A Anatel oficializou, em 13 de julho, a dinâmica de ocupação da faixa de 250 MHz a 322 MHz pela radiodifusão, destinada à implementação da TV 3.0. As mudanças foram aprovadas pelo Conselho Diretor no início de julho por meio do Regulamento sobre Canalização e Condições de Uso de Radiofrequências para os Serviços de Radiodifusão e seus Ancilares (RCC-SRA), e a Resolução nº 789, de 6 de julho de 2026, foi publicada no Diário Oficial da União. A ocupação da faixa é considerada certa, mas a entrada nos primeiros 18 MHz (250-268 MHz) ficará para o final em determinados estados.
O debate público sobre a TV 3.0 tem se concentrado em codecs, interatividade, HDR e plataformas de serviços públicos — o “front-end” da nova geração. Esta decisão expõe o back-end regulatório: sem faixa limpa, não há TV 3.0, e a faixa não está limpa. O escalonamento revela que a Anatel optou por não impor a saída de incumbentes, transferindo o custo do atraso para a radiodifusão.
Na prática, isso significa menos canais disponíveis nas fases iniciais, justamente nos mercados regionais relevantes. O cronograma cria, involuntariamente, uma geografia desigual da TV 3.0, o que merece acompanhamento, pois a promessa de universalização da nova geração é parte central de sua legitimação política.
Enquanto isso, no setor privado dos conglomerados de mídia, já estamos acompanhando a mudança, como a SKY+ lançando quadros interativos (veja mais abaixo nesta mesma edição) e plataformas de streaming se espelhando no modelo televisivo para sobreviver, algo que será insustentável manter apenas pela internet, o que força parcerias com emissoras de TV.
No artigo desta semana do Simplificando Cinema, Marina Rodrigues fala um pouco mais sobre o processo de plataformização da televisão, um barco-salva-vidas para o streaming e para as transmissões via internet.
O Simplificando Cinema é um projeto voluntário dedicado a análises e notícias sobre política e mercado audiovisual. Nosso trabalho consiste na pesquisa de matérias atualizadas e de estudos acadêmicos sobre as políticas públicas que permeiam o setor no Brasil e no restante da América Latina. Se você acha que vale a pena apoiar a continuidade deste projeto, pode se tornar assinante por R$ 5 e ajudar a manter a publicação de um artigo semanal + newsletter aos sábados e a voltar para outras mídias, como o Spotify.
Quem é vivo sempre aparece, não é isso que diz o ditado? Pois a TV anda mais viva do que nunca, já que até a empresa que surgiu prometendo solapar o segundo modelo de negócios mais antigo da indústria audiovisual estuda lançar um canal de transmissão 24/7, ao menos é isso que diz o The Wall Street Journal.
Diante dos problemas de retenção de assinantes decorrentes da demora no lançamento das temporadas de suas séries, a Netflix estuda o lançamento de uma transmissão perene para que os assinantes continuem ligados à sua plataforma, semelhante ao modelo de TV online baseada em publicidade, como fazem a Pluto TV e o Tubi.
Para além disso, a empresa também estuda agregar outros serviços de streaming a esses canais lineares, oferecendo algo semelhante ao que o Prime Video já faz com seu segmento Channels, o que é mais uma evidência de que o streaming se movimenta cada vez mais em direção ao modelo de negócios da TV fechada.
Outra empresa que atua no streaming e estuda uma nova forma de atrair audiência é a Disney. A empresa vem pensando em criar um plano gratuito, baseado em publicidade, com acesso limitado ao catálogo do Disney+. As fontes apontaram que esse movimento seria uma estratégia para brigar com o YouTube, uma das plataformas de streaming mais famosas do mundo.
Enquanto isso, desde o final de junho, ficou mais caro assinar o Disney+ aqui no Brasil, que se tornou o serviço de streaming mais caro do país; o aumento também vale para o pagamento de membros extras, já que o compartilhamento de senhas chegou ao fim no ano passado.
