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sobinfluencia · Jul 7, 2026

Quando as teorias encontram a vulnerabilidade dos nossos corpos

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sobinfluencia · sobinfluencia

Entre os dias 3 e 19 de junho, Mara Montanaro, autora de Teorias feministas viajantes, esteve no Brasil para uma série de atividades que discutiram seu pensamento e celebraram a publicação do livro em português.

Mas essa viagem extrapolou os encontros acadêmicos e militantes, os lançamentos do livro em São Paulo, Rio de Janeiro e Recife, e a alegria de conhecer um novo país, novas pessoas e outras formas de fazer. Em alguma medida, ela também se tornou, para Mara, um espaço para compreender as potências e as fragilidades de um corpo e a importância de elaborar um pensamento a partir desse lugar, e o texto a seguir reflete um pouco disso.

Queria compreender como as ideias feministas atravessam fronteiras, como se deslocam entre línguas, contextos e histórias diferentes, como se transformam quando encontram outras realidades políticas e outras experiências vividas.

Interessava-me aquilo que Edward Said chamou de “teorias viajantes”. Queria seguir as trajetórias dos conceitos, seus deslocamentos, suas reapropriações, suas traduções. Queria compreender o que acontece com as ideias quando elas deixam o lugar onde nasceram.

Eu ainda não sabia que uma outra viagem me aguardava.

Entre a escrita deste livro e sua tradução para o Brasil, algo mudou profundamente em minha vida.

Atravessei um câncer de mama.

Não vou falar aqui dessa experiência em si. Não é o tema deste livro nem deste encontro. Mas essa passagem biográfica é fundamental para mim, porque transformou profundamente a maneira como compreendo algumas das questões que exploro nestas páginas.

E, de repente, algumas noções que estavam no centro do meu trabalho deixaram de ser apenas conceitos.

Tornaram-se uma experiência.

Durante muito tempo trabalhei filosoficamente com a noção de corpo-território desenvolvida pelos feminismos comunitários e decoloniais da América Latina. Refleti sobre a maneira como as violências patriarcais, coloniais e extrativistas se inscrevem nos corpos e nos territórios. Procurei compreender como as lutas feministas inventam outras formas de habitar o mundo.

Então, meu próprio corpo tornou-se um território.

Um território ferido.

Um território operado.

Um território medicalizado.

Um território atravessado por cicatrizes.

Um território que já não era apenas objeto de uma reflexão filosófica, mas o próprio lugar onde essa reflexão precisava agora criar raízes.

Percebi então que existe uma diferença imensa entre compreender a vulnerabilidade e habitá-la.

Entre pensar a dependência e vivê-la.

Entre escrever sobre o cuidado e precisar ser cuidada.

Entre analisar a fragilidade e descobrir que ela se torna a própria matéria da nossa existência.

Vivemos em sociedades que valorizam a autonomia, o controle e a independência. Aprendemos muito cedo a considerar a dependência como uma fraqueza.

No entanto, o câncer de mama me ensinou algo diferente.

Ensinou-me que somos fundamentalmente interdependentes.

Que ninguém se salva sozinho.

Que nossos corpos são sempre atravessados pelos outros.

Que nossa vulnerabilidade não é o oposto da nossa potência.

Talvez ela seja sua própria condição.

Os feminismos latino-americanos já haviam me ensinado que o corpo nunca é um espaço privado isolado do mundo. Que ele é atravessado pela história, pela política, pelas relações de poder, pelas violências, mas também pelas resistências e pelas solidariedades.

Hoje acredito compreender essa intuição de outra maneira.

O corpo não é apenas aquilo que nos pertence.

É aquilo através do qual pertencemos ao mundo.

E quando esse corpo é ferido, quando sua aparente evidência se rompe, algo se torna subitamente visível.

Descobrimos que viver não é um estado.

Viver é uma relação.

Uma relação frágil, precária, sempre inacabada, com os outros, com o tempo e com a nossa própria finitude.

Essa experiência transformou a maneira como releio este livro.

Continuo acreditando que as teorias viajam.

Continuo acreditando na necessidade das coalizões feministas internacionais.

Continuo acreditando que as lutas de Abya Yala renovaram profundamente nossa maneira de pensar a política, o comum, o território e a emancipação.

Mas hoje acredito que as teorias nunca viajam sozinhas.

Elas viajam através dos corpos.

Corpos que amam.

Corpos que resistem.

Corpos que migram.

Corpos que trabalham.

Corpos que envelhecem.

Corpos que adoecem.

Corpos que sobrevivem.

Talvez esta seja uma das lições mais preciosas que os feminismos latino-americanos me transmitiram: o pensamento nunca está separado da vida.

Não existem, de um lado, os conceitos e, de outro, as existências.

Não existem, de um lado, a teoria e, de outro, a experiência.

O pensamento nasce sempre em algum lugar.

Numa ferida.

Num encontro.

Numa revolta.

Numa alegria.

Numa necessidade.

Hoje, ao retornar ao Brasil com este livro, já não sou exatamente a mulher que o escreveu.

E talvez seja isso que torna esta viagem tão emocionante.

Porque venho apresentar um livro que fala de transformação enquanto eu mesma fui transformada.

Venho falar do corpo-território enquanto meu próprio corpo se tornou um território de luta, de cuidado, de reconstrução e de reinvenção.

Venho falar de coalizões enquanto aprendi na própria carne o que significa depender dos outros.

Venho falar da potência feminista enquanto descobri que potência não é invulnerabilidade.

Potência é a capacidade de continuar.

Continuar criando.

Continuar ensinando.

Continuar amando.

Continuar viajando.

Continuar imaginando outros mundos possíveis.

Talvez a pergunta que hoje me habita não seja mais apenas: como viajam as teorias?

Mas também:

O que acontece com nossas teorias quando elas encontram a vulnerabilidade dos nossos corpos?

E como essa vulnerabilidade pode se tornar, por sua vez, uma força política, uma força de criação e uma força de transformação do mundo?

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Read the original on sobinfluenciaedicoes.substack.com

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