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Escrita e Outras Coisas · Oct 5, 2025

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Rita Cruz · Escrita e Outras Coisas

Não escrevi quando queria ter escrito. Não apanhei em palavras e guardei em folhas os primeiros dias e o Inverno inteiro, as manhãs de sol e as tardes de chuva. Apanharam-me eles, na avassaladora corrida dos dias, em vez de ser eu a apanhá-los. Agora, já tenho de me esforçar por recordá-los. Amarelados aos cantos, desfocados ora ao perto, ora ao longe. Desprovidos não só da terceira, mas da quarta dimensão da vida: a química do sentir.

Recordo, escrevo. Como se estivesse aqui sentada e fosse o início de Julho. Acabámos de chegar. A casa está vazia, à excepção das camas, um tapete e três cadeiras que trouxemos da casa da Margaret, a mãe do Roger. A quarta não coube na mala do carro. Está um frio tímido, inseguro, que se acanha e desaparece quando o sol brilha. Sentamo-nos na esplanada do café da nossa rua. À nossa frente, a fachada de uma casa pintada com uma imitação de Nighthawkes de Edward Hooper. Em redor, o silêncio. O ar vazio de ruído. Melbourne é uma cidade enorme, mas espalha-se, não se concentra. São mais as casas que os apartamentos. Acarinham-se as árvores e os rasgos de natureza entre passeio e estrada a que chamam nature strips. SILÊNCIO. Fecho os olhos. Vou esquecer-me de como me limpa da poeira que trago. Como me apercebo dela. Como escorre por mim afora. Não há um prédio de cinquenta andares em construção, ao lado de outros três recém-construídos, ainda por ocupar. Não há trânsito constante, nem o tráfego humano de apartamentos altos, apertados num espaço exíguo. Não há sopradores de folhas, uma das mais absurdas invenções de sempre. Nem sequer há música a ocupar o espaço vazio das palavras. Na esplanada do café, o silêncio é cristalino. E nesse silêncio cristalino, como em águas serenas, o meu pensamento mergulha, estica os braços e nada, brinca e bóia com a alegria do primeiro banho de mar. Mesmo sem mar. E mesmo a ser Inverno.

Visitamos a Margaret. Está muito magra. Repete-se muito. Os miúdos respondem às mesmas perguntas sem nunca acusarem enfado. Sem nunca lhe dizerem que é a quarta vez que lhes pede que se levantem para ela ver qual deles é o mais alto.

Clyde Street, Thornbury. Melbourne @Rita Cruz

Recordo, escrevo. Como se estivesse aqui sentada e fosse o fim de Julho. A mobília ainda não chegou, mas roubámos uma mesa e mais cadeiras à casa da Margaret. É óbvio que ela nunca mais vai regressar. O lar de idosos é a última casa, e começamos a achar que não o será durante muito tempo. Está a dormir quando a visitamos. São duas da tarde. Ainda não acordou. Dorme há mais de vinte e quatro horas. O braço que se vê por cima dos lençóis é o galho seco de uma árvore a ameaçar quebrar.

A escola começou. O Marc fracturou o tornozelo. Na ordem inversa. Deixamo-lo na escola com o coração apertado. O uniforme parece ficar-lhe grande, embora ainda no dia anterior parecesse perfeito. Como se o corpo tivesse encolhido. Vemo-lo com as muletas, por entre os outros alunos. Leva os olhos agarrados ao chão, num mar de cabeças levantadas. Inquieto-me, mas o que vejo não é o que é. Tudo corre bem. O que vejo, no corpo e nos olhos, vejo com imaginação de mãe. O ninho vazio no peito, ainda quente, a notar a falta.

Recordo, escrevo. Como se estivesse aqui sentada e fosse o início de Agosto. O Roger encontrou trabalho. Recebeu a confirmação quando fomos ver a nossa equipa de futebol australiano treinar. Uma manhã de terça-feira. Então, sem trabalho, as manhãs eram o que queríamos que elas fossem. Tentámos aproveitá-las, fingindo que não tínhamos receio de que não tivessem um fim. Tiveram-no, nesse dia. Foi o último treino a que assistimos. A nossa equipa continuou a perder, mas nós começámos a encaixar melhor nos dias. Porque estas manhãs de semana e lazer não encaixavam. Hão-de fazê-lo, daqui a uns anos, que já são menos do que foram. Há sempre um lado bom, e um lado mau, no tempo que passa. Até deixar de ser assim.

A Margaret não acorda. Já não pergunta qual dos miúdos é mais alto. Se são os melhores alunos da escola, como os filhos foram. Sempre foi tão importante para ela, por razões baças à superfície, que do sangue dela não se fizesse invisibilidade.

Um dia, no final de Agosto, nunca mais acorda. Faltavam poucos dias para completar 96 anos.

Estará sempre connosco @Rita Cruz

Recordo, escrevo. Já não estou no café. Já os miúdos completaram o terceiro (para eles primeiro) período. Já a nossa casa, que não será nunca a nossa casa, tem a nossa mobília. O sofá, que começa a ser pequeno para albergar os quatro e onde nos sentamos apertados como os Simpsons, depois do jantar, a ver os Simpsons. Às vezes, ainda acordo ao fim-de-semana a pensar que devíamos ir visitar a Margaret. Sorrio, quando acordo com este pensamento. Não sinto a perda, mas antes o ganho. O ela estar, mesmo quando não está. E entretenho-me a recordá-la. Penso também noutras pessoas que não posso visitar, com quem não posso rir, chorar, conversar. Pessoas que também já não estão. E surpreendo-me como insisto, como teimosia infantil, que elas estão. Não sei em que momento da vida isto me aconteceu. Porque ainda me lembro de não ser assim, quando um dia bateram à porta de manhã cedo, eu ainda a dormir, para me dizerem que ele tinha morrido. Só isso, e só assim. Tinha 20 anos, e eu dezoito. Não. Aí foi diferente. Mas talvez haja uma linha. Uma idade. Para quem parte, e para a pessoa que fica.

