Publiquei há dias um post no Instagram que começava assim:
Sim. Estou apaixonada.
Deixei-o ficar umas horas. Não vi os likes, não li os comentários. Mais tarde voltei ao texto e apaguei-o.
Não o apaguei porque fosse mentira.
Apaguei-o precisamente porque era verdade.
Quando o escrevi não estava com a caneta embebida no torpor do álcool, nem fui acometida por um arrebatamento emocional. Não foram os laranjas lânguidos do pôr do sol, nem fui lambida pela língua atrevida de Vénus que, dizem, governa o meu signo. Balança.
Escrevi porque é verdade.
E porque sempre escrevi verdade.
As minhas metáforas não têm a força dos escudos. São apenas transparências poéticas com que me cubro quando dizer as coisas pelo nome me deixa demasiado exposta.
É verdade que me apaixonei.
E, sem nenhuma cautela que ameace aquilo que sinto, houve qualquer coisa naquela frase que me pareceu precipitada e irresponsável. Como se dar-lhe um nome em público fosse chegar antes da própria história.
Irresponsável talvez não seja a palavra certa.
Porque reconheço que há acaso nisto. Um acaso quase indecente de tão bonito. Mas sei também que o acaso me encontrou depois de uma jornada longa de ajustes interiores. E escrever não é apenas somar frases bonitas. É também sedimentar dores até os vidros ficarem suficientemente transparentes para vermos através deles.
Não posso agora saltitar de nenúfar em nenúfar, reforçando a ilusão de que basta ir vivendo para se viver bem.
Não foi assim.
Foram mais de dois anos de guerras civis. De afagar memórias. De andar com a alma arrendada a um ego ferido. Cheia de perguntas que nunca tiveram resposta e de respostas cujo único propósito parecia ser fabricar novas perguntas.
Amei muito.
Durante algum tempo achei que tinha esgotado o plafond.
Nunca acreditei verdadeiramente que ficasse sozinha para sempre. Mas tive de reconstruir quase do princípio a ideia daquilo que poderia significar estar acompanhada.
E até isto merece ser reescrito.
Porque houve alturas em que achei, sim, que nunca mais viveria outra história de amor.
E isso metia-me medo.
O que me metia medo não era ficar sozinha. Era começar a suspeitar que a grande história de amor da minha vida podia já ter acontecido.
Entretanto houve homens. Houve desejo, curiosidade, noites boas, conversas que apetecia prolongar e pessoas que mereciam ter sido encontradas sem o peso de uma comparação que nunca pediram. Nenhum deles era insuficiente. Eu é que ainda chegava acompanhada.
O corpo até permitia o afago.
O coração é que não escancarava a porta.
Custava-me beijar de olhos abertos.
E havia uma desonestidade muito real em algumas das minhas tentativas. Não para com eles. Para comigo. Eu não estava exactamente à procura de alguém. Estava desesperadamente à procura de uma maneira de esquecer alguém.
Queria que o passado deixasse, finalmente, de chegar primeiro a todo o lado.
Estava exausta de oferecer noites, sonhos e insónias a uma história que já tinha acabado.
E é sobre isto que quero escrever agora.
Porque quando voltamos a gostar de alguém, tudo aquilo por que passámos para chegar ali ganha retrospectivamente uma espécie de lógica. Olhamos para trás e pensamos: era isto. Era preciso atravessar aquilo tudo para chegar aqui.
Não sei se era.
Não quero transformar sofrimento em pedagogia. Nem acreditar que todas as dores escondem uma recompensa embrulhada à nossa espera.
Algumas coisas simplesmente doem.
E depois passam.
Outras não passam. Mudam de lugar.
O que eu não quero é esquecer o que demorou em mim.
As vezes em que quase desisti. As semanas em que acreditei que tinha fintado para sempre a possibilidade de uma grande história de amor. Os homens que não consegui amar. As noites em que quis muito conseguir. A estranheza de perceber que um corpo pode avançar enquanto o coração continua sentado no mesmo sítio.
Também não quero apagar a história anterior para legitimar a que começa agora.
Seria profundamente injusto.
A história que vivi trouxe à pista de dança uma Isabel que eu quero que continue a bailar.
Durante demasiado tempo tentei desconstruir o outro. Diminuí-lo dentro de mim. Encontrar defeitos suficientemente grandes para que a perda parecesse mais pequena. Como se fosse possível sair de um grande amor através de uma operação contabilística: isto era mau, aquilo também, portanto afinal não perdi assim tanto.
Não resultou.
Talvez porque a única maneira de acabar verdadeiramente uma história não seja provar que ela não valeu a pena.
É aceitar que valeu.
E que acabou.
Foram mais de dois anos.
Depois, um dia, sem nenhuma epifania particularmente cinematográfica, eu estava distraída.
E aconteceu-me alguém.
Não sei explicar esta parte.
Gostava de conseguir escrever que estava finalmente preparada. Que tinha feito o trabalho todo. Arrumado as gavetas. Fechado as feridas. Aprendido as lições. Que me tornei emocionalmente disponível às 16h37 de uma terça-feira e o universo, diligente, tratou do resto.
Não foi nada disso.
A vida não respeita estas narrativas.
Chega quando chega.
Às vezes quando estamos à procura. Outras quando já desistimos de procurar. E, aparentemente, algumas vezes quando estamos ocupados a viver outra coisa qualquer.
Talvez seja isso que me espanta.
Eu não estava à espera.
E desta vez não procurei nenhuma luz antiga numa pessoa nova.
Não comparei voltas nem voltagens.
Não tentei encaixar ninguém no espaço deixado por ninguém.
Olhei.
E gostei do que estava à minha frente.
Depois gostei outra vez.
E outra.
Até perceber que alguma coisa tinha acontecido sem pedir autorização à parte de mim que passou dois anos a tentar controlar danos.
Por isso apaguei aquele post.
Não porque tenha medo de dizer que estou apaixonada.
Mas porque, depois de tudo, achei pouco dizer apenas isso.
Sim. Estou apaixonada.
Mas esta história não começou quando ele chegou.
Começou muito antes.
Quando eu fiquei.
Isabel Saldanha

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