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sobinfluencia · Feb 5, 2026

A fábrica da reprodução frustrada pela greve feminista

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No texto a seguir, Mara Montanaro, autora do livro Teorias feministas viajantes, – em pré-venda pela sobinfluencia –, mobiliza a filosofia política feminista para pensar a greve não apenas como instrumento tático, mas como método crítico e existencial capaz de reconfigurar as noções de trabalho, classe, violência e internacionalismo a partir das experiências dos feminismos latino-americanos. Em diálogo com autoras como Verónica Gago, Angela Davis, Silvia Federici e Rita Segato, Montanaro constrói um diagnóstico rigoroso do patriarcado capitalista, colonial e racista, mostrando como a greve feminista revela a trama econômica da violência e reinscreve a reprodução social no centro da luta política.

É essa a natureza da greve: bloquear o sentido estabelecido, ocupar o presente num sentido em reconstrução [...] Fazer greve para ganhar tempo, fazer greve para afirmar nosso desejo de viver, fazer greve para destruir o que nos destrói, fazer greve para fazer surgir a alegria no coração do que nos une. Fazer greve para cuidar. Pela greve, irrevogavelmente a favor e para sempre.

Adrien Brault e Simon Le Roulley, Pela greve.

Em 3 de outubro de 2016, ativistas polonesas convocaram as mulheres a uma greve em massa para impedir a aprovação do projeto de lei pelo qual o governo pretendia criminalizar o aborto.

Em 19 de outubro do mesmo ano, o apelo à greve das mulheres, lançado por militantes argentinas para denunciar o enésimo feminicídio de uma jovem de dezesseis anos, violada e morta após ser empalada, criou o vínculo que caracteriza, desde então, as greves feministas latino-americanas: a conexão entre as mobilizações contra as novas formas de guerra, uma verdadeira pedagogia da crueldade1 exercida sobre o corpo das mulheres, e a denúncia da trama econômica da violência patriarcal.

Não é possível compreender a “máquina feminicida” sem construir um diagnóstico complexo da violência, ou seja, sem levar em consideração a conexão entre os feminicídios, a violência doméstica, a violência racista, institucional, colonial e econômica. Da mesma forma, esse diagnóstico da violência/roubo/estupro2 sistêmica não pode prescindir de uma análise da conexão entre as diversas formas de exploração e violência sobre o corpo-território, com as diferentes faces da precariedade, do endividamento, da extração de matérias-primas e do extrativismo financeiro: todas essas formas de exploração alimentam a máquina de valorização capitalista.

O uso de uma ferramenta como a greve permitiu revelar a trama econômica da violência patriarcal e sua relação constitutiva com a violência policial, racial e colonial. Na perspectiva feminista, a greve é retirada da história política, neutra e desfeminizada do movimento operário, e do uso exclusivo e negociado dos sindicatos. A greve feminista internacional pensa esses dois momentos, sindical e político, juntos; de acordo com esse movimento de “ação mútua”, no qual Rosa Luxemburgo insistiu. Longe de ser uma luta setorial, a greve feminista internacional é uma greve geral que atinge de forma transversal todas as figuras do trabalho, incluindo aquelas que são erroneamente consideradas como do não trabalho (o que na América Latina é chamado de “economias informais”). Uma greve, portanto, enquanto um processo que visa recompor essa multidão de trabalhadoras e trabalhadores, quebrar o corporativismo, a fragmentação e o isolamento. É uma greve não apenas do trabalho produtivo, mas também do trabalho reprodutivo; uma greve que clama pela socialização desse trabalho através da redefinição do Estado de bem-estar social e que, ao mesmo tempo, luta por formas alternativas e autônomas de infraestruturas sociais, reivindicando rendimentos incondicionais, como afirma Gago:

Diante das tentativas de confinar o feminismo (a um setor particular, uma reivindicação específica ou uma política minoritária), a demonstração de que a greve é geral porque é feminista é ao mesmo tempo uma vitória e uma reivindicação histórica. É uma vitória porque afirma: se nós paramos, o mundo para. Trata-se, afinal, de provar que não há produção sem reprodução. E é uma reivindicação em relação a essas greves, em que o geral significava um ponto de vista parcial do domínio do trabalho assalariado, masculino, sindicalizado e nacional, que excluía sistematicamente o trabalho não reconhecido pelo salário e sua ordem patriarcal.3

A greve feminista, explica Gago, vira assim uma ferramenta de pesquisa, ao mesmo tempo que bloqueia, desafia e recusa; recoloca em questão o próprio conceito de trabalho. Essa problematização e reconfiguração do que entendemos por “trabalho” produz efeitos políticos maiores: a recusa da equivalência, a rejeição da identificação entre trabalho e salário (o papel político do salário), a fim de tornar visíveis as heterogeneidades e a multiplicidade das formas de trabalho reprodutivo, migrante, precário, não assalariado, não reconhecido e não remunerado.

O que está em jogo é outra ideia de produtividade: ser produtivo não passa apenas pelo fato de ser explorado na forma de um salário. O raciocínio é mais ou menos assim: a forma de exploração organizada pelo salário só serve para tornar invisíveis, disciplinar e hierarquizar outras formas de exploração, especialmente o que Gago chama de “diferencial de exploração” do trabalho das mulheres e dos corpos feminizados. A invisibilização desse diferencial de exploração, que inclui todas essas atividades não reconhecidas ou desconhecidas, muito mal remuneradas, estrategicamente consideradas improdutivas, que caracterizam a grande fábrica da reprodução social, é de fato a chave do curso e do dis-curso capitalista.

Ao mesmo tempo, a reconfiguração do significado do trabalho produz uma redefinição do próprio conceito de classe (nomeadamente, a sua unidade e homogeneidade), colocando em primeiro plano o caráter agora multitudinário que ultrapassa o que se denomina “classe operária”, ou seja, fazendo da classe uma dimensão que não pode mais ser separada da dimensão colonial e racial.

Não se trata apenas de tornar visível o fato de que a reprodução é a condição de possibilidade da produção, ou mesmo que ela se funde e se confunde hoje com a própria produção, é também uma questão — por meio de um gesto de suspensão — de marcar uma recusa dos papéis e normas que sempre aprisionaram as mulheres em estereótipos patriarcais (o que Gago chama de “mandatos”: maternidade, família heterossexual, gratuidade das tarefas reprodutivas). A greve feminista, não sendo corporativa nem sindical, é também definida por Gago como existencial, uma interrupção de todas as relações que nos constrangem e nos assujeitam. Não se trata apenas de fazer greve ao trabalho, mas também de fazer greve dos papéis e normas de gênero.4

Se a greve como dispositivo organizacional propõe uma redefinição e uma reconceituação das categorias de trabalho e de classe, é como método cartográfico que ela politiza a violência, tornando os feminicídios o ponto de intersecção das diversas formas de violência: econômica, racial, colonial, policial, etc.

Baseada no bloqueio e na deserção da cadeia produtiva e reprodutiva, a greve revela a composição heterogênea do trabalho feminino, as diversas formas de ocupação precária, atípica, doméstica e migrante que não podem e não devem ser identificadas como simples suportes ou apoios ao trabalho assalariado, mas que devem ser reconhecidas como elementos-chave dos novos modelos de exploração e extração de valor. A greve feminista, além de reivindicar o direito ao reconhecimento das formas de trabalho tradicionalmente invisíveis, também revelou os limites da greve “sindical”, visibilizando todas as mulheres que gostariam de fazer greve, mas não podem. Como fazer greve quando se é chantageada por um trabalho precário, um visto de residência, um trabalho invisível? Se considerarmos que as mulheres racizadas, imigrantes e migrantes são “aquelas que ajudam outras mulheres a desfazer os gêneros, substituindo-as no lar, permitindo que as mulheres nacionais se tornem trabalhadoras no mercado de trabalho produtivo”,5 como a ferramenta da greve pode ser ressignificada e tornada mais inclusiva?