Quem gosta de acompanhar as transmissões esportivas da ESPN agora terá que desembolsar R$ 70, quase o dobro do valor de cinco anos atrás, quando o serviço de streaming Star+, também da Disney, dava acesso a um catálogo de séries, filmes e todas as transmissões esportivas da ESPN. Se em apenas cinco anos o preço dobrou, quanto as assinaturas custarão daqui a dez anos? Até onde estamos cientes, a discussão no entorno da regulamentação do streaming anda mais parada que um desfile de estátuas, e segundo políticos da extrema direita brasileira, liberais limpinhos e patetas do Comando Maluco da internet, a regulamentação do streaming com seus pífios 4% de cobrança de Condecine, com 60% retornando para as próprias plataformas de streaming investirem nelas mesmas, seria a responsável pelo aumento dos serviços do streaming, afirmando até mesmo que a aprovação do projeto seria responsável pela saída de vários deles do país, como se a Netflix fosse perder um mercado com 25 milhões de assinantes ativos por mês por conta de míseros 1,6% de Condecine.
Enquanto isso, vemos o streaming miar como um gato, andar como um gato, pular como um gato, dormir como um gato, mas continuar a dizer que é um cachorro só para não ter que arcar com as obrigações regulamentares de ser um gato. (No TechCrunch)
A Sky+ integrou às transmissões de futebol um painel estatístico com dados detalhados da partida, acrescentando à audiência uma opção de análise do jogo baseada em estatísticas.
Ao apertar um botão do controle, o telespectador tem acesso ao placar, à escalação dos times e às estatísticas do jogo, tudo isso sem interromper a transmissão por meio de um microapp nativo no streaming.
A opção está disponível no Brasil e em outros países da América do Sul onde a empresa que controla a Sky, o Grupo Waiken ILW, atua com o serviço de streaming DirecTV Go (Argentina, Colômbia, Equador, Peru e Uruguai).
A empresa também destacou que essa opção abre espaço para a criação de uma nova categoria publicitária esportiva, e sabemos bem que, nos últimos anos, a publicidade é algo que o streaming incorporou ao seu modelo de negócios. (No TelaViva)
A representação do trabalho doméstico no cinema latino-americano
Ontem tivemos a segunda sessão de abertura do Cineclube Cine Estreia, o projeto cineclubista do CineLivre que tem como objetivo trazer filmes independentes nacionais e de outros países da América Latina que, embora lançados no circuito comercial, não chegam a Florianópolis e região. O projeto visa mitigar esse problema. Ontem exibimos o documentário “Aqui Não Entra Luz”, de Karol Maia (2026), no Cinema do CIC, marcando a estreia do filme em Florianópolis.
É uma obra relevante, que desperta debates importantes por meio de histórias de vida que atravessam a realidade de milhões de brasileiros. O filme analisa as origens do quarto de empregada e o quanto ele ainda está presente nas plantas baixas de muitas residências do país. Karol Maia é filha de uma ex-trabalhadora doméstica, e essa visão — esse lugar de fala — traz intimidade à relação com as trabalhadoras entrevistadas, que expõem memórias dolorosas e traumáticas. Vamos torcer para que o filme chegue ao streaming em breve.
Temos muitos filmes que abordam o trabalho doméstico, mas o longa de Karol Maia se destaca entre todos. Podemos dizer que, tratando-se de um documentário de longa-metragem, ele já é uma referência.
Por outro lado, temos produções que despertam críticas, principalmente pela forma como a trabalhadora doméstica é representada: como uma pessoa “quase da família”, em que não há, em momento algum, emancipação ou a devida importância à dignidade da trabalhadora. É o caso do premiado longa-metragem mexicano “Roma” (2018), de Alfonso Cuarón. Com base em suas memórias de infância, o filme traz como protagonista a empregada doméstica de sua família, que está sempre presente quando mais precisam, normalizando a falta de ascensão social da personagem. O filme está disponível na Netflix.
“La Nana” (2009), do chileno Sebastián Silva, constrói melhor sua personagem principal por meio do foco da história. A trabalhadora doméstica acaba assumindo um papel alienante na dinâmica familiar e vai tomando consciência disso aos poucos, ao descobrir que não viveu a própria vida nem experienciou amores por dedicar-se a uma família que não é sua. O tom sarcástico do filme se justifica justamente por o trabalhador doméstico se sentir “quase da família”. O filme está disponível no Looke.
