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O Substack do Sasha · Jul 16, 2026

COLÉGIO DE ’,PATAFÍSICA DE PARIS – CAMPUS BRASÍLIA - Carta 1: Suassuna-Science

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Sasha Stemler · O Substack do Sasha

À Magnífica e Eventualmente Imaginária Reitoria do Campus de Paris, por intermédio do Departamento de Design do Instituto de Artes da Universidade de Brasília, que gentilmente cede suas instalações ao nosso respeitável Colégio de ’,Patafísica de Paris – Campus Brasília enquanto sua sede corbusiana-niemeyerística não fica, imaginariamente, pronta junto ao rasgo deixado pela separação dos dois campi durante o evento cataclísmico que deu origem ao Atlântico.

Assunto: Comunicação preliminar acerca da desdescoberta da Partícula Suassuna-Science

Prezados(as) Reitor(es), Reitora(s) e demais entidades administrativas verificáveis ou não,

Encaminhamos este relatório para comunicar uma ocorrência observada nos mangues do Recife, nos sertões da Paraíba e analisada em determinados corredores do Departamento de Design da Universidade de Brasília (DIN/IdA/UnB).

Após décadas de investigação insuficiente e observação inadequada, chegamos à conclusão de que Ariano Suassuna e Chico Science jamais constituíram duas entidades distintas.

A separação entre ambos foi produzida por um erro de medi(a)ção.

Conforme demonstrado pela Mecânica Quântica, certas partículas apresentam comportamento dual. Dependendo do observador, manifestam-se com comportamentos distintos e, muitas vezes, contraditórios. A conhecida dualidade onda-partícula, observada a partir das contribuições de Max Planck, Albert Einstein, Louis de Broglie, Niels Bohr, Werner Heisenberg e outros físicos da primeira metade do século XX, revelou que determinados fenômenos possuem o irritante hábito de resistir às classificações excessivamente rígidas impostas pelos observadores.

Verificou-se agora, após séria revisão pelos ímpares, comportamento semelhante no campo da cultura.

Assim como certas entidades quânticas manifestam-se ora como onda, ora como partícula, alguns fenômenos culturais apresentam-se ora como tradição, ora como vanguarda; ora como rabeca, ora como sampler; ora como cordel, ora como afrociberdelia.

Observações recentes sugerem, entretanto, que tais estados não existem separadamente.

A partícula Suassuna-Science permanece em permanente estado de superposição: quando observada por folcloristas, literatos ou dramaturgos, manifesta-se como Ariano, quando observada por DJs, vídeo-artistas e pixadores, manifesta-se como Chico.

(Quando observada por designers, entra em colapso e começa a produzir diagramas inexplicáveis.)

Inspirados pelo Princípio da Incerteza formulado por Werner Heisenberg para o estudo das partículas subatômicas, observamos que a determinação precisa da posição de Ariano Suassuna no espectro da tradição implica, necessariamente, perda de informação sobre a velocidade de Chico Science rumo ao futuro, e vice-versa.

A descoberta ocorreu durante a análise de um fenômeno registrado em 1997.

Crédito: TV Globo

Documentos históricos afirmam que Ariano Suassuna compareceu ao funeral de Chico Science.

Nossa equipe considera essa hipótese improvável.

A interpretação mais consistente é que ocorreu uma rara oscilação quântica entre dois estados da mesma entidade.

A literatura convencional interpretou o fenômeno como luto.

A ’,Patafísica o reconheceu como uma tentativa da partícula de observar a si própria.

Este relatório propõe ainda a reformulação da conhecida metáfora da antena parabólica fincada no mangue.
Após cuidadosa investigação, concluímos que a antena não estava fincada no mangue; o mangue é que estava conectado à antena.
Da mesma forma, a rabeca armorial não precede a afrociberdelia. A afrociberdelia também não sucede a rabeca. Ambas constituem vibrações simultâneas do mesmo campo cultural.

A tradição não é o oposto da invenção. A tradição é apenas a invenção vista de muito longe. E a invenção é a tradição vista cedo demais.

Solicitamos, portanto, que o Campus de Paris reconheça oficialmente a existência da Partícula Suassuna-Science e autorize a criação de um laboratório experimental destinado à fabricação de instrumentos híbridos, incluindo:

  • rabecas com entrada USB-C para comunicação com controladores MIDI e módulos Bluetooth;

  • folhetos de cordel hospedados em servidores distribuídos por Content Distribution Networks (CDNs);

  • maracatus atômicos de código aberto com controle de versionamento em Git;

  • cavalhadas registradas por drones e transmitidas em lives na Twitch e similares;

  • caranguejos cibernético-deleuziano-rizomáticos;

  • e outros dispositivos cuja utilidade permaneça, adequadamente ao nosso campo, duvidosa.

Encerramos este relatório reafirmando nossa principal conclusão: Ariano Suassuna e Chico Science não eram dois. Eram manifestações distintas da mesma interferência. Onda e partícula produzidas pela mesma pergunta fundamental:

Como continuar sendo nós mesmos enquanto inventamos aquilo que ainda não somos?

O presente documento não pretende responder a essa questão. Pretende apenas piorá-la.

Respeitosamente,
Sasha Stemler

Professor-Mestre-Assistente-Doutorando-Presente
Departamento de Desdescobertas Profundamente Inúteis e Cientificamente Encantadoras
Colégio de ’,Patafísica de Paris – Campus Brasília

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Read the original on sashastemler.substack.com

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