O cappuccino tradicional italiano é uma bebida minimalista, que leva apenas café expresso e leite vaporizado. Não tem chocolate, canela, chantilly nem açúcar. O leite quente, na faixa de 60oC, já realça a doçura natural da lactose, porque a língua sente mais doce quando a bebida está aquecida.
Nos anos 1980 e 1990, impulsionado por grandes redes de cafeterias, o cappuccino se popularizou ao redor do mundo. Assim começaram a surgir adaptações locais, com adição de ingredientes que nunca fizeram parte da bebida original: a versão brasileira tem até borda de brigadeiro.
Se você gosta do cappuccino adoçado, você não está sozinho. O paladar do brasileiro tem forte preferência por bebidas doces, e com o café não é diferente. Em uma pesquisa1 com mais de 4 mil pessoas divulgada em 2023 pela Abic (Associação Brasileira da Indústria de Café), 55% dos entrevistados declararam consumir café com leite e açúcar. É por isso que a maioria das misturas prontas que vemos no país têm mais açúcar do que café.
O pó para preparo de cappuccino é uma criação da indústria alimentícia que surgiu para facilitar que as pessoas façam a bebida em casa. A maioria tem uma dose generosa de açúcar, leite em pó, café solúvel, cacau em pó, canela e agentes que recriam a espuma quando se adiciona água. Se você encontrar uma máquina dessas que fazem vários tipos de café ao toque de um botão, pode apostar que sua bebida virá bem doce, mesmo sem selecionar a opção de colocar açúcar, pois ele já está dentro da mistura em pó que abastece a máquina.
Colocando o chapéu de quem trabalhou na indústria, posso imaginar fabricantes dizendo que apenas fazem o que o consumidor quer, afinal, o objetivo é agradar, para, então, vender mais. Por um lado, faz sentido. Mas como deixei de trabalhar na indústria para falar livremente sobre ela, me sinto no direito de fazer uma provocação:
Será que os cappuccinos doces são só uma resposta à preferência do brasileiro ou será que o açúcar entra antes do leite e do café porque é mais barato?
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E ainda:
Será que não foi a própria indústria que ensinou o brasileiro a preferir o cappuccino doce?
Os produtos que vemos no mercado são uma consequência desses dois fatores: sim, o brasileiro prefere o doce, mas se açúcar fosse caro ele dificilmente seria um dos principais ingredientes da bebida. O consumidor pode aprender a gostar de diferentes perfis de produto, desde que tenha a oportunidade de conhecê-los, e quem cresce tomando cappuccino no Brasil aprende que ele deve ser doce.
A indústria não apenas segue as tendências, ela também as cria. O setor pode introduzir no mercado formulações de boa qualidade, feitas com menos ou nenhum açúcar. Prova disso é que já existem exceções, que veremos a seguir, em meio a outras que não valem a pena.
Nesta edição, avalio 9 misturas para cappuccino em pó que prometem ter redução de açúcar ou nenhum açúcar. E, como de costume, explico o que considero mais importante na hora de escolher um produto como esse, a partir da interpretação crítica dos rótulos. Ao final, tem receita para quem quiser fazer sua mistura em casa.

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