Gabriela De Laurentiis tem se destacado no campo da história da arte contemporânea por suas análises que articulam teoria feminista, história das práticas artísticas e abordagens espaciais. Seu mais recente livro, Anna Bella Geiger: a imaginação é um ato de liberdade, atualmente em pré-venda, aprofunda essa perspectiva ao investigar a produção de Anna Bella Geiger, reconhecida artista brasileira cujas obras atravessam mídias, temporalidades e questões políticas centrais ao nosso tempo. A partir de um olhar crítico e rigoroso, De Laurentiis propõe uma leitura que vai além da cronologia e da forma, situando a obra de Anna Bella em um diálogo fértil com temas como identidade, poder, subjetividade e territorialidade. Este texto introdutório situa o leitor na proposta da autora e prepara o caminho para a análise detalhada que se segue, demonstrando a contribuição significativa para os estudos de arte contemporânea.
Nas últimas décadas, Anna Bella Geiger consolidou seu reconhecimento no cenário artístico contemporâneo, e Gabriela De Laurentiis demonstra com perspicácia como sua produção continua a gerar reflexões instigantes. Por meio de uma análise detalhada e multifacetada das obras da artista, Laurentiis estabelece conexões significativas entre as diferentes mídias e os períodos da produção de Anna Bella, enfatizando as transformações que marcaram a transição da arte moderna para o contexto contemporâneo. Com rigor e precisão, a autora examina obras específicas, explorando suas qualidades formais, preocupações temáticas e contextos históricos.
O diferencial do trabalho de Laurentiis reside na integração eficaz entre história da arte, teoria feminista e teoria espacial, proporcionando uma compreensão densa e complexa da produção de Anna Bella. A teoria feminista do espaço é utilizada como uma estrutura sólida para analisar a produção da artista de modo original, permitindo uma discussão sofisticada sobre como esta se relaciona com questões de poder, identidade e representação.
A relação próxima entre a autora e a artista aprofunda as análises das obras, transformando Anna Bella Geiger em uma interlocutora fundamental de sua própria trajetória criativa. Se essa conexão confere uma autoridade interpretativa que poderia parecer totalizante, a pluralidade de vozes e autores mobilizados nas reflexões apresentadas atenua essa centralidade, possibilitando uma leitura mais ampla e diversificada do trabalho da artista.
A montagem de Circa na Bienal de Istambul, por exemplo, adquire contornos singulares com essa proximidade, pois Laurentiis acompanhou o processo de montagem do trabalho in loco. Essa familiaridade permitiu uma interpretação refinada das nuances da instalação, revelando a incorporação de novos elementos, como as estradas de areia branca e a inserção de terra escura e úmida. Sugeridas pela paisagem avistada durante o voo para Istambul, Anna Bella integrou à remontagem do trabalho as estradas brancas que serpenteavam por vastas áreas desérticas, captadas na perspectiva aérea. Já a presença da terra conferiu um aspecto de fecundidade à obra, conforme observado por Ana Hortides, assistente da artista na época. As vozes da autora, somadas às interpretações de Hortides e às declarações de Anna Bella, proporcionam uma intimidade ímpar à remontagem de Circa.
Anna Bella recorda que, na primeira construção de Circa, estava imersa no imaginário da ocupação do Iraque por tropas dos Estados Unidos — ocorrida três anos antes da criação da instalação —, intensificando, por intermédio das palavras, as sensações de devastação trazidas pelas formas e materiais da obra. De aspecto frágil, como nos lembra a autora, a instalação compõe-se de elementos delicados — areia, cimento seco e terra — combinados a objetos pré-fabricados, como a pequena réplica de uma casa no estilo Bauhaus, um trenzinho e pedaços de vidro que formam uma pequena piscina.
Assim, conclui De Laurentiis, o trabalho da artista surge como uma aposta na vida e nas possibilidades de transformação de si e do mundo, não por um futuro utópico e distante, mas pela presença e pelo compartilhamento dos espaços. Destruição e reconstrução são operadas pela obra de Anna Bella Geiger e apresentadas em múltiplas possibilidades não binárias. Sua poética recusa-se a ser capturada em uma fórmula a ser seguida, constituindo-se como passagens constantes entre o passado, o presente e o futuro.
A criação da instalação Circumambulatio, assim como as obras em que Anna Bella explora os ambientes lunares, ressoa de maneira crítica os movimentos de colonização em territórios ainda inexplorados, evocando a chegada do homem à Lua e os primórdios da urbanização na lagoa de Marapendi, na Barra da Tijuca, no Rio de Janeiro. As intervenções efêmeras realizadas pelos alunos da artista apontam para a ocupação de espaços vazios e desabitados, estabelecendo um diálogo provocativo entre as ideias de conquista, permanência e preservação. Essa tensão entre ocupação, aniquilamento da natureza originária e a própria identidade dos lugares desafia os limites do que significa habitar um espaço, ainda que temporariamente.
