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correio do sul do sul · Jan 5, 2026

Não era análise, era dopamina

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renata · correio do sul do sul

Passei os últimos dias de 2025 no mar no qual aprendi o que era o mar. Passei tanto tempo dentro d’água que minha pele, propensa ao “torrão de colona”, ficou mais escura, da mesma forma que ficava naquela época, na qual Francis Fukuyama disse que a história tinha acabado. Fui uma menina, admito, cheia de privilégios, cujos medos eram principalmente de siris e de caranguejos-fantasmas enquanto ia e vinha com baldinhos para montar fortalezas de areia. Dessa vez, enquanto enterrava meus pés e observava placidamente o ir e vir de banhistas, via esses caranguejinhos brancos saírem para me espiar e pensei em como os medos mudam com o tempo.

Passei a ter medo de água-viva mais tarde, depois do Plano Collor e da Guerra do Golfo, fruto de um encontro infeliz.

Sob o risco de cair no que Pierre Bourdieu chamou de “ilusão biográfica”, além de Barbies, me interessava muito a análise geopolítica quando criança.

“Que estranho que haja uma guerra”, comentei com minha mãe em algum trajeto até a escola, como se elas não estivessem ocorrendo antes da CNN mostrar ao vivo os bombardeios do pai, aqueles que, quando eu já estava na faculdade, o filho iria replicar. Na medida em que fui crescendo e outras guerras, golpes e atentados foram acontecendo, passei a sentir uma espécie de rush ao mero sinal de um evento importante que estaria sendo transmitido ao vivo em algum lugar. Meu primeiro FOMO. Há uma bibliografia vasta sobre como o ao vivo transformou nossa percepção do que é um acontecimento, mas eu nunca tinha codificado isso pessoalmente em termos químicos, em como vontade de verdade, gozo. Ainda adolescente, fiquei horas, por exemplo, assistindo na mesma CNN os sérvios tomarem Belgrado quando caiu Slobodan Milosevic. Por cinco minutos quis ser jornalista, pelo motivo de que, mais do que contemplar e entender, meu ímpeto quando frente àquilo que se convencionou chamar História, era também opinar.

Ainda assim, tenho outros ímpetos.

Tal qual um caranguejo-fantasma, nesses dias minha vontade foi de querer me enfiar na areia quando, na Joaquina, uma família começou a “torar” Brenno e Matheus numa barraca ao nosso lado.

“Eu quero é praia, pezin’ na água”, cantavam as mulheres junto com essa voz e batida que sempre acho que foram geradas por IA, “um copo Stanley, Havaiana e óculos da Prada. Eu quero é praia, tipo Havaí. Solzão rachando, as caipirinha e jet-ski.”

Minha atual sensibilidade “Sauvignon Blanc” de Rosalía se encrespou como uma ressaca. Vi vendedores de milho verde trajando camisetas com a bandeira do Brasil e a frase “a força do agro” nas costas, e pensei que a gente comum de direita sempre faz de maneira mais agressiva aquilo que acusa a esquerda de fazer, isto é, colonizar o espaço público com suas convicções. Porém minha irritação com aquela gente, percebo, foi a mesma que senti com uma galera jovem aos berros no Campeche trajando todos significantes de que pertenciam ao meu lado do cercadinho.

Estava, percebi, com um cansaço um tanto “liberal isentão” de ruído e de histrionismos, inclusive os meus, evidente pelo quanto os textos desta newsletter ficaram espaçados e o pouco que eu andava postando no Bluesky (o adesivo de nicotina daqueles que eram adictos ao finado Twitter). Nos últimos meses, reagia às pequenas misérias compartilhadas no Instagram por gente da qual eu gosto revirando os olhos. Com Sebastián, assisti uns dois episódios de Mussolini, o filho do século e pensei que, de fato, estamos vivendo uma época tão histriônica quanto os anos 1920 e 30, só que agora temos o plus de ventilar o quão ababublé das ideias estamos para mais gente.

Não à toa o tom dos documentários de Petra Costa seduzem tanto.

Toda essa minha constatação foi reforçada no sábado, quando, ao ter de me despertar especialmente cedo, vi as notícias ainda tão somente de explosões em Caracas. Eu mesma escrevi, sabendo como sou, que naquele dia (e nos que estão seguindo), os Tony Montana das dopaminas estariam contentes. Como Al Pacino com a cara suja de cocaína, matei tempo no aeroporto com uma sequência de posts — entre bem humorados e consternados — a respeito da situação. Me senti meio imunda porque estava compartilhando de algo que passei a execrar: a bolha de “tudólogos”, em sua maioria homens, que se sentem habilitados a nos explicar o mundo mais pelo tom que adotam do que propriamente pelo lastro que seu discurso possui, apelando a uns recursos retóricos mais velhos que andar a pé (“meus amigos em [lugar onde as coisas estão acontecendo]”). Nessas horas sempre me lembro de um romance engraçado, The Idiot, de Elif Batuman, em que a narradora, apaixonada por um estudante de matemática húngaro, se deixa convencer por ele que morangos dão em árvores.

Já estivemos todas aí, convenhamos.

O mais enfurecedor dessas dinâmicas — que não se limitam às redes, porque nesse caso elas só são uma extensão do que acontece no mundo real — é que quem se deixa convencer, cegos por um tipo de amor que não dispensam às suas companheiras, são outros homens, que consideram muitas vezes um mero leitor de Wikipedia um gênio (aquele seu amigo que você acha que sabe muito de futebol só porque tem uma memória boa para escalações de times variados em anos estapafúrdios, nada mais). Sempre há, obviamente, mulheres que vão dar corda para esse tipo de chamuyo, mas é o afeto masculino que garante a solidez dessas pessoas nos espaços que elas ocupam, do fórum mais obscuro da internet a canais de televisão. E daí, pelo menos nas redes, fica muito difícil separar o joio do trigo, porque se arma uma espiral de pessoas masturbatoriamente explicando o que está por trás do que ocorreu — o petróleo, aparentemente, mas sempre vai ter alguém te dizendo que não é da forma que tu pensavas. Trata-se de algo que também é mais velho do que andar a pé: o princípio da Revelação. Não, tu não estás vendo a situação claramente, eu estou e vou te contar por que.

Estamos num momento em que corações e mentes, a la Thatcher, foram de fato transformados: trabalhamos todos de graça para donos de plataforma (não importa qual), subvertemos toda a lógica de espaço público e privado, naturalizamos coisas como o capitalismo, a noção de indivíduo e a democracia como se elas fossem desprovidas de qualificativos e de historicidade. Substituímos o álcool pela dopamina dos likes e as endorfinas do overtraining, glorificamos a exaustão, fazemos menos sexo e estamos tendo menos filhos. Até a prostituição agora é em “modo EaD”, enquanto na outra aba, ocorre um genocídio sem qualquer intervenção das instituições que foram criadas na esteira do genocídio que engendrou a palavra “genocídio”. Isto é, o mundo no qual achei que ia viver enquanto corria de siris na década de 1980 ou atravessava os campus da UFRGS no início dos 2000 não existe mais, principalmente no que diz respeito às suas promessas.

O que tudo isso significa e no que isso tudo vai dar? Escondo minha carteira ante qualquer um que venha tentar me dizer.

Espero que todos tenham tido uma passagem de ano tranquila, com festas cheias de afeto. É possível que meus textos fiquem menos frequentes por aqui, porque vou me dedicar a um projetinho mais longo. Obrigada, mais uma vez, por lerem.

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