A greve, ao se infiltrar em todas as atividades não reconhecidas como trabalho, amplifica o campo social no qual se desenvolve. Através da interrupção e do bloqueio, nos subtraímos do mecanismo no qual o emprego é uma das múltiplas engrenagens que compõem a divisão sexual e racial do trabalho, ao mesmo tempo em que desmascaramos as divisões existentes entre trabalho produtivo e “não trabalho” reprodutivo.

Chamamos, portanto, à suspensão de toda atividade produtiva, mas também ao abandono dos papéis e dos gestos que sempre submeteram as mulheres a estereótipos e ao adestramento patriarcal, conectando as violências domésticas às violências sobre o corpo-território, lugar das novas formas de exploração e expropriação. A greve feminista não apela à inclusão nas regras atuais do mercado de trabalho: não se trata de sair da margem para entrar na normalidade capitalista do trabalho. Nesse sentido, a greve testa modos de subjetivação política e subverte as normas de gênero, os papéis sociais impostos e as relações de poder que estão na origem de toda a violência.

Uma greve feminista e transfeminista desenvolve assim um novo internacionalismo que se constrói a partir de “abaixo à esquerda” (abajo a la izquierda, segundo a fórmula zapatista). O fio condutor é o de uma utopia imanente, de um feminismo resolutamente radical, revolucionário e anticapitalista que se dá como objetivo e condição da luta o que é mais fundamental: reinventar a vida e mudar as relações sociais de reprodução.

Uma revolução ao mesmo tempo libidinal e econômica. Uma revolução permanente que significa reinventar a própria vida, pois os desejos e os afetos são sempre políticos. Uma política do desejo como potencial revolucionário, um desejo coletivo que se torna um poder destituinte no quente outono chileno de 2019, quando o movimento feminista está na vanguarda das revoltas que tremulam o país em protesto contra o governo reacionário de Sebastián Piñera. Uma ação política em particular deu a volta ao mundo e continua sendo um hino memorável contra a violência patriarcal: a mobilização relâmpago do coletivo Las Tesis, Un violador en tu camino; a transposição de algumas teses de Silvia Federici e Rita Segato em uma performance que visibiliza a violência do sistema patriarcal, que sempre reduziu as mulheres a objetos passivos que não têm um corpo, mas são um corpo.

Poucos dias após a primeira performance chilena, em dezenas de praças em todo o mundo, milhares de mulheres, com os olhos vendados, os dedos apontados e os pés no chão, cantaram em uníssono uma verdade simples, mas oculta: a violência é sistêmica. Ela é consubstancial à ordem política patriarcal em que vivemos desde que viemos ao mundo e que sempre foi considerada “normal”. No mesmo momento em que as ativistas chilenas cantavam o hino feminista com os olhos vendados, em um palácio em Santiago do Chile aparecia um enorme mural com os dizeres “No volveremos a la normalidad porque la normalidad era el problema” [não voltaremos à normalidade porque a normalidade era o problema].É impossível não pensar nas palavras de Walter Benjamin, mais atuais do que nunca:

É preciso basear o conceito de progresso na ideia de catástrofe. Que “as coisas continuem como antes”: eis a catástrofe. Ela não reside no que vai acontecer, mas no que, em cada situação, é dado.6

As novas ondas de mobilização do feminismo atual que vêm da América Latina, para permanecer na linguagem benjaminiana, estão conscientes do perigo supremo do “progresso” encarnado pelo sistema neoliberal e estão captando uma oportunidade revolucionária traçando um caminho de coalizão e aliança com os movimentos antirracistas, as lutas ecológicas e o ativismo pelos direitos dos migrantes e da classe trabalhadora, mas também conectando-se com toda uma história de sabotagens, rebeliões e insurreições.