As práticas educacionais da artista no MAM do Rio, que refletem uma necessidade coletiva de transformação daquele espaço, são analisadas em detalhe. Acompanhando o processo criativo de Circumambulatio — uma produção colaborativa realizada por Anna Bella em parceria com os estudantes Abelardo Jacobino Santos, Evando A. Escobar, Lígia Teixeira Ribeiro e Suzana Geyerhahn, além das imagens produzidas pelo fotógrafo Thomas Lewinsohn —, Laurentiis revela uma faceta da artista que navega pelas crises do campo das artes, sejam elas institucionais ou relacionadas à ideia tradicional de um criador isolado. Essa abordagem enfatiza a importância da colaboração e do compartilhamento de experiências na criação artística, oferecendo uma nova perspectiva sobre o papel da artista na sociedade contemporânea.
As análises do ambiente-instalação Circumambulatio ganham destaque nas considerações sobre a trajetória da artista, preparando o terreno para o que se segue: “Até aqui, apresentei algumas camadas de sentido para o trabalho de Anna Bella Geiger tomando-os como formadores, constituintes do processo daquilo que ela estabeleceria como local da ação”. A dicotomia entre autobiográfico/reflexivo e público/político revela-se falha, especialmente sob uma perspectiva crítica contemporânea que necessariamente incorpora o pensamento feminista. Acompanhando a trajetória da artista, percebe-se que essas perspectivas se complementam em um ciclo contínuo, em diálogo com um pensamento crítico que transcende oposições binárias.
Em suas ações artísticas, Anna Bella teria estabelecido uma articulação multiforme entre a crise e a reelaboração de si enquanto artista contemporânea, enfatizando um engajamento crítico imerso na precariedade da situação política nacional. Assim, mesmo quando o próprio corpo da artista é matéria de seus trabalhos, essas representações autobiográficas são concebidas como elementos político-públicos, e não como expressões de uma subjetividade pura. São modos de produção subjetiva atentos aos impactos na produção artístico-cultural. A análise feminista, como nos relembra a autora, demonstra que explorar o próprio corpo constitui uma forma relevante de intersecção entre o pessoal e o político, entre o privado e o público.
Laurentiis também analisa a autorrepresentação e o autorretrato de Anna Bella como instrumentos de crítica social e política, demonstrando como a artista subverte as narrativas autobiográficas tradicionais. Ao examinar essas obras a partir da crítica das estruturas de poder coloniais e imperiais, a autora evidencia como Anna Bella utiliza sua própria imagem para desafiar hierarquias estabelecidas tanto no sistema da arte quanto na sociedade. A reflexividade emerge, assim, como elemento-chave: a autorrepresentação permite à artista examinar sua posição enquanto sujeito histórico, revelando uma consciência aguda de seu papel no mundo.
Para a autora, em Declaração em Retrato I, Anna Bella critica a importação de modelos culturais que perpetuam a dependência e a condição de colonizado, expondo as tensões entre sua identidade sul-americana e as dinâmicas de poder presentes no sistema global da arte. Ao se declarar a partir do Brasil e da América Latina, a artista contribui para os debates políticos sobre a produção de sujeitos, territórios e espacializações sob uma perspectiva historicamente informada. As práticas autobiográficas, destaca Laurentiis, evoluíram para incluir a autoconstituição como um de seus aspectos, permitindo que os sujeitos reconheçam a complexidade e a multiplicidade inerentes à própria individualidade. No campo artístico, a autobiografia viabiliza ficções não narcísicas capazes de constituir uma verdadeira “arte pública”.
Esse elo entre subjetividade e territorialidade — no qual o feminismo não sucumbe ao universalismo, pois se enraíza em uma historicidade imanente ao próprio corpo — permite que Laurentiis explore o conceito de camuflagem na obra de Anna Bella, tanto em seu sentido literal quanto metafórico, como abertura de espaços de liberdade e resistência. A autora revela de que modo a artista emprega a camuflagem como estratégia para subverter expectativas, questionar identidades e criar novas possibilidades de expressão. Sua análise mergulha nos espaços liminares, onde as fronteiras entre público e privado, interior e exterior, real e imaginário se entrelaçam, tornando possíveis novas formas de interação e vivência. A camuflagem dialoga ainda com questões sociais e políticas amplas, refletindo sobre a violência da ditadura militar e a opressão sofrida pela sociedade brasileira.
As reflexões de Gabriela De Laurentiis inscrevem-se em uma historiografia feminista que vem reconfigurando o campo da história da arte contemporânea, sem, contudo, descuidar das perspectivas históricas que a própria Anna Bella Geiger já havia tensionado. As novas abordagens do espaço e das subjetividades, aliadas a uma análise sutil que remete as recriações das intervenções da artista às suas potências iniciais, permitem formular novas perguntas sobre o solo dos enfrentamentos da sociedade brasileira — ontem como hoje.
* Dária Jaremtchuk é professora livre-docente pela Escola de Artes, Ciências e Humanidades (EACH) da Universidade de São Paulo (USP), onde ensina História das Artes. Foi pesquisadora visitante na Brown University (2011–2012) e na Georgetown University (2017–2018), com financiamento da Fapesp. Em 2016, participou do Programa Ano Sabático do Instituto de Estudos Avançados (IEA-USP), desenvolvendo pesquisa sobre o trânsito de artistas brasileiros para os Estados Unidos. Em 2019, foi professora visitante na Emory University, selecionada pelo Programa Fulbright para a Cátedra de Estudos Brasileiros. Publicou o livro Anna Bella Geiger: passagens conceituais (2007) e diversos artigos sobre os “exílios artísticos” das décadas de 1960 e 1970.
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