Bom dia/tarde/noite, leitores. Estamos de volta. A Ruído Cinza chegou na 50ª edição com incontáveis lançamentos comentados desde abril de 2025. Muito obrigado a todos os inscritos e caros leitores que acompanham o meu trabalho até aqui :’) Vamos falar de música nova? Charli xcx polemizou com essa nova era, “Music, Fashion, Film”, um disco, comparado ao “Brat”, mais sombrio e barulhento com muitas guitarras distorcidas do indie rock. Comentei aqui embaixo o que achei (sem spoilers). Também falei um pouco sobre a parte dois do “Equilibrivm” da Anitta, continuação de seu mais coeso álbum de estúdio até então. Semana passada como não teve publicação, falei um pouquinho, também, sobre o destaque da semana do dia 17 de junho com Nia Archives e o disco “Emotional Junglist”. Mais textos abaixo; uma ótima semana a todos e boa leitura.
“Nada irá nos salvar, nem a música, moda ou cinema”. Charli xcx é uma artista que finalmente encontrou sua perfeição na forma de criar música com “Brat” em 2024. O que ela decide fazer que pode ser ainda mais genial que um álbum inteiro dedicado à dance music e ao fluxo de pensamento em estar bêbada e dr0gada numa rave? Matar essa ideia em um álbum de rock errático e existencial como “Music, Fashion, Film”. A produção é digna do indie rock dos anos 2000 — algo novo para a colaboração entre Charli, A.G. Cook e Finn Keane que estavam antes habituados ao edm. A artista encontra na dissonância das guitarras e a atmosfera grunge e blasé do rock para se distanciar de tudo que havia feito até então não só com o “Brat”, mas também com “Crash” e toda sua fase PC Music. — ★★★★½
Segunda parte do álbum lançado em março, “Equilibrivm II” é uma ótima continuação que não se resume a apenas um apêndice do que já foi apresentado. A sonoridade é quase a mesma: pop influenciado pela ancestralidade afro-brasileira, música de afro-bloco misturado ao afrobeats — nada de único, mas que funciona pelo grau de emoção que Anitta entrega na maioria das faixas. Comparado ao primeiro volume, esse segundo consegue ser mais focado no que foi a nata do “pop de raízes” de “Equilibrivm” em faixas como “Desgraça” e “Mandinga”. As parcerias com Mart’nália e Alceu Valença e “Ogum Me Rodeia” e “Contemplação” são os principais atrativos do disco no qual a artista se entrega a fazer algo diferente do que ela já fez. Isso se anula um pouco perto do final em que ela atribui um tom pasteurizado de pop latino genérico como em “Azul”, canção clássica do Djavan cantada pavorosamente em espanhol. É claramente reconhecível aspectos de “Equilibrivm” em muito do pop brasileiro dos últimos — de Marina Sena, MC Tha, Urias e Linn da Quebrada. O que faz disso tão especial está na verdade que Anitta constrói esse universo. — ★★★½
Em 2020, no início da pandemia, The Strokes lançou o que seria um marco na sua carreira: “The New Abnormal”, um comeback exemplar em que pouco se reinventa a proposta do grupo novaiorquino e que tinha como principal atrativo a vontade de todos os membros em trabalharem. Esse disco é até hoje um sucesso (“The Adults Are Talking” tem mais streams no Spotify que “Last Nite”, por exemplo). Agora, em 2026, a banda parece querer replicar isso, convidando novamente Rick Rubin para produzir “Reality Awaits”. É um outro trabalho que busca das mesmas referências dos anos 1980, só que agora com um tom robótico na voz com uso cansativo de autotune de Julian Casablancas. Para além disso, o principal erro de “Reality Awaits” é a falta de presença de todos os integrantes na execução dos instrumentais no disco mais enfadonho da carreira da banda (mais que o “Comedown Machine”). — ★★½