Trata-se, também, de criar sobre a greve uma narrativa que, por um lado, mergulhe na memória do passado e, por outro, leve em conta o significado do processo-ação. Portanto, analisar o percurso que conduziu à greve feminista significa também levar em conta toda uma genealogia de lutas que nos precederam. Lutas cujas reivindicações, embora convergentes no momento da greve, não pertencem apenas ao aqui e agora, mas às temporalidades passadas cuja memória é preciso reviver.

Assim, a greve feminista internacional segue os passos traçados pelas palavras de Angela Davis, na Women’s March, de 21 de janeiro de 2016. Em seu discurso, Davis convida a fazer da luta feminista a luta coletiva de todos os outros movimentos e levantes que lutam contra o inimigo comum, o sistema capitalista: lutas contra a expropriação neocolonialista dos corpos-territórios, lutas para garantir o acesso à água e aos bens comuns, lutas por um salário mínimo de 15 dólares e contra a violência do sistema prisional. O apelo a um feminismo inclusivo, transversal e radical remete à sua vocação internacionalista enraizada na história dos movimentos feministas revolucionários e ressalta a importância de criar um entrelaçamento de palavras, de imagens e de ações que permita colocar em diálogo o passado e o futuro, o caráter político e poético das revoltas. Trata-se de reverter a ordem discursiva dominante, mostrando a relação que liga o dispositivo feminicida à violência econômica do norte ao sul do mundo, sintetizada pelo slogan: “If my life is worthless, produce without me” [se minha vida não vale nada, produzam sem mim]. A própria escolha da palavra “greve” tornou evidente que se trata de um novo movimento feminista que, ao se apropriar de uma ferramenta histórica da luta de classes, recusa a tentativa de limitar o feminismo a questões de “igualdade de oportunidades” e decide apontar um aspecto fundamental que diz respeito à vida da maioria das mulheres, mas também dos homens: as dramáticas formas de exploração e expropriação do trabalho na atualidade.

Reativar o imaginário combatente que nos precedeu significa também instaurar uma nova poética da libertação com a qual se possa criar formas de conexão e diálogo entre o Norte e o Sul do mundo. O percurso que conduziu à greve condensa a história e o legado do feminismo negro (pensamos, nomeadamente, na gênese do manifesto programático do Combahee River Collective),7 bem como uma história comum de lutas, uma gramática dos feminismos rebeldes e insurrecionais.

Como conservar essa energia das forças subversivas em um tempo, o nosso, constantemente ameaçado pelas devastações do neoliberalismo? Como fazer com que essas conexões não se reduzam a uma síntese hegeliana que aplana as diferenças, e nos indiquem, em vez disso, novas possibilidades de luta a serem empreendidas?

Como se reapropriar, em seu potencial anticapitalista, da palavra de ordem que foi forjada para descrever a simultaneidade das relações de opressão no seio dos sistemas de poder, ou seja, o interlocking of oppressions, mais tarde traduzido por interseccionalidade, para permitir assim o seu uso político?

O que nos interessa é analisar, de um ponto de vista filosófico, a tradução política de um conceito quando ele se desloca. Os movimentos feministas latino-americanos redefiniram o próprio significado da interseccionalidade para nomear a multiplicidade das experiências de opressão e de exploração (sobre as bases da orientação sexual, da raça, da classe e do gênero, consideradas categorias “naturais”, embora sejam construídas e, portanto, históricas) e, ao mesmo tempo, para indicar uma possível convergência dessas experiências. Trata-se do que Angela Davis chama de interseccionalidade das lutas, em vez da interseccionalidade das identidades.