Escrevo. Estou na casa de praia do irmão do Roger. A pequena localidade de Breamlea. Todos dormem ainda. Gosto desta solidão transitória da manhã. O mar não se vê deste lado. Aqui, o horizonte estica-se em verde e castanho, debaixo de um céu azul. A Primavera vai ser uma auto-estrada até ao Verão, se não a parar. Como o Inverno foi para a Primavera. Devo estar atenta. O meu pé gosta de se enterrar no acelerador. O meu pai bem tinha razão ao oferecer-me, como primeiro carro, um Renault 5 tão batido que ameaçava desconjuntar-se quando eu me aproximava dos 100km/h. Podia ter aprendido, mas parece que não o fiz, a ter mais calma no pé.

No telhado da casa ao lado, pousa uma cockatoo. A vistosa ave branca que estraga todo o seu encanto quando abre o bico e revela o mais odioso grasnar. Lembra-me a personagem do Singing in the Rain, artista maior do cinema mudo que só sobrevive na era do filme falado porque lhe dobram a voz. Depois de ouvida, nunca mais a mesma beleza. Pobre cockatoo.

O Roger rodeado de Cockatoos. Grampions. Victoria @Rita Cruz

As férias acabam hoje. Amanhã a casa volta a ficar vazia. Os miúdos na escola. O Roger a trabalhar. Eu, a tentar travar os dias que me atropelam e me esmagam, ainda sem saber o lugar que vim ocupar. Emigrante num país que ainda não sei se me abraça.

Desde que cheguei à Austrália, e só lá vão três meses, já assisti:

1. Ao fiasco de um emblemático Festival Literário regional (Bendigo Festival) causado pela imposição de um código de conduta aos autores convidados. A razão do código foi a tentativa de silenciamento da escritora palestino-australiana Randa Abdel-Fattah. Randa não assinou e retirou a sua participação, tal como o fizeram logo de seguida a maior parte dos autores convidados. Com considerável perda de rendimento, a livraria que tradicionalmente apoia o Festival também retirou a sua participação, por solidariedade e repúdio ao código. O Festival foi avante, sem cerimónia de encerramento e uma participação negligenciável. Mas não se criticou Israel. Alguém terá ficado contente. Não foi, com certeza, a comunidade.

2. À súbita morte de uma histórica revista literária, onde muitos escritores nasceram e cresceram ao longo das suas décadas de existência e cujas portas abertas à publicação de novos autores tornavam o seu nome acarinhado numa cidade onde a literatura vibra. Publicada pela Universidade de Melbourne, instituição de invejável saúde financeira, o argumento público de fraca rentabilidade não convence ninguém. São várias as iniciativas que se iniciam, concretizam e perduram, por prestígio, e à Meanjin não lhe faltava prestígio. O argumento que convence é, mais uma vez, o cancelamento das vozes críticas, o burburinho teimoso que perturba a imposição de uma narrativa. Nos últimos tempos, a Meanjin tinha publicado autores com posições pró-Palestina, textos a convidar ao questionamento do sionismo e do poder do lobby na Austrália, um texto recente de Randa Abdel-Fattah. Alguém terá ficado contente com a morte da revista. Não foi, com certeza, a comunidade de escritores e leitores de Melbourne.

3. Ao cancelamento, em cima da hora, do jornalista Chris Hedges. Estava previsto realizar uma comunicação em Sydney, no National Press Club of Australia, sob o tema: Palestine Betrayed. A poucos dias de acontecer, o evento acaba de ser cancelado. O Press Club já veio dizer que não cedeu a pressões. Como a Universidade de Melbourne também diz. Como o Festival de Bendigo também disse, embora já se saiba que sim. Alguém beneficia com tudo isto. Não são os cidadãos, não é o jornalismo e não é a Democracia

Muito cedo no genocídio começou a ser claro para quem estava atento que, para lá da obrigação moral de não ignorar o que as redes sociais mostravam — já que os principais meios de comunicação não o faziam —, que o que se passava na Palestina não ficava na Palestina. As democracias sangram debaixo das garras dos lobbies e das oligarquias. Os nossos países, essas construções imaginárias que dividem o planeta em quintas, que nos definem e nos convencem que existem para nós, cidadãos, para o nosso bem-estar, para a nossa segurança, debaixo de cujas bandeiras gritamos palavras sanguinárias de mãos ao peito, por quem nos tornamos assassinos legais, são um pátio de recreio dos poderes além-fronteiras. Make um ego e uma conta bancária Great Again. Ontem recordei um filme antigo, Network, cuja mensagem de 1976 não envelheceu nem um bocadinho.

Chris Hedges não foi cancelado em Melbourne. Pelo menos por enquanto. Faço parte do grupo que organiza a palestra que ele vai dar aqui, sob o mesmo título. Palestine Betrayed: Reporting on a modern day genocide. Assim que as portas abrirem, na Universidade RMIT, vamos passar um conjunto de slides que introduzem o tema e prestam homenagem aos jornalistas assassinados por Israel em Gaza. O que estará em exibição, e que ainda não finalizei, será mais curto do que este original de oito minutos, mais simples também, mas partilho convosco a versão inicial. Precisamos urgentemente de entender como o jornalismo é permeável ao poder e, ao sê-lo, falha na sua mais importante função. Por isso mesmo, de há um ano para cá, o orçamento que dedico à solidariedade tem sido maioritariamente canalizado para o apoio ao jornalismo independente. Precisamos dele mais do que suspeitamos.

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