Contei na última newsletter que apresentei Memórias de Rio pela primeira vez em 2023, em uma exposição coletiva no centro de São Paulo. Escolhi levar a obra como performance.
Isso é meio surreal, porque sou tímida, nunca pensaria em performance por vontade própria. Apesar disso, toda vez que eu bordo em público, as pessoas se aproximam pra saber o que estou fazendo. Imaginei: quem sabe eu fico ali sentada bordando, as pessoas se aproximam e a gente conversa sobre rios?
No dia seguinte pensei: por que eu me coloco nessas situações?
Comprei uma cadeira de praia, coloquei uma roupa clara para não concorrer com o rio de tecido e fui. O pior que poderia acontecer seria ficar uma hora e meia bordando em silêncio, como faço com frequência em espaços públicos. Ia dar certo. Eu não sabia como as pessoas iriam reagir. Será que alguém iria ser rude? Será que alguém iria considerar aquilo uma bobagem? De qualquer forma, seria parte do experimento.
A exposição era muito democrática e eu podia escolher onde ficar. Escolhi um cantinho bem discreto, ao que uma amiga querida comentou: ah, vai ficar aí bem escondidinha, né? A curadora da exposição, com gentileza e uma alegria que contagiava, me sugeriu o meio do salão. Como minha vontade de desaparecer já tinha sido desmascarada, segui a curadora. Além de marcar performance, agora eu tinha concordado em ficar no meio do salão.
Sentei, respirei, me conectei com o bordado. Aquele gesto familiar me ancorou. Bordei. A galeria foi enchendo, eu continuei bordando. Algumas pessoas se aproximaram. Contei o que fazia ali. Contei do Guariba. Perguntei se elas tinham alguma lembrança de rio. Anotei no caderno. Outras pessoas se aproximaram, conversei sobre o meu rio e os seus rios. No intervalo, eu bordava. Todo mundo chegou gentil, suave, lento. O bordado pareceu criar um campo de desaceleração ao meu redor.
Saí feliz, tinha dado certo.
Mais que dado certo, as pessoas tinham sido tocadas pelo meu rio de retalhos, pela minha disposição para escutar. Eu nem sabia, mas já sabia fazer aquilo.
Foi na repetição que pude entender o que minha intuição já tinha encontrado sozinha. Levo muito pouco: uma cadeira de praia barata, roupa clara, caderno e lápis, retalhos de algodão cru, linha, agulha, tesoura. O rio é feito de sobras, restos de tecido que vou emendando aos poucos. No começo eu pensava nisso como uma questão de delicadeza, recusa de um excesso que nos marca.
Hoje entendo que a contenção é mais do que aparência: é escolha ética e estética. Nesse quase nada, o que importa fica mais visível: o encontro humano. O que fica em volta é apenas suporte para as histórias que escuto, para as palavras das pessoas, para olhar nos olhos, para o bordado simples que registra o encontro. Esse mínimo é o que permite que uma pessoa desconhecida se aproxime e sinta segurança para contar algo particular. A ausência de aparatos cria o espaço necessário para o encontro.
No início de julho estive em São Carlos fazendo Memórias de Rio. A mesma cadeira, o mesmo silêncio, o mesmo pouco.
E, de novo, os rios vieram.
Ouvi sobre o rio que inunda o comércio, sobre memórias de avô e rio (três pessoas me falaram disso!), sobre memórias de luto, sobre gente que foi ao rio para se curar. Ouvi também sobre uma pessoa que tem o “seu rio”. Soube de uma procissão de rio.
Um homem contou que quase se afogou fazendo rafting: mesmo sendo um bom nadador, foi pego por um redemoinho. O rio, disse ele, é imprevisível. Em outra ocasião, em outro rio, ele foi convidado por guaranis a ir a um lugar retirado e sentiu a sacralidade de uma piscina natural.
Saí abastecida das histórias de rio. Saí abastecida do encontro com as pessoas. Acho que as pessoas também saíram abastecidas. Felizes. Elas me agradeceram. Engraçado porque quem ganhou várias histórias para encorpar o seu rio fui eu. Acho bonito que, com tão pouco, ainda seja possível parar alguém no meio do dia para contar e escutar histórias. Talvez uma pequena ação ainda sirva para lembrar do quanto o encontro nos alimenta.
Um comentário do educador do SESC me contou mais uma coisa sobre esse trabalho: “interessante sua forma de escrever”. Perguntei que forma. Ele me disse: sem olhar para o caderno, olhando para as pessoas. Sim. Para mim, a letra bonita importa menos que escutar olhando nos olhos.
O que eu quero dizer com Memórias de Rio é que o encontro humano importa. As palavras das pessoas importam. A natureza importa. A gente ainda é gente.
Estou por aqui.
Renata
P.S. A ideia de holding, do Winnicott, segue me rondando. No ateliê, ele vem do ambiente: previsibilidade, hora , presença confiável, atenção aos ritmos de quem está em processo. Na performance, quase nada disso existe. Talvez o holding venha do mínimo preparado e do gesto: a cadeira de praia, o bordado, a repetição. É isso que cria algum contorno quando não há paredes nem rotina.

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