por Daniel Ramos
Desde a minha adolescência fui chamado de festeiro ou clubber ou outro qualquer outro sinônimo para quem gosta muito de sair, curtir a noite prioritariamente para ouvir música e dançar. E, naturalmente, a minha, ou talvez a nossa cabeça automaticamente se volta para ele, o DJ.
Ou mesmo para o formato de festa onde chegamos para beber e dançar olhando para uma pessoa na frente de dois toca-discos, ou CDJs, e está feita a mágica. É hora de viver.
Mas você já parou pra se perguntar como eram as festas antes da existência do DJ? Ou mesmo do sound system?
Afinal de contas, o que é Sound System?
Na tradução literal, é um sistema de som. Sim, é isso. Mas no final dos anos 40, uma ilha situada no Caribe deu uma nova conotação a essa palavra. A Jamaica ainda era uma colônia britânica (sua independência remonta a 1962), e nessa época, só a elite branca ou de pele clara tinha acesso aos clubes onde as festas aconteciam. Para o restante da população, as opções eram limitadas a apresentações de bandas ou o consumo passivo de ídolos estrangeiros. Lembra da pergunta: como eram as festas antes dos sound systems?
Eram mais ou menos assim:
Foi dessa escassez de acesso que nasceu uma ideia que mudou tudo: se o povo não podia entrar nos clubes, a música iria até o povo. Caixas de som foram levadas para os quintais e montadas ali mesmo e a cerveja Red Stripe era aberta. A partir disso, toda uma geração posterior aprendeu a replicar esse formato que foi construído por negros periféricos e pensado para ser barato o suficiente para construir um acesso à diversão.
Não podemos deixar de refletir sobre a sociedade jamaicana no momento em que tudo isso acontecia: muita pobreza, poucas pessoas tinham acesso ao toca-discos ou mesmo ao rádio, em si. Uma realidade um pouco difícil de se imaginar hoje, pela facilidade do acesso às plataformas de streaming, YouTube ou mesmo ao nosso ainda resistente rádio — mas era a realidade local.
A invenção da pista de dança
O sound system mudou o jogo ao estabelecer o que hoje entendemos como a “vibe” de uma festa de música eletrônica. Pela primeira vez, a curadoria de discos (a seleção) tornava-se mais importante do que ter uma banda no palco. O foco saía da performance instrumental e passava para a potência sonora: o som alto, o grave que vibra no peito e a criação de uma pista onde todos se juntavam em sintonia com as batidas.
Os sound systems foram se espalhando pela ilha como uma saída mágica, um túnel da rotina direto ao momento de ser feliz e fazer festa! Ao passo que sua estrutura foi evoluindo, os produtores dos eventos também conhecidos como “Selectas” (que hoje chamamos de DJs) eram os responsáveis por montar os sistemas, pesquisar as músicas que embalariam os quintais de Kingston e garantir um bar para que os frequentadores pudessem molhar a garganta. O dinheiro arrecadado servia para comprar mais discos - muitas vezes em idas furtivas aos “states” - melhorar a estrutura e botar um qualquer no bolso, claro.
Logo vieram os MCs, representantes do “Selecta” que pegavam o microfone e animavam a multidão durante ou entre músicas (que eles chamavam de “Toasting” - acho chique) , e assim, todo um ecossistema se construiu.
Até onde a estrutura periférica chega
Toda essa tecnologia negra e periférica foi se desenvolvendo e se espalhando a passos de chegar ao Bronx (NYC) a partir de nomes como o DJ Kool Herc, que popularizaram o formato de festividade e modelo de festa nas periferias negras de Nova Iorque, sendo de maneira direta influenciadores no nascimento da vinda cultura hip hop.
Mas hoje…
Aportando em 2026, ainda vivemos de maneira intensa o que King Jammy, Henry “Junjo” Lawes, Sister Nancy e Steely & Clevie construíram a partir da escassez e da resistência a uma sociedade segregadora.
Por isso se faz importante rememorar, falar sobre os arquitetos da cultura, não permitir que tais nomes caiam no esquecimento e festejar a existência deles, afinal, se hoje podemos nos reunir em comunidade, nos emocionar com um set de um DJ ou “Selecta” e sentir o grave nos abraçar, é porque eles pavimentaram o caminho.
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