Quando éramos pequenxs, a professora entrava na sala com um sorriso e escrevia no quadro: “Composição: O que é uma casa?”. Nós pegávamos no caderno, tentando encontrar uma resposta simples para uma pergunta que, sem sabermos, era enorme.
Uma casa é algo que se sente mais do que se explica.
Hoje em dia, a a professora entra na sala, sem sorriso na cara, e escreve no quadro: “Composição: O que é um despejo? O que significa um aumento de renda que a gente não pode pagar?”
Um despejo é uma tragédia que se sente mais do que se explica.
Destas tragédias são cheias as nossas vidas, são repletas as nossas cidades. São tragédias que se desenrolam no silêncio, na indiferença generalizada, na normalização da crise habitacional, na retórica do «se queres uma casa, vai trabalhar».
A coisa mais divertida é que a gente trabalha. Trabalhamos, matamo-nos de trabalhar para pagar a renda. Às vezes, há quem chegue mesmo a matar-se por não conseguir pagar a renda, apesar de uma vida inteira de trabalho.
Os suicídios relacionados com a perda da casa não são uma raridade, mas raramente chegam a ser notícia nos jornais.
Na passada sexta feira, a crise habitacional fez mais dois mortos em Portugal. Para além de um suicídio (um tema sobre o qual a sociedade não fala), houve também um homicídio, pelo que o facto virou notícia:
“Luciano Gomes, de 61 anos, era natural de Leiria e vivia na Marinha Grande. Suicidou-se após matar à facada o senhorio que lhe queria aumentar a renda.”
Uma renda que, de um dia para o outro, passa de 500 para 1000 euros, um inquilino que não consegue pagar o aumento e vê a sua vida desmoronar-se, um senhorio que ameaça o despejo e que quer recuperar as chaves da casa, duas mortes.
Tirando o final, é uma história que já ouvimos centenas de vezes. A parte final é a tragédia consumada, todo o resto é a tragédia invisível que se repete exatamente igual, todos os dias, ao nosso redor.
Aqui vão uma série de comentários à notícia que encontramos ao navegar na net:
“Era um homem muito trabalhador e calmo. Até custa a crer o que lhe passou pela cabeça. Sempre o conheci a trabalhar”
“Estou sem palavras!! Os meus sentidos pêsames á família que descanses em paz Luciano.”
“Os proprietários das casas estão muito oportunistas, digo eu.”
“Apesar de não concordar com o que fez, os senhorios andam com uma ganância pelo dinheiro que nem é bom. Onde vamos nós parar?!como é que uma família consegue pagar rendas de 900€? O desespero é tanto que dá nisto. E os senhorios nem podem chegar e aumentar pelo valor que lhes apetecem, há limites!”
“de 500 para mil, foi a morte fulminante do Senhorio.”
“Senhorios tenham cuidado! A morte pode surgir de qualquer lado!”
“Lamento este desfecho”
“Sentimentos às famílias e amigos”
“Tenho pena do inquilino a culpa é do estado, as pessoas tão desesperadas”
Não faremos mais comentários nem sobre a notícia em si, nem sobre os comentários a ela relativos. É necessário continuar a dar visibilidade às tragédias invisíveis, para que não se transformem em tragédias consumadas.
Convencidos de que era um jogo
Ao qual jogaríamos pouco
Podem até julgar-se absolvidos
Estão, ainda assim, todxs envolvidos.
16 ABR| QUI | 19H30 - 23H | Noite Climaximo sobre Anti-militarização| Conversa
Entrada livre | Há jantar! 3* prato vege
Não há capitalismo sem guerra, não há guerra sem combustíveis fósseis e não há combustíveis fósseis sem guerra.
Depois de 2 anos e tanto da transmissão em direto do genocídio atroz dos palestinianos em Gaza, patrocinado pelo império fóssil, sabemos que a barbárie não conhecerá limites.
A escalada das agressões imperialistas para produzir mais combustíveis fósseis aceleram a humanidade em direção ao colapso climático e social.
Guerra no Irão, bloqueio económico em Cuba, agressão à Venezuela...Os Estados Unidos são o epicentro deste imperialismo, a extensão política e o braço armado da indústria fóssil.
Na Europa, e enquanto a classe trabalhadora sofre as consequências da crise climática, da crise da habitação, do aumento dos preços, e da privatização dos serviços públicos, os países aumentam as despesas na indústria da “defesa” e empresas bélicas enchem os bolsos à custa do sangue derramado no Sul Global.
Face a esta barbárie, o que podemos nós – pessoas comuns – fazer?
Junta-te a nós para uma conversa que irá contar com:
• Catarina Bio do movimento estudantil Fim ao Fóssil
• Ivan Coimbra, pan-africanista do movimento Vida Justa
• Lipa, membro de Raiz Internacional e delegada do Congreso de los Pueblos (Colômbia) no Nuestra América Convoy a Cuba (presença virtual)
17 ABR | SEX | 19H30 - 23H | Benefit Sexfem | performance + dj
Contribuição 3* | Há jantar, 3* prato veggie e vegan
O SexFem é uma laboratoria feminista auto-gerida e gratuita, um espaço flinta* de cuidado e exploração para reapropriarmos e resignificar os nossos corpos, linguagens, relações e sexualidades.
A roda convida para uma noite flinta* e aqui vai o menu da soirée:
- jantar delicioso com opção vegan!
- Performance 'Sobramedo'
Na penumbra de uma cave, uma mesa é posta com a prata da casa: imitação de cristal, porcelana velha e vidro avermelhado.
Há jantar? Sobre os pratos, pequenos frascos contêm um líquido vermelho.
Duas pessoas brancas e andrógenas sentam-se às cabeceiras. Frente a frente. Olham-se. Brindam.
Pouco a pouco, o odor vindo de dois pequenos frascos ocupa o espaço e o tempo. Transforma-os. Mergulhemos no feitiço.
__Com dj minimix para aquecer ideias e mexer corpas.
Venham conhecer e apoiar a roda, convidem amigues e passem à palavra 🪽🦠🍂🫗
*acrónimo alemão que significa mulheres, lésbicas, pessoas intersexo, não binárias, transgénero, agénero e todas as outras identidades queer.
»» 18 ABR | Cantina Popular com a Ram, Quinta do Ferro, 13h
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