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tempo das mãos · Jul 16, 2026

Memórias de Rio

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tempo das mãos · tempo das mãos

Em 2018, fiz meu mapa astral pela primeira vez, depois de anos adiando, com um medo que nem sei explicar direito. Não sou a pessoa mais crente em astrologia. Também não desacredito… pra mim, faz parte do mistério.

A astróloga que leu meu mapa insistiu, mais de uma vez, que ele tinha muito potencial para escrita. Eu achei que ela estava falando dela mesma, não de mim. Não levei tão a sério assim… deixei pra lá e esqueci a informação.

Eu já era uma leitora voraz, acho que desde que me alfabetizei. Mais que isso: eu já era apaixonada pelas palavras como matéria do mundo. Já anotava trechos de livros em variados caderninhos. Já tinha o hábito de fotografar partes deles e mandar "de presente” para pessoas escolhidas. Já tinha uma pasta de notas quase infinita com os trechos que eu ia recolhendo. Nunca fiz a transição para um dispositivo eletrônico de leitura. Gosto de ler papel, anotar no papel, e, cúmulo do pecado, dobrar orelhas nas páginas para marcar os lugares onde devo voltar.

Num processo de acompanhamento artístico, em plena pandemia, a artista pediu que eu listasse meus materiais de trabalho, minha genealogia artística e os gestos que davam forma ao meu fazer. Listei tudo, menos a escrita. E foi ela quem estranhou: “as palavras são um material de trabalho tão usual para você, por que não entraram?”

Foi um susto pequeno. Reparando bem, essa não era a primeira vez que acontecia comigo: muitas vezes, preciso que alguém de fora nomeie alguma coisa muito habitual antes que eu possa reconhecer. Aconteceu com a astróloga. Aconteceu de novo, anos depois, com a mesma pergunta, feita de outro jeito. Acontece com outras pessoas também: seguidas vezes, precisamos do olhar do outro para nos ver.

Desde meus primeiros bordados eu escrevo palavras com linha. Não que eu tivesse intenção, elas foram saindo naturalmente. Talvez, daí a dificuldade de enxergar como material de trabalho. Em 2019, eu trabalhava em séries de peças de enxoval bordadas em branco, com frases de escritoras brasileiras, falando sobre o silenciamento feminino no ambiente doméstico.

palavras virando casulos

Em 2021, fiz uma série que se chamava Casulos. Permeada por aquele contexto de fim de mundo, eu bordava frases de livros queridos em algodão cru, depois enrolava e cobria de barro. Protegia o que tinha de mais precioso para mim. A imagem da garrafa lançada ao mar: o que era precioso o bastante pra guardar pro futuro, num momento em que não se sabia se o mundo ia continuar.

Em 2023 eu já pesquisava sobre o córrego Guariba há mais de um ano. Fazia pequenos gestos para me comunicar com ele: limpava o lixo que jogavam na sua nascente, recolhia suas águas onde elas afloravam como testemunhas da sua presença. E comecei a anotar textos de livros, revistas, podcasts, músicas… tudo que falava de rio e chegava até mim. Na minha fantasia poética, eles eram a voz do Guariba falando comigo. Daí pra bordar essas palavras foi um pulo. Fui emendando retalhos e, em uma visita a São Francisco Xavier, tinha formado um rio.

Ao mesmo tempo, quem me via bordando e se aproximava com curiosidade. As pessoas sempre tinham uma memória de rio para me contar. Rapidamente, comecei a querer saber dessas memórias. Quando o tecido-rio ganhou um pouco de corpo, decidi levar para uma exposição coletiva. Ao preencher o formulário, marquei performance. Meu dedo foi mais rápido que meu pensamento. Não era isso que eu pretendia. Mas foi o que fiz. Intuitivamente, eu já sabia que era uma ação relacional: eu ouvia palavras das outras pessoas e registrava no tecido. Já era performance, eu só não dava esse nome. Sou lenta mesmo para entender as coisas.

No dia em que voltei dessa primeira experiência, abastecida pela adrenalina e pela emoção dos encontros, lembrei da astróloga falando sobre a palavra ser matéria do meu trabalho. Lembrei da artista que me disse a mesma coisa. E finalmente entendi. Porque a experiência tinha ido para o corpo, porque eu tinha sido inundada por um rio de palavras.

As palavras estão na minha vida desde que me entendo por gente e acompanham meu trabalho artístico desde o início. Os Casulos guardavam frases cobertas com barro, protegendo do mundo que teimava em se desfazer. O rio de tecido que venho bordando desde então faz o oposto: fica estendido no chão, se expõe, deixa qualquer pessoa se aproximar e ler. Ele oferece as palavras.

O que antes era pra guardar hoje me serve de ponte para chegar perto e compartilhar.

Você já conversou com um rio? Me conta.

Até a próxima,

Renata

o rio de palavras e o rio de água em São Francisco Xavier

P.S. A performance Memórias de Rio aconteceu em junho no SESC São Carlos.

No segundo semestre, retomo o Ateliê Aberto, sempre no terceiro sábado do mês: um espaço pra quem quiser experimentar de perto. É no fazer que a gente entende o que estava fazendo.

Read the original on tempodasmaos.substack.com

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