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correio do sul do sul · Feb 24, 2026

Carhué e o silêncio

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renata · correio do sul do sul

(Flamingos no lago Epecuén, sudoeste da província de Buenos Aires, Argentina)

Hoje de manhã escutei esse episódio de podcast aqui, sobre algo que não é exatamente novidade: que a forma com a qual passamos a nos valorizar através de métricas, ou seja, transformar tudo em um jogo, nos tem matado por dentro. Sabia disso há muito porque cresci num lar de acadêmicos que acompanhou a implementação dos rankings de produção dos órgãos de financiamento de pesquisa e as consequentes mesquinharias que isso acarretou (o joguinho de impacto, citações, índices h). Demorou muito para me dar conta que estava deixando essa lógica doentia permear o resto das coisas que faço por prazer: estudar, caminhar, correr, ouvir música, ler, me relacionar.

Tive, por uns meses, meu perfil de Instagram aberto, e o todo tempo eu era pressionada pelas notificações de números de curtidas e visualizações. Queriam que eu postasse mais, fizesse mais ruído.

Que chefes abusivas são as redes sociais, essas para quem trabalhamos de graça.

*

Passei o carnaval em Carhué, no sudoeste da província de Buenos Aires, cidadezinha que fica na beira de uma lagoa salgada, a última de uma série de três, que se inundaram em 1985 com chuvas abundantes que tornaram evidente a falta de obras de infraestrutura para conter suas águas. A vizinha Villa Epecuén, também famosa por suas termas e complexos de piscinas, foi completamente destruída. A água, que subiu sete metros naquela ocasião, só baixou em 2006, deixando um rastro de edifícios e casas dilapidados, rodeados de árvores mortas, tingidas de branco pelos minerais das águas da lagoa. Hoje, trata-se de um complexo de ruínas transformado em parque aberto à visitação de turistas por um ingresso de modesto valor, um lugar onde o silêncio e as árvores secas da catástrofe convivem com o ruído de uma eco-praia sustentável, de famílias com guarda-sol, mate e crianças gritando.

Vi alguém falar pela primeira vez de Villa Epecuén em plena pandemia, me deparando fortuitamente, no finado Twitter, com um show da banda Los Fundamentalistas del Aire Acondicionado organizado em meio às ruínas. Depois, li sobre seu cemitério no Alguien camina sobre tu tumba de Mariana Enríquez. Desde que nos conhecemos eu e Sebastián falávamos em ir, mas depois da nossa enchente, decidimos postergar os planos. Até esse carnaval.

Agora, com os traumas mais ou menos amansados, pensei que teria coisas a dizer a respeito.

E a verdade é que não. Fiquei com um sentimento de que teria que falar sobre a inundação de Villa Epecuén apenas por como agora, depois de Inundadas, quiçá o algoritmo me leia.

*

Em algum ponto da estrada, disse que se me soltassem ali no meio, pensaria que estava em algum ponto entre Pelotas e Arroio Grande. Lembrei de tudo que já li sobre como gauchos dormem com a cabeça voltada na direção para onde estão indo e pensei no apropriado que é ter nascido sem um pingo de sentido de orientação num lugar onde a paisagem é esse tédio de campo e horizonte, algum capão perdido, muitas vacas. A ausência completa de referências muito claras que não seja o céu. Não me sentia, contudo, desorientada, porque tudo era familiar. Fui nomeando em português os pássaros que via pela janela do carro até que os campos se encheram de girassóis.

E ainda assim, me vi surpresa. Porque não sabia, mesmo, dessas lagoas salgadas que estão num lugar que até meados do século XIX era chamado, pelo rascunho disso que hoje é a Argentina, de “deserto”, um território controlado por diferentes nações indígenas e a respeito do qual li na faculdade. “Salinas Grandes”, nome da região associada à figura do cacique Calfucurá, no final se refere literalmente a salinas. Não sei o que pensei.

Todas as cidadezinhas pelas quais passamos foram fundadas num rastro de destruição, originalmente como fortins para conter os malones indígenas. Isso inclui Carhué, que tem em sua praça central uma estátua de seu fundador, um general da chamada “conquista do deserto”, Nicolás Levalle, a mando de quem a tumba de Calfucurá foi profanada e seus restos mortais enviados ao Museu de La Plata.

Entrei meio resvalando na lama que cobre as pedras que dão na lagoa, rindo das casinhas de salva-vidas à minha esquerda. A água do lago Epecuén jamais passa da altura das coxas, dando a sensação de que se pode, tranquilamente, fazer um trekking pegajoso até o campo visível do outro lado, a quilômetros de distância, cheio de árvores verdes. Algumas boias discretas delimitam até onde é recomendável que os turistas entrem, embora muitos as ignorem. Quando me dei satisfeita com a profundidade, me agachei na água e estiquei minhas pernas para a frente, deitando. Não fiz força alguma e meu corpo ficou flutuando, como lemos que ocorre no Mar Morto, aquele lá longe.

O quanto da latinoamerica na qual dizemos, graças a deus, termos nascido, não conhecemos?

Saí com a pele tingida de branco, os lábios meio ardidos sal, o cabelo como se fosse feito de giz.

*

Poderia traçar mil relações entre a enchente do lago Epecuén e a massa marrom que se tornou o Guaíba em 2024, a começar por seus nomes indígenas, mas confesso que não consigo. Ouvi num documentário as mulheres da cidade falando de ir embora e senti meus olhos lacrimejarem um pouco. Não sei, contudo, o que é essa experiência, a de ver seus lugares inundados por mais de vinte anos, a de ter seus mortos enterrados em nichos removidos do cemitério repleto de água, a ver sua cidade transformada em um museu a céu aberto, em um refúgio de flamingos.

Imagino que em algum ponto, compartilho com essas pessoas a pontada de angústia que ainda sinto com a notícia de que vai chover torrencialmente, mas só. E isso talvez seja o suficiente.

Algo na quantidade de coisas que temos a dizer a respeito do fim da democracia, da ciência e do mundo tal como o conhecíamos — nossas ruínas particulares —, muitas vezes só por dizer, me leva a pensar que ultimamente a melhor coisa a escolher é o silêncio, para melhor poder escutar o que normalmente não ouvimos.

*

Uma vez escrevi aqui sobre como o carnaval me dá vontade de me enfiar no meio do nada, com um rádio de pilha, sozinha. No domingo, dia 15, puxei Sebastián para dentro do bailódromo de Carhué, rodeado de senhoras em cadeiras de praia e crianças numa arquibancada. Satisfeita.

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