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sobinfluencia · Jul 22, 2026

Estudos negros e pessimismo

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Em Negrura, atualmente em pré-venda pela sobinfluencia edições, Norman Ajari apresenta ao público de língua portuguesa alguns dos debates mais instigantes do pensamento negro contemporâneo. Em diálogo crítico com tradições como a Teoria Crítica da Raça, o feminismo negro e a tradição radical afro-americana, o filósofo investiga os limites das promessas de emancipação oferecidas pela democracia liberal e acompanha a emergência de correntes como o afropessimismo e os Black Male Studies. No trecho a seguir, Ajari examina como determinados debates dos Black Studies foram incorporados – ou deliberadamente excluídos – da recepção francófona, mostrando que a circulação das ideias também é atravessada por disputas políticas e epistemológicas sobre quais perspectivas podem ser legitimadas e quais permanecem à margem.

Os estudos de gênero, os estudos femininos e feministas abriram caminho para uma recepção francófona dos estudos negros norte-americanos, bem como para a formulação de trabalhos que marcam, em particular, uma renovação da filosofia francesa. Editoras francesas, quebequenses e suíças tornaram acessíveis traduções rigorosas de diversos clássicos do feminismo negro, como obras de Audre Lorde, Patricia Hill Collins, bell hooks e Angela Davis. Em contrapartida, outras correntes dos Black Studies não se beneficiaram da mesma acolhida. Certamente por ser considerado racista, como afirmou Maboula Soumahoro, o nacionalismo negro não é visto na França como um interlocutor, nem sequer como um objeto de pesquisa válido. Da obra prolífica do influente teórico da afrocentricidade e fundador, na Universidade Temple, do primeiro programa de doutorado em estudos negros dos Estados Unidos, Molefi Kete Asante, quase nada está acessível ao leitor francófono. Por outro lado, um ensaio dedicado à crítica de suas teses foi traduzido para o francês pouco tempo depois da publicação do original. Os estudos negros francófonos são o único campo de estudos em que se disponibiliza preventivamente aos leitores a crítica de ideias às quais eles nunca tiveram acesso. Livros do principal fundador da Critical Race Theory, Derrick Bell, também não estão disponíveis, assim como as obras de seus mais fiéis continuadores, Jean Stefancic e Richard Delgado. Felizmente, foi publicada há pouco tempo uma coletânea que retoma alguns artigos clássicos da TCR.

No século XXI, foi pela porta dos estudos de gênero e feministas que os estudos negros entraram na universidade francesa, o que orientou a pesquisa. Textos especificamente mais ancorados em um percurso abolicionista, anticolonial, nacionalista negro ou pan-africano, por mais influentes que sejam nas Américas, em geral são descartados e considerados irrelevantes. Evidentemente, as feministas francófonas privilegiaram os trabalhos de mulheres negras mais alinhadas ou em consonância com a própria visão de mundo e agenda. O objetivo era abastecê-las com vozes novas, porém consonantes. Essa seleção não reflete a totalidade dos debates, deixando de fora várias opções teóricas. É o caso de Africana Womanism, fundada no início da década de 1990 pela teórica afro-americana Clenora Hudson-Weems, que parte da ideia de que “a verdadeira história do feminismo, suas origens e participantes, revelam um flagrante fundo racista, fator que atesta sua incompatibilidade com as mulheres afrodescendentes”. Visto que o movimento das mulheres estadunidenses foi estruturado à imagem do abolicionismo, a autora ridiculariza as mulheres negras que abraçam a causa feminista com a pretensão de adaptá-la às suas experiências e necessidades, como se estivessem “imitando uma imitação”, em vez de voltarem à fonte viva do próprio movimento negro. Ela concebe sua obra como herdeira da militância de libertação afro-americana, cujos princípios considera incompatíveis com os do feminismo. “Historicamente, as mulheres afrodescendentes lutaram contra as discriminações sexuais, raciais e de classe. Elas desafiaram o machismo dos homens afrodescendentes, mas sem chegar a excluí-los como aliados na luta pela libertação e a família”. Essa perspectiva coincide com a do psicólogo e pensador pan-africano Amos Wilson, entre outros acadêmicos afro-americanos desconhecidos pelo público francófono.

É certo que, também na América do Norte, o feminismo negro, e mais especificamente a teoria da interseccionalidade, são hoje o paradigma mais valorizado no âmbito dos Black Studies. Muitas vezes caricaturadas como passadistas, chauvinistas, misóginas ou reacionárias, as teorias inspiradas no nacionalismo negro, pan-africanismo ou radicalismo negro da conjuntura da década de 1970 foram aos poucos perdendo terreno diante dos discursos mais liberais e mais próximos das vertentes dominantes das ciências sociais predominantemente brancas. Contudo, as intuições, os afetos e as orientações gerais dessas importantes correntes do pensamento negro do século XX parecem agora ressurgir sob nova forma. O tema do pessimismo, antes tópico recorrente do radicalismo negro, passou para o primeiro plano. Ele nunca se referiu aos negros, suas qualidades ou sua coragem, mas à capacidade da sociedade branca de superar a própria negrofobia — daí a recorrência, ao longo de todo o século XX, de projetos como a repatriação para a África ou o estabelecimento de uma nação negra na América do Norte, entre outros. No entanto, segundo o filósofo Cornel West, “o pessimismo em que se baseia o nacionalismo negro nunca se consolidou completamente no plano organizacional. De modo geral, os negros mantêm a possibilidade de uma coalizão multirracial no intuito de aprofundar a democracia na América. Penso que, historicamente, a Igreja negra puxou o tapete do nacionalismo negro. Ela destaca a especificidade cultural negra, no entanto, embora estimule a coesão do grupo, sua mensagem é universalista”. Em outras palavras, esse otimismo captura as aspirações de autodeterminação e de poder negras para redirecioná-las a uma combinação de distinção cultural e investimento no projeto democrático ocidental.

