material expressivo é amplo, e o que usamos em cada encontro nasce do que a pessoa traz, do que está presente, do que vai aparecendo no processo.
Vou te contar outro exemplo. Uma vez, li um conto com uma pessoa que eu acompanho. Conversamos sobre a história, ela desenhou uma sensação que o conto despertou, e seguimos trabalhando com outras coisas que foram surgindo. Semanas depois, ela voltou me contando que uma imagem daquele conto tinha retornado num momento difícil, ajudando numa decisão que há muito precisava acontecer.
Isso me fascina. Eu não tinha nem imaginado aquele desdobramento, mas é assim que acontece. Quando ampliamos nossas imagens internas, aumenta também o nosso repertório de possibilidades para viver. Um conto, um desenho, um gesto com agulha e linha podem criar dentro da gente caminhos que antes não existiam. Ser mais criativos não para produzir coisas bonitas, mas para existir com mais liberdade e ser mais a gente mesma.
Esse acompanhamento se apoia em três coisas que aprendi ao longo desses anos.
A primeira é a força da imagem. Uma imagem desenhada, bordada, escrita, sonhada consegue expressar o que as palavras ainda não alcançam. E, mais do que expressar, ela produz. Produz conexões, caminhos, modos de ver.
A segunda é que criatividade é saúde. Não como talento ou dom, mas como impulso vital. Ela é uma característica humana da qual às vezes ficamos distantes. Reencontrar esse impulso é reativar algo que sempre esteve em nós.
A terceira é o protagonismo do processo e dos materiais. A fala é importante, mas nem sempre é suficiente. Às vezes, rasgar um desenho e reorganizar os pedaços muda o rumo. O gesto das mãos alcança lugares que a conversa não alcança.
“O anseio criativo vive e cresce dentro do homem como uma árvore no solo do qual extrai seu alimento. Por conseguinte, faríamos bem em considerar o processo criativo como uma essência viva implantada na alma do homem.”
Jung
No fundo, eu trabalho para que esse encontro com as próprias imagens aconteça com cuidado. Às vezes é ficar perto. Às vezes é saber me afastar.
Por hoje, era isso que eu queria te contar. Se quiser saber mais, eu posso te dizer com calma como funciona esse acompanhamento. É só me escrever.

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