Dito isto, consideremos a relação entre exploração e opressão para compreender melhor o alcance da greve feminista internacional. Embora não coincidam necessariamente, a exploração e a opressão são originárias uma da outra. A opressão determina a exploração, enquanto esta última abre novas perspectivas sobre a materialidade da opressão. Em outras palavras, a opressão sem referência à exploração torna-se uma questão puramente cultural ou ideológica, cuja base não pode ser estabelecida. É essa a razão da escolha do conceito de patriarcado capitalista (mas também colonial e racista) para designar o sistema que mantém a exploração e a opressão das mulheres. De fato, o próprio conceito de patriarcado foi atualizado pelo movimento feminista, por conta da necessidade de um termo para expressar a totalidade das relações de opressão e exploração que afetam as mulheres, bem como seu caráter sistêmico. Além disso, ao enfatizar a dimensão histórica e social da exploração e da opressão das mulheres, o termo “patriarcado” é menos aberto a interpretações biológicas, ao contrário, por exemplo, do conceito de dominação masculina. O conceito de patriarcado capitalista também permite relacionar as lutas atuais às lutas passadas e, portanto, pode permitir esperar um futuro em que o patriarcado chegará ao fim. O raciocínio é o seguinte: enquanto o conceito de patriarcado demonstra a profundidade histórica da exploração e da opressão das mulheres, o capitalismo e a divisão internacional do trabalho não podem funcionar sem o patriarcado, pois o processo interminável de acumulação de capital se baseia na exploração do trabalho gratuito das mulheres. Assim, o que se complexifica é o próprio conceito de classe. Se considerarmos a classe do ponto de vista da diferença, é interessante notar que sua unidade não pode ser dada como certa. Trata-se de trabalhar para que ela possa se construir politicamente, em um processo que necessariamente faz da luta contra o racismo e o sexismo momentos constitutivos e não subordinados da luta de classes.

É necessário, portanto, evitar, por um lado, a armadilha de uma política identitária auto-referencial e, por outro, o engodo de um universalismo abstrato que considera a solidariedade como uma espécie de equivalente universal baseado na ideia de uma comensurabilidade substancial entre as diversas formas de exploração, expropriação e opressão. É, antes, ao centrar-se nas relações entre elas que se torna possível uma solidariedade capaz de valorizar materialmente as diferenças e de abrir espaços de convergências, alianças e coalizões. Trata-se de uma construção sempre aberta e, por isso, mais potente.

Se considerarmos as estratégias através das quais o capitalismo enfraquece e isola as lutas e as reivindicações sociais e políticas, uma reflexão sobre os meios para fortalecer o tecido de alianças e lutas transnacionais torna-se ainda mais indispensável. Ora, é precisamente isso que nos interessa nas lutas feministas latino-americanas, elas permitem realizar exercícios de tradução política em outros contextos.

