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Escrita e Outras Coisas · Aug 30, 2025

Silêncio

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Rita Cruz · Escrita e Outras Coisas

Foi acontecendo aos poucos, mas com agravamento exponencial dos sintomas. Primeiro, foi só um engasgo. Súbito, como uma porta batida pelo vento. Os sons, em vez de subirem pela língua e serpentearem nos lábios, esbarraram na garganta e caíram corpo abaixo.

Esse primeiro sintoma surgiu depois de veres a imagem de um adolescente da idade do teu filho a cair. Uma sombra invisível, do lado de cá da câmara de vídeo, provocara o ruído metálico, curto, que ouviste e que fez ricochete e te estalou o peito. Estavas na cama, numa noite quente e quieta na tua casa, mas o estalo chegou ali, ao teu quarto onde se ouvia jazz e os livros empilhados na mesa de cabeceira derramavam o mel de histórias no tampo de vidro e tu só tinhas ligado o telemóvel por uns minutos. A sombra era um sniper, e tu pensaste num caçador. Uma sombra com uma arma, escondida e camuflada, silenciosa e quieta, atenta aos lugares certos. Cabeça, coração, pescoço para matar; pernas e joelhos para que a presa não ande, corra, dance vida fora. Esta sombra, em particular, de mãos firmes e olhar mecânico, escolheu acertar em cheio no crânio. Não era um caçador, mas um sniper, nome próprio, com outro mérito, de um caçador cujas presas não são coelhos, veados, raposas (pobres animais), mas gente. Neste caso, um rapaz à beira da estrada e da adolescência. Onze anos, como o teu filho. Deitado no chão. Podiam ter sido pernas e joelhos. Mas o caçador, que era um sniper — e que nunca se viu, para que não seja reconhecível nas praias da Grécia, de calções floridos, ou quando esteja sentado ao teu lado numa esplanada do Algarve, de camisa aberta ao peito inchado —, decidiu em contrário. O rapaz não se levantou. Nunca mais.

Ainda recuperaste a voz desta vez. O engasgue foi momentâneo.

Tudo podia ter ficado por aqui.

Mas resolveste informar-te sobre os caçadores que se chamam snipers e quiseste saber quem era o adolescente da idade do teu filho. Achaste que tinhas a obrigação de o fazer depois de teres assistido ao seu assassinato em diferido, embora tivesses sido espectadora sem querer. Não procuraste o vídeo, mas ele apareceu entre a notícia do namoro da Taylor Swift e da escolha de Braga como melhor destino de férias da Europa, nos minutos antes de desligares o telemóvel e abrires o livro que nunca chegaste a ler depois dessa noite. Alguém tinha enfiado o vídeo naquele lugar, ou alguém o não tinha retirado. A Meta não o tinha coberto com o aviso de conteúdo sensível”, para que pessoas como tu não fiquem assim perturbadas, como tu ficaste, sem necessidade, agora condenada ao peso de uma responsabilidade que ainda há pouco não sentias. Estavas leve e serena, aninhada nos teus lençóis, janela aberta à noite morna.

O resultado de queres saber mais, foi que os sintomas se agravaram. Reconheces que esse agravamento já foi inteiramente da tua responsabilidade. Quando acabaste de ler e de saber, e começaste a articular os factos em palavras, a tua voz tornou-se sinónimo de silêncio. Foi como se aparecesse um aviso, a cada movimento dos teus lábios — como começou a aparecer em catadupa no teu telefone —, de “conteúdo sensível, melhor não ouvir”. Os teus lábios mexiam-se, bem vias, mas as palavras saíam sem som. Tal como esses vídeos ficavam em silêncio, manchados de preto, também as tuas palavras agora passavam a não mostrar nada. Insististe, teimosa, e todos esses sons, dessas palavras que enrolaste na língua e lançaste dos lábios, ficaram encaixados na garganta, porque na vida é certo que nada se perde e tudo se transforma. As palavras saíam nuas, invisíveis, e a roupagem de sons ficava acumulada na tua garganta, a inchar e a pesar como um tumor.

Só então aceitaste calar-te, para não sufocar.

