Por Augusto Olivani (Trepanado)
Era 2001 quando descobri um livro chamado “Last Night a DJ Saved My Life”, escrito por Bill Brewster e Frank Broughton. Ele contava a história da dance music através dos DJs que fizeram história, descrevendo o ambiente dos clubs dos quais eles eram residentes.
Entre tantos relatos incríveis, um capítulo me intrigou particularmente: aquele sobre o The Loft, de Nova York. Não era um club per se, mas uma festa, e seu DJ e idealizador, David Mancuso, não mixava os discos, preferindo tocá-los integralmente. Os eventos não eram abertos ao público – você precisava ser amigo do amigo para entrar. Não vendia-se bebida alcoólica. E ainda que entre os frequentadores estivessem dançarinos seríssimos, era um lugar que você podia ir simplesmente pra curtir a música e relaxar, como se fosse um after na casa de alguém (só que o soundsystem era perfeito e as drogas eram boas).
Foram anos rastreando coletâneas, vasculhando fóruns de discussão online em busca de playlists e ouvindo alguns poucos sets gravados ao vivo que ajudassem a entender o fascínio que essa festa tão particular exercia sobre mim e outros. Afinal, como era possível que o The Loft ainda existisse sem que o DJ sequer se preocupasse em mixar? E mais: há um hiato entre uma música e outra, e as pessoas ainda aplaudem a faixa que acabou de tocar! Isso numa sociedade frenética e exigente como a nova-iorquina. Seria um culto? Ou simplesmente reconhecimento pelos bons momentos compartilhados?
Em 2013, na primeira passagem da Selvagem pelos Estados Unidos, surgiu a oportunidade de ir a uma das festas do Loft (mais de 43 anos depois de seu surgimento). Eu tinha um amigo escocês radicado em Nova York que fazia parte da comunidade, o que dava a ele o direito de convidar alguém de fora. Nesta época, os eventos aconteciam no salão de festas do Ukrainian National Home, na 2a Avenida (em cima do restaurante Veselka, pra quem conhece essa parte do East Village). David Mancuso já estava doente, com quase 70 anos, e não tocava mais, tendo passado o bastão para Douglas Sherman, um dos seus primeiros discípulos.
Como o evento ainda era privado, havia uma série de regras a serem respeitadas: a contribuição seria paga integralmente (60 dólares), com o dinheiro colocado dentro de um envelope, na quantia exata (eles não contam dinheiro na porta, nem dão troco). A admissão não era garantida (novatos passariam por um “vibe check” na entrada). Você deve levar a própria bebida (e aditivos, se quiser). Também não é permitido conversar dentro do perímetro formado pelas caixas de som – 8 totens de Klipsch Horns –, apenas fora dele. A pista, afinal, é reservada aos dançarinos.
Passadas as formalidades, encontrei o próprio Mancuso na entrada, que me deu sua “graça” para que eu entrasse (comprei uma camiseta das mãos dele, que hoje me serve de pijama). Lá dentro, ouvi músicas que já conhecia e que soavam completamente novas aos meus ouvidos (como “Where Love Lives (Classic Club Mix)” da Alison Limerick), faixas que nunca imaginei ouvir lá (“Ragysh”, do Todd Terje) e clássicos que soaram imensos naquele sistema de som (o remix de 16 minutos do Joe Claussell pra “Everything In Its Right Place” do Radiohead e “Go Bang!” do Dinosaur L).
Difícil descrever a atmosfera, mas de fato era um ambiente sagrado para os seus frequentadores. O que parecia uma atitude condescendente – as palmas ao fim de cada música – faz todo o sentido naquele contexto, afinal, o ato de não mixar as músicas permite que elas se desenvolvam por completo, como os produtores imaginaram inicialmente. É um ato de profundo respeito, na verdade, em que todos os envolvidos deixam o ego de lado para estarem ali por inteiro.
Vi e conversei com pessoas que frequentavam a festa desde os primórdios, inclusive na fila do buffet da festa (eles servem muita comida nos eventos), que me contaram o tanto que o Loft significava pra eles. Muita gente se voluntaria pra ajudar na montagem e na desmontagem, pelo simples prazer de fazer parte do processo.
Essa experiência ressoa em mim até hoje. O sonho de fazer algo remotamente similar ao The Loft no Brasil permanece vivo, ainda que algumas vivências sejam intraduzíveis para a nossa realidade. Mas a vontade de demonstrar o amor pela música e pelo ato de compartilhá-la é universal, de fato, e sempre temos a chance de render uma homenagem sincera, de coração.
Esse sempre foi um papo comum entre mim e o Rodrigo Facchinetti, DJ e idealizador da Fatchia (o pizza-disco-bar mais legal do Rio). Por isso, decidimos fazer uma festa que evocasse o espírito gigante de David Mancuso e do Loft, com um sistema de som único – as caixas Klipsch do Facchi com o suporte do Core Soundsystem, passando pelo clássico mixer rotary Bozak – e tocando só vinil, com músicas que façam parte da história do Loft ou inspiradas por ele, em um ambiente familiar (no caso, o Cais da Imperatriz).
Pode até ser que a gente nem mixe algumas músicas. Mas não esperamos aplausos por isso.
Enquanto sábado não chega, compartilho um dos meus sets gravados in loco favoritos: David Mancuso Live@The Loft NY 2005.
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