Assisti Stranger Things com minha filha no fim do ano. Maratonamos tudo. Achei linda a recriação dos anos 80 que eles fazem, super nostálgica. Mas uma cena entre todas mexeu comigo: foi quando a Max escapa do Vecna, na 4ª temporada. Para quem quiser reassistir ou nem sabe do que eu estou falando, o link está aqui:
Vecna, o supervilão da série, escolhe suas presas e se liga a elas através de suas memórias ruins. Ele vai consumindo as vítimas através da culpa, do medo e da raiva até que, finalmente, as mata. Antes de atacar o corpo, ele domina seus pensamentos, deixando-as presas em um mundo de ilusão em que elas só enxergam tristeza e sofrimento. Perdidas em seus conteúdos sombrios, com mente e corpo dissociados.
Max já está nesse mundo quando os amigos conseguem que ela escape através de um recurso inusitado: colocam sua música favorita para tocar. Dentro do mundo do Vecna, ela começa a ouvir. Perdida em suas piores lembranças, se sentindo fraca e entregue ao vilão, a música faz com que ela se ligue à própria força de vida. Ela começa a se lembrar de cenas felizes e percebe que, além da dor que sente, existiu amor e alegria na sua vida.
A música cria um fio que une Max ao mundo real, às pessoas que a amam, às suas memórias mais felizes. E permite que ela escape. Não é fácil. À medida que ela corre para fora, o mundo sombrio vai desabando na sua cabeça. Ela precisa correr sobre um chão escorregadio, cheio de lama, e desviar do céu que despedaça sobre ela. Ainda assim ela foge, guiada pela música.
Eu me vi nessa cena.
Tantas vezes puxada para um lugar melhor por livros, filmes, músicas. Pela minha própria prática criativa. Muitas vezes, o bordado é esse fio: gesto concreto, repetitivo, que me traz de volta ao corpo quando os pensamentos estão agitados demais. Muitas vezes, também, vi isso acontecer com pessoas que acompanho: alguém chega perdida, dissociada da própria energia de vida, e aos poucos, encontro a encontro, gesto a gesto, vai encontrando um caminho de volta.
A arte não conserta tudo, mas cria um fio. Um lugar de apoio. Um ritmo que nos mostra que a gente ainda está aqui, que ainda dá pra correr, mesmo com o chão escorregadio, mesmo com o mundo desabando.
Talvez seja por isso que tenho tanta certeza de que a arte pode nos conduzir por lugares melhores. Não porque nos tira do sofrimento, mas porque nos traz de volta a nós mesmos. E nos lembra que somos mais do que a dor.
P.S. Estou com um grupo de bordado livre na Fresta Ateliê Escola: encontros quinzenais às quintas à noite, pra quem quer criar, conversar e trocar. Se você se interessa, pode me mandar mensagem.
P.S.2 E se você quer um espaço só seu, pra criar, se escutar, se reconectar… tenho horários de acompanhamento individual, presencial no Itaim Bibi ou online. Me escreve se ficou curiosa (ou curioso).

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