Na mudez, optaste então por analisar o mundo e observá-lo com mais detalhe. Percebeste várias coisas. Por exemplo, como os jornais e a televisão são guardiões de uma realidade semi-real e como, se não tivesses ido além deles, não tinhas agora este terrível problema. Afinal, nunca o tinhas tido antes, ao longo de tantas décadas de vida em que estas mesmas coisas sempre aconteceram, da mesma forma. Os caçadores. Os miúdos da idade do teu filho. Dizem-te que Chomsky já o tinha identificado há décadas, mas tu nunca o leste, porque te diziam que era demasiado radical. Leste-o, finalmente, e admiraste a clareza com que ele percebeu e expôs, há tanto tempo, o que agora é tão nítido, mas assustou-te concordar com ele, saber que tinha razão, porque o que gostavas era de voltar à realidade semi-real onde vivias feliz, e não concordar com ideias radicais. Gostavas de voltar àquela noite tranquila. Ainda tentas, mas o caminho de regresso, cujo percurso é dificultado por tudo o que leste, está barrado pelo jovem adolescente da idade do teu filho que caiu nessa noite, que era quente onde estavas, e fria onde ele pereceu.

Tu foste o teu próprio problema. Tivesses estado mais quieta, não sofrias deste mal. Bem vês que à tua volta são mais aqueles que decidiram com ponderação não se mexer do lugar onde sempre estiveram, do que aqueles que se puseram a mexer onde não deviam. Como os, e as, invejas! Observas com angústia como as palavras lhes saem vestidas de sons, adequadas e apresentáveis, e como esses sons deslizam sem obstáculo por gargantas onde não há vestígios de tumores. Olhas, com incredulidade, essa facilidade tremenda e agora misteriosa de dizer coisas e mais coisas, esse descuido de significado e relevância, quando para ti falar se tornou um esforço inabarcável.

O que resolveste fazer, então?

Observei-te, com curiosidade e interesse. O ecrã na palma da tua mão continuou a mostrar-te rostos em vez de números, histórias em vez de nuvens de pó, e o som insuportável de pirilampos de aço, dentro e fora das casas. Mostrou-te, e tu viste, carregando os vídeos que agora apareciam como material sensível, e que vias com propósito e não apenas por tropeço, pequenas mãos enterradas em cimento e pedra e gritos engolidos por entranhas de betão. Percebeste coisas que a cidadã de uma pátria não deve perceber. Que as bombas não têm justificação. São monstros com sede de infância e é atrás das crianças que vão. Que depois de caírem e destroçarem, estendem tentáculos e procuram em redor os pequenos corpos, para os rebentarem por dentro, primeiro e antes que todos os outros. E que essas bombas levam o teu nome inscrito.

Todos conhecem a sua imoralidade, percebes. Os que as compram. Os que as vendem. Os que as lançam. Os que as justificam. Os que as promovem. Os que ocultam as suas garras e as pintam de verniz. O negócio é lucrativo e não é suposto tu perceberes meros detalhes militares. Tudo deve ser baço, abstracto, condensado em chavões. O teu lugar é debaixo da cama, agarrada à ignorância como a um urso de peluche, agradecida que o teu armário, onde estava o bicho-papão, seja agora uma bonita coluna de fumo. E não deves duvidar que esse bicho-papão, que nunca viste, ali estava. E que te salvaram, e que te salvarão outra vez e quantas vezes forem precisas, quando também o teu quarto se tornar um perpétuo cenário de guerra. Que eles nunca quiseram, nem desejaram, nem entendem como se chegou a isso.

O que te vi fazer foi desligar a televisão e fechar todos os jornais que sempre leste, atirar com o urso de peluche pela janela, acender a luz e espreitar dentro do armário vazio.

Depois de o fazeres, a tua escritora preferida lançou um novo livro. Nele, falava da delicada beleza do mundo em palavras meticulosamente bordadas. Foste à livraria, mas não o compraste. Não conseguiste sequer pegar nele. Ficaste paralisada no espanto. As tuas mãos ardiam, quando as aproximavas dele. Ao longe, tentaste ler a contracapa, mas os sintomas tinham-se agravado.

Tinhas perdido as palavras.

Já não eram só sons, ou engasgues, mas o súbito êxodo das palavras. Fora de ti, elas continuam a jorrar, líquidas, a entrar e sair daquelas páginas que faziam as tuas mãos arder, mas dentro de ti, elas desapareciam.