O segundo álbum de estúdio de um artista sempre é um momento para que ele expanda artisticamente o que ele fez de melhor no seu primeiro trabalho. Mesmo que ela tenha o drum and bass como temática definitiva em seu primeiro disco e EPs, Nia Archives em seu segundo álbum, “Emotional Junglist”, utiliza esse projeto para incrementar sua sonoridade que vai do indie rock ao post-punk e o indie eletrônico dos anos 2000. O disco é mais uma prova de que Nia é uma das mais fortes produtoras do gênero de música eletrônica. — ★★★★
Como eu disse acima sobre o álbum da Nia Archives — sobre a função de um segundo álbum para uma artista pop. Isso, infelizmente, não se concretiza para a sul-africana Tyla que, em seu “A*Pop”, demonstra ainda estar afundada no afro-pop de “Water” e “Push 2 Start”. Esse novo álbum chega a ser repetitivo na maioria das faixas em um mix de r&b e afrobeats que já se tornou previsível para a artista. O que salva “A*Pop” são alguns dos momentos em que Tyla troca as batidas de amapiano por diferentes produções como o house africano — gqom — como na ótima “Kiss” e o dancehall na parceria com Zara Larsson “She Did It Again”. — ★★★½
Desde a adolescência, WILLOW tentava se encontrar artisticamente: seja no pop alternativo edgy dos anos 2010, o folk e até mesmo o emo. Ela meio que entendeu o que gosta de fazer com o ótimo “empathogen” em que mistura indie rock com jazz e soul. Isso se perdeu no pretensioso álbum “petal rock black” lançado em fevereiro desse ano — um disco oco, marcado por improvisos ao vivo sem propósito. Todo o charme de “empathogen” retorna para o talvez ainda melhor “The Thread” que ecoa o math rock de bandas como Dirty Projectors e também o fresco pop dos anos 1980 de Tears for Fears e Prefab Sprout. — ★★★★
Portraits of Tracy, projeto musical da artista trans Tracy Geneviève Amare, é um dos trabalhos da música alternativa recente que é mais preciso manter o olho para cada novo lançamento. O seu primeiro álbum, “Drive Home” de 2023, é um ótimo trabalho que mistura rap, storytelling e música alternativa — quase totalmente criado no celular e lançado de forma independente. O hit do single “The Party”, com quase 20 milhões de plays no Spotify, possibilitou o maior orçamento de seu mais novo, ambicioso, político e nostálgico EP. — ★★★★½
Estava com saudade de Pabllo Vittar, que ficou um tempo sem nenhum lançamento (quase dois anos desde “Batidão Tropical, Vol. 2”). Esse sentimento foi abafado pela decepção com esse novo single, “Rockstar”, que estará presente em seu próximo álbum de estúdio, “Lost in Lust”, programado para ser lançado em outubro. É uma faixa desconexa sem pé nem cabeça com uma estrutura bagunçada pior que algumas composições de Pedro Sampaio. O feat. com a rapper portoriquenha Villano Antillano se encontra perdido na maçaroca que é um dos piores singles de Pabllo Vittar. Espero que o álbum seja diferente. — ★
Há 30 anos, uma das maiores cantoras e compositoras a estrearem no século XX lançava seu primeiro álbum de estúdio. Descoberta por acaso com apenas 15 anos, Fiona Apple, uma adolescente emotiva e talentosa, escrevia sobre suas questões, traumas e desilusões como ninguém. Lançado pela subsidiária Clean State da Sony, “Tidal” tem produção de Andrew Slater para todas as 10 composições autorais de Apple em um álbum refinado e maduro com toques de jazz e blues apesar da idade precoce da artista, influenciada por Maya Angelou e Billie Holliday. A maré do título “Tidal” casa perfeitamente com a carga dramática em canções como a confessional “Never Is a Promise”, a desoladora “Sullen Girl” e a feroz “Criminal”, o maior sucesso comercial de Apple até hoje.
Vinicius Corrêa tem 25 anos, é repórter de música, crítico musical e colunista da Agência UVA. Tem gosto eclético e variado, e está sempre disposto a descobrir artistas, bandas e estilos diferentes. Nas horas vagas, gosta de comprar discos e CDs e preparar listas específicas de discos.
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