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correio do sul do sul · Nov 15, 2025

Tambong

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renata · correio do sul do sul

As pessoas em Porto Alegre me perguntam se o que tenho tatuado é uma bomba ou uma granada na panturrilha direita, e sua confusão, pela Porto Alegre que achava que vivi, me causa espécie. Entendo que minha personalidade é algo belicosa, mas creio que eu jamais seria tão literal. Trata-se de um sifão de soda à guisa de simbolizar um lugar e um tempo, um dispositivo para servir água com gás comum em filmes de época e mesas de bodegones argentinos. Imersa em minhas próprias bolhas bilíngues e binacionais, no verão em que intempestivamente decidi contratar um colega de boxe do meu namorado para fazer o desenho, não sei como achei que as pessoas no meu país não iam estranhar, achar que era outra coisa.

Devo admitir que a comparação com bombas não está de toda errada, no entanto: sifões, principalmente os de vidro, eram notórios por explodir ao cair no chão pela pressão do gás carbônico.

Meu bisavô, filho de uruguaios, tinha um sifão desses de vidro, segundo conta meu pai, o qual imagino sempre como aquelas garrafas lindas e potencialmente mortais vendidas em antiquários ou na feira de San Telmo. Essa evidência de que outros países e outros tempos estão ao simples toque, mais perto do que muita gente pressupõe, meio que me fez quem sou. Fiquei pensando nisso nesses dias em que bancas de livros se formaram na praça central de Porto Alegre, vinculada a esse lugar onde devem passar mercadorias e pessoas para trâmites aduaneiros. Há quem de nós, nativos dessa cidade ensimesmada, tateia o tempo todo pelas coisas de fora que produzem seu ensimesmamento — o batuque, os imigrantes, os castelhanos – enquanto olham o vazio segurando o que, a grosso modo, permaneceu depois de tanto movimento, inundação e mortandade: uma cuia de mate.

Vitor Ramil aparece dizendo, volta e meia, que Porto Alegre está no centro de uma outra história, ao invés de na periferia disso que se convencionou chamar Brasil. Quando ele lançou Tambong, um disco gravado em Buenos Aires e produzido por Pedro Aznar, minha cidade natal era muito diferente. Os dias de calor em que eu sofria por amores brutos entre os jacarandás da Praça da Alfândega me pareciam copiosamente otimistas e eu aprendia, com minhas colegas de faculdade, a ouvir rock em espanhol enquanto líamos nessa mesma língua textos sobre o cultivo de milho nos Andes, o tráfico atlântico de escravizados e as minas de Potosí. Andava de All Star e com brincos de arame que com o tempo inflamaram, respectivamente, meus calcanhares e meus lóbulos das orelhas.

Inflamadas, febris, frequentamos enquanto durou as dependências voláteis do Fórum Social Mundial, atravessadas por Manu Chao, quem se tornou uma espécie de shorthand para compreender o estudante de humanidades, militante ou não, daqueles anos. Ansiávamos por esse mundo colcha-de-retalhos, multilíngue, plurinacional, com uma bússola invertida, como o quadro agora cliché de Torres-García. A explosão das ruas de Buenos Aires naquele dezembro de 2001 e o subsequente não à ALCA — esquecido por nós, mas celebrado pelo campo nacional y popular na Argentina — desafiavam à ideia de que a História de Fukuyama tinha chegado ao fim ao mesmo tempo que colocava um aparente ponto final triunfalista em outras coisas.

Lendo essa matéria que antecipou os três shows de Vitor Ramil para comemorar os vinte e cinco anos de Tambong, fiquei me perguntando até que ponto tenho, de fato, uma personalidade ou se sou meramente produto de políticas públicas das prefeituras do PT, que hoje os jovens mal associam com a cidade. Como eu então era adolescente, recém me ajeitando no meu corpo e me ocupando de não ter uma ataque de ansiedade ou de rinite frente às provas do vestibular da UFRGS, não sabia da existência de um Festival Porto Alegre em Buenos Aires, de um disco em que artistas de Porto Alegre cantam os tangos que eu associava com meu avô paterno e que hoje murmuro enquanto faço faxina. E, ainda assim, entre as bancas de livros da Feira do Livro, sozinha, ainda buscava encontrar quem eu era, catando roupas novas. Ironicamente essas roupas eram todas de inglesa: Virginia Woolf, Elizabeth Gaskell e Anne Brontë, compradas por um dólar barato no estande internacional.

Meu pai comprou o CD de Tambong como diligentemente fazia com os discos de todos seus artistas prediletos. Não sei quando o roubei, para arrastá-lo por toda Porto Alegre em meu Discman e achar que boa parte das letras falavam de mim. Não sei quando me detive neste disco como um lugar para onde eu gostaria de ir, onde se falava, como no Lux de Rosalía, mais de uma língua.

De certa forma, cheguei a algum lugar próximo desse disco, acidentalmente. Toda a semana passo correndo pela cidade de Vitor Ramil, comendo uma torrada com ovo na rodoviária, para ir lecionar na fronteira com o Uruguai. No show de sexta passada, fiquei olhando as fotos do encarte que foram projetadas no palco. São de um livro do fotógrafo Facundo de Zuviría, com fotos de Buenos Aires, em sua maioria, da década 1980. Sorri ao ver que muitos dos lugares ali se tornaram corriqueiros para mim — a avenida Leandro Alem, el bajo, a estação Callao.

Ironicamente o que mais me fez lembrar daquela menina escutando aquele disco, ensimesmada numa cidade tão ensimesmada e que se quer estrangeira, foi “Para Lindsay”, um poema de um beatnik sobre a morte de um amigo num tempo pré-redes sociais e, portanto, sem eufemismos ou trigger warnings. A sensação, brutal, de que de muitas formas, vivi outros mundos possíveis.

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