O longa argentino “Cama Adentro” (2004), dirigido por Jorge Gaggero, utiliza a relação de 30 anos entre a patroa Beba (Norma Aleandro) e a empregada doméstica Dora (Norma Argentina) como um microcosmo para criticar as fraturas sociais, econômicas e humanas da sociedade argentina durante a severa crise de 2001.
É um filme que gera a certeza de que o trabalho doméstico nesses moldes é um serviço degradante e que precisa acabar. Não é possível que alguém não possa limpar a própria privada ou arrumar a própria cama. As pessoas precisam ter acesso a oportunidades e poder escolher seu próprio destino, sem serem induzidas a seguir um único caminho por pertencerem a uma determinada classe social, como se vivêssemos em um regime de castas. O filme está disponível no YouTube.
São obras que nos trazem questionamentos e inquietudes, e que valem a pena assistir para formular a própria crítica.
Essas foram algumas dicas sobre o tema das trabalhadoras domésticas, um assunto que precisa ser discutido, ainda mais aqui no Brasil, com tantos casos de trabalho análogo à escravidão e de sequestro de menores que passam a vida inteira servindo a alguém, vivendo em cativeiro.
Na prática, a Lei Áurea não serviu para nada e continuamos lutando pelo fim da escravização de pessoas.
Um ótimo final de semana e bons filmes a todas, todes e todos.
Por Angelo Corti, idealizador da página Cine Livre Latino-Americano
Em artigo de opinião publicado pelo Tiempo Argentino, o documentarista Adrián Jaime argumenta que o cinema argentino precisa de uma estratégia política articulada para retomar sua capacidade produtiva, diante do que descreve como um desmonte deliberado promovido pelo governo Milei e pela atual presidência do INCAA, ocupada por Carlos Pirovano. Segundo o autor, em dois anos e meio a produção nacional foi obstruída por todos os meios possíveis, gerando desemprego em massa em toda a cadeia técnica e de serviços.
O texto destaca o projeto de lei da deputada nacional Gabriela Pedrali (La Rioja), que propõe restaurar o financiamento histórico do INCAA, com base no diagnóstico de que o consumo audiovisual migrou das salas de cinema para as plataformas digitais. Aplicando o mesmo critério de financiamento já previsto na Ley de Cine, o projeto prevê uma contribuição de 3% sobre a receita bruta arrecadada por plataformas de streaming (OTT/VOD), independentemente da matriz estar ou não no país e da cota de tela nos catálogos.
Além disso, o artigo aponta que 45% dos postos de trabalho do setor cinematográfico argentino são ocupados por mulheres, muito acima da média nacional do emprego privado registrado, de 37% no último trimestre de 2025. Nos cursos superiores da área, mulheres representavam 52,4% das matrículas e 55,3% das concluintes (dados de 2022). O Fundo de Fomento Cinematográfico é apontado como um dos motores dessa evolução.
A segunda edição do Costa Rica Media Market (CRMM) abriu as portas em San José, consolidando-se como o principal mercado audiovisual da América Central e do Caribe. Ao longo de dois dias (14 e 15 de julho), o evento reuniu compradores, produtores, distribuidores e investidores de 20 países, com o objetivo de promover coproduções, exportação de serviços audiovisuais e novas alianças estratégicas.
Entre os participantes estrangeiros estão Michael Woolston (manager de Physical Production do The Walt Disney Studios), Isaac Toussier (VP de Conteúdo e Desenvolvimento da Lemon Studios), Sandino Saravia (diretor executivo da Cimarrón Cine) e Sara Seligman (cofundadora da Broken Pig Productions), além de representantes do Toronto International Film Festival, OTTera, Grupo Mórbido e UTOPIA.
O evento sediou as apresentações dos projetos selecionados pelo Fantastic Lab, iniciativa do Fantastic Pavilion do Marché du Film de Cannes, em parceria com o CRMM, que ofereceu, previamente, mentorias, oficinas e assessorias a 55 projetos de cinema fantástico, de terror e de ficção científica da América Central e do Caribe.
Já o fórum de coprodução Desde el Centro reúne oito projetos centro-americanos e caribenhos, quatro deles com produção costarriquenha, para encontros com produtores, fundos, distribuidores e demais agentes da indústria. (No LatamCinema)
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