Você já parou para pensar quantas mulheres abriram mão dos seus sonhos para atender às expectativas da sociedade e do casamento?
Essa pergunta ficou martelando na minha cabeça depois de ler uma crônica na newsletter da Bárbara Bom Ângelo, que relaciona a personagem Clarissa, de Mrs. Dalloway, de Virginia Woolf, com um momento bem real da vida de muitas de nós: o impacto do casamento e da maternidade na realização pessoal.
Olhei para trás e percebi que, por quase duas décadas, vivi algo parecido. Fui parte daquele grupo de mulheres que segue o roteiro: casar, ter filhos, dedicar-se às prioridades do marido. E, então, um dia, assim como Clarissa Dalloway, a gente se dá conta de que nem sempre esse caminho tem a satisfação que nos prometeram.
Lembro-me, como se fosse hoje, do convite para ser professora-assistente da disciplina Teoria Literária, na Universidade, uma oportunidade de ouro para mim. Mas acabei seguindo o que a sociedade, aquela conservadora e cristã na qual fui adestrada, esperava: a entrega total ao casamento e à família.
A ascensão na carreira foi adiada. Nunca percebi qualquer desconforto ou constrangimento daquele a quem eu amava por eu ter feito a escolha de trancar a faculdade e abandonar um outro curso que fazia na época.
Parecia natural eu me tornar a mulher que meu marido esperava que eu fosse: bela, recatada e do lar. “Gosto de você assim”, ele dizia.
Além de cuidar da casa, que já é uma correria que não se mede, me vi sustentando o lar em muitos sentidos, se é que me entendem. E quando os filhos chegaram, percebi que o tempo para mim mesma e para qualquer projeto pessoal simplesmente desaparecia.
E sabe aquele amor que tudo justifica? Pois é, estive completamente apaixonada e dedicada a um homem que mal comparecia em casa, no sentido material, físico e emocional. Demorou para eu acordar para o fato de que esse padrão não era tão satisfatório quanto pensei que fosse.
Essa experiência passada de abrir mão dos sonhos para atender às expectativas sociais e familiares criou uma base para uma reflexão madura sobre autoconhecimento e reinvenção na minha fase atual da vida.
Hoje, com mais de sessenta anos, com mais vivência, posso olhar para aquele período, não com pesar, mas com compreensão e gratidão pelo aprendizado que ele proporcionou.
A mulher que eu fui, com planos de carreira acadêmica, que abriu mão de uma oportunidade na universidade, só não acabou se anulando porque conseguiu acordar a tempo. Ela refletiu sobre os caminhos não tomados e a perda de sua individualidade e retomou a carreira interrompida.
Quando levei essa reflexão ao meu primeiro romance, fiz minha protagonista inverter o padrão: ela arrisca, prioriza seus projetos, mesmo que isso abale os relacionamentos mais próximos.
Desistir dos sonhos por causa do casamento ou das pressões sociais é uma realidade para muitas mulheres, eu sei. Mas não precisa ser para sempre. O despertar para a própria realização é libertador e, como minha protagonista, toda mulher pode mostrar que há vida e felicidade além do roteiro esperado. E mudar o padrão.
Você já teve uma experiência semelhante?
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Grata por sua leitura e até a próxima!

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