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correio do sul do sul · Oct 31, 2025

Novembro no Rio de Janeiro

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renata · correio do sul do sul

(O Corcovado desprovido do Cristo Redentor, ainda no século XIX)

Tropa de elite II estava nos cinemas. Eu estava no doutorado e não tinha, ainda, um smartphone. Alugava uma janela enorme que dava para o Cristo Redentor e deixava tudo dolorosamente iluminado: a frustração com minha pesquisa, meu esboço de casamento chegando ao fim, o fato de que aquela cidade parecia me expelir cada vez que eu saía de casa para dar voltas por meu bairro relativamente novo, ouvindo milongas num mp3 player. Olhava para o chão de porcelanato branco atrás da janela e enxergava centenas de cabelos e poeira todos os dias.

Não existe nada mais irresistível para alguém que não quer escrever uma tese do que um chão para varrer.

Interrompendo minha melancolia e os fins de semana em que eu e meu ex passávamos horas num ônibus linha 584 depois de ir à praia, de súbito em novembro daquele ano começaram a pipocar arrastões, ônibus e carros incendiados cada vez mais próximos à Zona Sul e ao Centro. Eduardo Paes era o prefeito, Sérgio Cabral, o governador, e o Rio de Janeiro estava otimista, com suas favelas “recuperadas” por UPPs, principalmente depois do anúncio de que os jogos olímpicos de 2016 seriam na cidade. Eu andava muito a pé, de chinelo ou All Star, destemida porque as ruas lá estão invariavelmente cheias, ao contrário dos sustos que até hoje tomo com minha própria sombra em Porto Alegre, quando volto de correr à noite. O calor e os apartamentos cariocas, diminutos com janela para pulmões de edifício em bairros como Copacabana, convidam muito à rua, ao contrário da propensão gaúcha de se entocar o mais rápido possível dentro de casa, principalmente nos meses frios, e deixar as ruas desertas.

Naqueles dias quentes, no entanto, nos entocamos.

Era o princípio do Twitter também, então nos fiamos em uma hashtag para ver o que era boato (bombas na Ponte Rio-Niterói) e o que era verdade (um carro incendiado na Farani, em Botafogo, onde ocasionalmente íamos tomar algo). Explodiram umas caixas de uma promoção do Faustão que foram deixadas, justo naquela semana de todas as semanas, numa praça em Ipanema. Foi numa terça-feira, acho, que eu disse “hoje não saímos mais”, depois de ir ao supermercado e à farmácia. Um toque de recolher tácito. Depois que escureceu, os únicos carros que vi passar na Rua das Laranjeiras eram táxis solitários e destemidos. No outro dia, que eu lembre, a PM invadiu a Vila Cruzeiro, de maneira não muito diferente do que essa semana. Não tínhamos televisão, então assistimos, nas que perteciam a lugares como bancas de suco e pés-sujos de esquina, uma massa de pessoas de pele escura fugindo correndo ou em motos por cima de um morro enquanto eram perseguidos por helicópteros da polícia e dos principais veículos de comunicação.

Enquanto nós esboçávamos estarrecimento, as pessoas que trabalhavam nesses lugares, de maneira inaudita, comemoravam. Há algo aí, pensamos.

Quinze anos depois, passei por um vídeo de Instagram em que um rapaz contava daqueles dias. Naquele momento, o projeto das UPPs ainda não tinha feito água, Sérgio Cabral ainda não tinha sido preso e, no Galeão, ainda não haviam ofertas explícitas de carros blindados na área de desembarque à guisa de boas vindas. As pessoas que conheci no Rio de Janeiro ainda moravam, quase todas, no Rio de Janeiro. Não foi um lugar que cheguei a chamar de “casa”, mas ao qual passei uns bons anos retornando, mesmo depois do nosso término. Naquelas semanas de novembro me lembro de estar num bar no Leblon e conversar com algum gaúcho aleatório e mais velho (insuportável) que morava lá, para quem disse “Porto Alegre pode ser violenta, mas não tem isso.”

O isso a que me referia era a magnitude de tudo: da beleza, do ruído, do ego de colegas e professores, das minhas perdas, dos carros incendiados, das milícias, desse vínculo entre a violência e a política. Naqueles dias, expulsa de onde eu queria viver e com um ranço enorme da cidade onde havia crescido, onde todo mundo parecia querer ser um personagem de David Lynch, eu estava à deriva. Não me via em lugar algum.

No vídeo que vi, o rapaz dizia algo do estilo “há mortos nessa chacina que eram pequenos em 2010, naquela outra operação, e nada, absolutamente nada foi feito de diferente”. Me senti velha e pensei que embora o Brasil não seja o Rio de Janeiro, certo presidente saiu de lá, bem como certo presidente da Câmara, aquele que comandou um Impeachment e depois passou uns bons anos preso. A reação de muitos de nós ao que ocorre nas favelas prescinde de sermos cariocas, pois esse é um país em que pessoas foram legalmente tratadas como propriedade até o que parece ter sido ontem e que racionalização da violência, a normalização da carne alheia pegando fogo é apenas uma forma de ou reafirmarmos nossos privilégios ou nos desembaraçarmos da nossa culpa, às vezes literalmente, no cartório.

Com esses monstros todos rondando nossos bueiros, ainda assim, me parece estar claro que esse liquidificador de esperanças que virou o Brasil a partir de 2014 já estava desenhado naqueles dias horríveis que eu só tangencialmente testemunhei.

Para quem não sabe, esse ano lancei a convite da Editora Machado um livrinho chamado Inundadas, um ensaio sobre a enchente do Rio Grande do Sul no ano passado. Hoje, 31 de outubro, começa a Feira do Livro de Porto Alegre. Dia 13 de novembro, às 16h, estarei na praça de autógrafos, para quem quiser dar um oi.

O livro, para quem não for de Porto Alegre, pode ser encontrado aqui.

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Read the original on rntdlsss.substack.com

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