1

Rita Segato, Contra-pedagogías de la crueldad, Buenos Aires, Prometeo Libros, 2018. Segato denomina “pedagogia da crueldade” todos os atos e práticas que ensinam, habituam e programam os sujeitos para transformar o vivente e sua vitalidade em objeto. Nesse sentido, essas pedagogias ensinam algo que vai muito além do ato de matar: ensinam a como matar a partir de uma morte perturbadora. O tráfico e a exploração sexual praticados atualmente são os exemplos mais gritantes e, ao mesmo tempo, as alegorias do que ela entende por pedagogia da crueldade. Segundo Segato, a agressão e a exploração sexual das mulheres são atos de pilhagem e de consumo do corpo que constituem a linguagem mais precisa com a qual se expressa a reificação da vida. A repetição da violência produz um efeito de normalização de uma paisagem de crueldade. Os corpos das mulheres se tornam objetos, disponíveis e descartáveis, pois a organização corporativa da masculinidade conduz os homens à obediência incondicional aos seus pares. Nesse sentido, é muito importante não “guetizar” a questão de gênero. Isso significa não considerá-la exclusivamente como uma questão de relações entre homens e mulheres, mas como a maneira pela qual essas relações se produzem no contexto histórico. Hoje é impossível tratar o problema da violência sexista e dos feminicídios como se se tratasse de uma questão distinta da violência institucional. Em outra obra, Las estructuras elementales de la violência. Ensayos sobre género entre la antropología, el psicoanálisis y los derechos humanos (Universidad nacional de Quilmes Editorial, 2003. Ed. bras.: SEGATO, R As estruturas elementares da violência. Rio de Janeiro: Bazar do Tempo, 2025), Segato analisa como o agressor exige desse corpo subordinado um tributo para construir sua masculinidade; em outros termos, ele prova sua potência na capacidade de extorquir e usurpar a autonomia do corpo subordinado. O status masculino depende da capacidade de manifestar esse poder, em que masculinidade e poder são sinônimos. Misturados, intercambiáveis, contaminando-se mutuamente, os tipos de poder que Segato identifica são seis: sexual, guerreiro, político, econômico, intelectual e moral — sendo este último o do juiz, do legislador e também do estuprador. Esses poderes devem ser construídos, expostos, espetaculares e, além disso, alimentados por um tributo, ou seja, pelo corpo da mulher, sob a forma de medo feminino, de obediência feminina. Existe aqui uma economia simbólica que se reproduz cotidianamente. Segundo Segato, as primeiras vítimas do mandato da masculinidade são os próprios homens; a partir daí, a violência contra as mulheres decorre da violência entre homens, das formas de coerção que sofrem, para evitar perder seu título de participação no status masculino, confundido com a própria participação no status da humanidade — da lealdade à empresa, ao seu mandato, à sua estrutura hierárquica, ao seu repertório de reivindicações e à emulação de um modelo masculino encarnado por seus membros paradigmáticos. Isso leva à ideia de que os homens deveriam se lançar em lutas contra o patriarcado, mas que deveriam fazê-lo não por nós e para nos proteger de sofrimentos que a violência sexista nos inflige, mas por eles mesmos, para se libertar do mandato da masculinidade. Como acabar com essa guerra? Somente desmantelando o mandato da masculinidade, o que significa desmantelar o mandato da dominação.

2

Mara Montanaro opera um jogo com o termo francês vol e viol e a própria noção de violência implicada nestes atos. Portanto, se vol significa roubo e viol estupro, Montanaro utiliza uma dupla acepção dos dois termos que, por fim, acaba por denotar também a violência inerente a esses atos, sendo assim: v(i)ol.[Nota da tradutora.]

3

GAGO, Verónica. La puissance féministe, op. cit.

4

Este tipo de greve, que interrompe o sistema de regras, normas e papéis a que todos e todas estamos sujeitos, é definido pela artista coletiva Claire Fontaine como uma “greve humana”, pois é mais radical do que a greve geral e visa a transformação radical das relações sociais que estão na base de toda relação de dominação. Claire Fontaine descreve o movimento de revolta contra toda opressão, uma greve que responde à pergunta: “Como nos tornamos outros do que somos?” Se as greves são feitas para melhorar aspectos específicos das condições de trabalho, elas continuam sendo um meio para atingir um fim. Segundo Claire Fontaine, a greve humana é um meio puro, uma forma de criar um presente imediato. A economia libidinal, o tecido de desejos oculto pela economia política, é a verdadeira textura dessa greve. A greve humana é, então, uma forma de luta que revela a economia libidinal que anima nossas vidas. Ela é igualmente um método de luta que visa escapar a todo cálculo estratégico. A força-revolta, tal como a força-amor, são energias que necessitam de condições coletivas. A greve humana pode ser considerada uma tentativa extrema de retomar a posse da força-revolta, da força-amor, da força-vida (ler Claire Fontaine, La grève humaine, op. cit.).

5

FARRIS, Sara, In The Name of Women’s Rights. The Rise of Femonationalism. Durham, Duke University Press, 2017.

6

BENJAMIN, Walter. Paris, capitale du XIXe siècle. Le livre des passages. Paris, Éditions du Cerf, 2009 (ed. bras.: BENJAMIN, W. Paris, a Capital do Século xix e Outros Escritos Sobre Cidades. Porto Alegre: L&PM, 2022).

7

Ler “The Combahee River Collective Statement”, amplamente divulgado na internet.

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