Evidentemente, a história do nacionalismo negro e da Igreja negra não se diferem. O bispo Henry M. Turner, da Igreja Metodista Episcopal Africana, foi um dos mais fervorosos militantes da solução de retorno à África na virada para o século XX, porém, teve poucos seguidores. Apesar de algumas tentativas contemporâneas de radicalização do discurso, aos modos da teologia da libertação da década de 1960, a Igreja negra tornou-se em grande parte um poderoso instrumento do status quo. Sua promoção da teologia da prosperidade, que santifica o enriquecimento pessoal e o luxo, seu conservadorismo social e sua conivência com a política institucional muitas vezes opera como mensagem universalista. Embora ambições políticas como as do bispo Turner já não sejam atuais nos debates contemporâneos, a falta de confiança nas instituições permanece viva e a crença nos supostos benefícios de uma coalizão multirracial está se desgastando.

No contexto afro-americano, a distinção entre otimismo e pessimismo em geral se baseia no entusiasmo ou no ceticismo em relação a projetos de assimilação à sociedade predominantemente branca. Com frequência, o primeiro é classificado como liberal e o segundo como radical. Em outras palavras, os otimistas acreditam na possibilidade de os negros verem sua humanidade plenamente reconhecida, enquanto os pessimistas consideram a negrofobia insuperável sem uma gigantesca reviravolta na ordem mundial vigente. Daí a urgência de construir um pensamento e uma organização negros sobre bases inéditas. A virada pessimista dos estudos negros contemporâneos não se refere à introdução de novos temas ou novas ideias, mas sim à expressão de um retorno do recalcado. Esse pessimismo, ponto de partida de todas as vertentes da tradição radical negra, do nacionalismo negro ao Black Power, passando pelo pan-africanismo, foi por um tempo silenciado pelas vertentes mais liberais, como o feminismo interseccional ou o pós-estruturalismo. Negrura, como tentativa de história imediata das ideias, pretende ser um testemunho desse inevitável retorno do pessimismo no momento teórico contemporâneo, fomentado pela longa sequência de consolidações, radicalismos e recuperações do movimento pelas vidas negras (Black Lives Matter), pela amargura deixada pela passagem de Barack Obama na Casa Branca, e pela consternação com o espetáculo de palhaçadas racistas de Donald Trump.

Em inglês, o termo Blackness é óbvio: designa simultânea e alternadamente o fato de ser negro, a experiência negra, a atribuição racial, a cultura afro ou a condição negra. Armadilha constante para os tradutores, às vezes ele é traduzido pelo neologismo inventado por Aimé Césaire, Léopold Sédar Senghor e Léon Damas: négritude. Contudo, generalizar esse termo, carregado de uma história rica e marcada pelo esforço hercúleo empreendido por esses pensadores no início do século XX, equivale a apagar a singularidade de sua intervenção e de suas criações teóricas e literárias. Costuma-se interpretar a invenção da négritude como uma “reversão do estigma”, um modo de acolher o nègre, que se tornara sinônimo de abjeção e inumanidade no mundo pós-escravagista. Mas essa estratégia é acompanhada de outra, mais discreta. Ressuscitar o nègre de carne e osso, poetizar as nações nègres da África e do Caribe, significava contornar o noir. O substantivo noir encarna, o substantivo nègre abisma. A négritude também carrega a recusa do abismo, da superfície em que a luz não se reflete, que irresistivelmente guia a imaginação em direção ao obscuro, ao sombrio, ao negativo. Essa metáfora atravessa a história da condição negra e sempre contribui fortemente para a assimilação dos africanos a forças demoníacas, inumanas, monstruosas e irremediáveis. Traduzi Blackness por noirceur — negrura – e todos os seus derivados (anti-Blackness, mais ou menos sinônimo de negrofobia, tornando-se, portanto, antinegrura), pois julguei necessário abarcar este campo semântico. Os pensadores da negrura, a quem essa obra é dedicada, aceitam a presença da negatividade que tanto o termo inglês Blackness como o francês noirceur conotam.

A ambição de Negrura é tripla. Em primeiro lugar, essa obra pretende ser uma introdução a dois campos de reflexão teórica atualmente em desenvolvimento no universo acadêmico afro-americano: o afropessimismo e os Black Male Studies (estudos sobre os homens negros). Isso também implica apresentar as fontes e as inspirações desses movimentos. Em segundo lugar, propõe-se a testar as ferramentas elaboradas por essas correntes de pensamento, mobilizando-as para questionar outros textos e contextos, em especial dentro do espaço francófono. Por fim, em terceiro lugar, como continuação de La Dignité ou la Mort, pretende acelerar o surgimento de um discurso teórico negro em língua francesa, estimulando o estudo dos afrodescendentes pelos próprios afrodescendentes. Para concluir, espero que este livro, que aborda quase exclusivamente a condição negra no norte global, desperte algum interesse nos leitores da África francófona, do Caribe, do Brasil, do mundo hispânico e tantos outros, como antes ocorreu com La Dignité ou la Mort. O diálogo, o debate e a tradução entre as perspectivas teóricas de diferentes diásporas e regiões do continente são, sem dúvida, o desafio mais vital para o futuro do pensamento negro — talvez o único que valha a pena.

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