Depois do espanto inicial, não ficaste desesperada, ou angustiada, mas melancólica. Decidiste pensar que talvez o desaparecimento delas fosse um mecanismo de protecção do corpo, porque o corpo tem destas coisas estranhas, molda-se aos estímulos, encerra-se ou abre-se em resposta a eles. Talvez o corpo precisasse de perder as palavras para que, por exemplo, o tumor parasse de crescer na garganta.

Decidiste entrar em luto e prestar a homenagem possível, dado não teres palavras, às palavras. Dedicaste-lhes coroas de flores e recordaste os dias da juventude, e de como tinhas acreditado que o mundo era melhor com elas. Vagamente, viste a silhueta de algumas assomarem-se à memória, frágeis, fantasmagóricas. Humanidade, Liberdade, Democracia... Notaste como delas tinham sobrado vestígios, despojos no teu corpo. Um rasgo na garganta, um sabor na língua, um vício nos lábios. Provaste, lembraste-te, e viste-as desaparecer outra vez.

Uma, permaneceu.

Esperança. Definição: substantivo feminino que indica o acto de esperar com confiança.

Só uma. Mas talvez uma seja suficiente para o que decidiste fazer, depois do luto.

Começaste por esperar que essa aniquilação das palavras não fosse mais do que um mecanismo de protecção do corpo, mas cedo te pareceu que esperar não era o verbo adequado. Sempre foste impaciente e teimosa. Mais do que esperar, decidiste que a Esperança se devia associar a outro verbo, para não se tornar uma palavra a implicar uma coisa, mas afinal dedicada à perpetuação do seu oposto. Havia muitas assim, lembras-te vagamente. Agir, seria um verbo mais correcto para figurar na sua definição, para a tornar mais fiel ao seu propósito.

Munida desta definição de Esperança, começaste a reencontrar as palavras. Tens poucas ainda, mas tens esperança de reconstruir um vocabulário com as palavras adequadas ao significado. Talvez precises de um vocabulário novo. Não tens medo disso, se for preciso. Já não te falta coragem, porque largaste o urso de peluche e enfrentaste o armário e sabes agora que o vocabulário antigo estava cheio de manhas, muitas palavras viradas do avesso, outras desbotadas até à transparência. E sabes que o armário estava vazio. Por enquanto, ainda estás em silêncio, mas não te calaram. Só precisas de tempo para voltar a emergir, com o vocabulário certo e as palavras límpidas.

Dou-to. E tenho Esperança.

Uma panela de pressão sem válvula. Quantos corpos e gritos cabem lá dentro, até ela explodir?

Em Melbourne, no fim de semana passado, fomos mais de 100,000 a desfilar nas ruas do centro da cidade. Ficámos registados em vídeo, para que dúvidas não hajam, quando a História for contada mais tarde, nos livros que lamentarão o presente. O presente em que as autoridades, e os jornais que a confirmam, afirmam que fomos apenas 10,000. Os restantes 90,000 para que não sejam vistos nem ouvidos, ficam escondidos, a ferver de indignação, numa panela de pressão sem válvula. A quem serve a mentira, perguntamos, e que consequências poderá ter?

Fomos judeus, cristãos, ateus, muçulmanos.

Fomos jovens de piercing e idosos de andarilho.

Fomos aborígenes, a saber de outros genocídios e estudantes a saber este.

Fomos activistas de décadas e donas de casa que nunca gritaram na rua.

Fomos enfermeiras, médicas, farmacêuticas, em trajes de trabalho.

Fomos com amigas e fomos sozinhas.

Porque basta!

A mentira tem prazo de validade, sempre. Pode impor-se por anos, décadas, voltar o mundo do avesso, disfarçar-se com substantivos e verbos e muitos adjectivos, mas em algum momento caduca, abre fendas, e requer um trabalho exaustivo de reparação, até não haver mãos para tanto defeito e todo o edifício ser uma catástrofe anunciada.

Nada disto devia ser necessário. Se a Democracia fosse o que diz ser, se a imprensa fosse a guardiã da verdade em vez do poder, se todos soubéssemos, se tivéssemos tempo ou curiosidade ou determinação em fazê-lo, em vez de aceitarmos a confusão que nos dão, os ódios que nos sugerem, os medos que nos impingem, não seria necessário. Se todos fizéssemos mais uns pelos outros. Nunca Mais seria, efectivamente, Nunca Mais.

Em vez disso, vamos explodir numa panela de pressão sem válvula.

“I don’t want to speak in the words they give me.”

Chris Hedges @The Chris Hedges Report

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