Levo uma vida bastante limitada. Quem me conhece sabe. Assunto corriqueiro. Aos vinte e poucos fiz uma dieta de sopa e voltei dela vinte e tantos quilos mais magro, porém sem condições de comer, por exemplo, embutidos. É cólica e contração para um parto. Carne de porco, nem pensar. Aliás, tentei ser vegetariano, mas como eu já era contra as verduras e os legumes, também não me custava ser contra os animais, então voltei a comer bicho, embora não seja todo bicho nem qualquer parte dos bichos selecionados. Do frango, só o peito. Do boi, quase nada da parte dianteira e um corte ou outro mais magro da traseira. Do mar, só o sal — os bichos de lá que se comam entre eles.
Reservados uns poucos ingredientes, tenho ainda ressalvas às culinárias de todo o mundo. Vou me salvando nas massas, que, graças ao bom Deus, se encontram nas cozinhas italiana e chinesa, tailandesa e mediterrânea, vietnamita e francesa. Não passo fome nem vergonha enquanto existir alho e óleo no mundo. As pimentas vinham bem como diferencial de sabor até outro dia, mas decidiram declarar guerra ao meu aparelho digestivo, que agora deu para se ofender por pouco e não atura nem o mais elegante dos condimentos. Congelados e seus bem-bolados de conservantes? Quem me dera a oportunidade de resolver o jantar no micro-ondas, quem me dera.
É realmente uma vida limitada, muito limitada. Como se não me bastasse ser um trintão solteiro sem talento para aplicativo de paquera, com uma natureza caseira incorrigível, ex-fumante há mais de ano limpo e em tentativa árdua de moderação alcoólica. De vício e abuso me restou o café, que só posso tomar meu pouco mais de um litro, diário, depois de forrar (bem) o estômago com qualquer coisa que imediatamente se transforma em gordura localizada abdominal.
Nenhum desregramento para animar a vida, nem mesmo a doméstica. Posso passar um final de semana inteiro vendo filmes, o que portanto seria uma liberação de limites? Posso, mas serão todos nacionais, que não tenho tempo para tentar entender outra gente que não essa nossa. O mesmo com a música e a literatura. Até ginástica, meu mais recente compromisso menoscabo, faço em acordo republicano: o Estatuto do Idoso é o limite.
E assim a vida vai seguindo por aqui: com limitações impostas e autoimpostas em todos os aspectos. Acha que entro em qualquer mercado? Qualquer restaurante? Qualquer comércio? Espere até conhecer minha lista de boicotes. Nunca comprei sequer um pacote de algodão na Amazon, a Shein jamais viu meu dinheiro (eu também vejo pouco, na verdade), que roupa é outra complicação, você descuida e está vestindo sofrimento de produção exploratória e precarizante.
Não me orgulho, mas o neoliberalismo ainda não me ganhou de vez. Com isso, situações embaraçosas são inevitáveis. Vez ou outra preciso comentar, por exemplo, como quem não come carne: desculpe, sou sapatão. Como assim sapatão? É minha identidade de gênero, exijo respeito e desafio qualquer uma a saber mais músicas da Ana Carolina do que eu. Quero dizer, você pode até me oferecer um pedaço menos nobre de carne de homem, mas ela me serve na lógica do boi.
E assim vou avisando, vou desviando. Sem estresse, no bom humor, explicando para confundir — essa artimanha Tom Zé —, oferecendo uma risadinha amigável. Estabeleci essa operação pois militar é exaustivo e eu durmo pouco, ainda que faça questão de dormir bem o que me resta de sono dos justos, ou da tentativa de ser justo, porque é sempre um exercício diário e demasiado cansativo. Obviamente cansativo, talvez por isso tenha tanta gente desfilando com a ética bunda mole. Mas eu tenho lutado e comido o pão que o diabo amassou para ter uma ética um tanto mais rabuda.
Pago o preço — literalmente. Recebo menos do que deveria pelos trabalhos que faço, recuso outros que poderiam me trazer um tanto de conforto extra, compro livro na livraria da rua, com preço mais alto, mas que pelo menos não é de bilionário, e assim a conta avança. Toda uma complicação a história de tentar ser consistente, pensar, dizer e fazer a mesma coisa. Pensar, dizer e fazer a mesma coisa quando se está sozinho ou sendo observado. No Brasil, com o agravante de ser do Brasil.
Ah, o Brasil…
Neste país, o recomendado é ficar no armário o tempo que se pode, porque ser honesto é ser otário, mas ser trambiqueiro declarado também não pega bem, de modo que somos todos um tanto enrustidos — um bom tanto. Pelo menos até outro dia, ou pelo menos por mais alguns dias. Mas, enquanto a honestidade é crime de lesa-pátria à honra da nação, a trambicagem é direito tácito de cada cidadã, cada cidadão.
Se você paga o valor inteiro de um ingresso, por exemplo, vai precisar se esconder embaixo da cama, porque qualquer otário tem uma carteirinha falsa. Então como você, com vocação para um otário articulado, não tem a sua? Os outros olham e duvidam se uma pessoa dessa é capaz de assinar o próprio nome. E isso é prática de artimanha leve. Se alguém descobre que um amigo pagou mais imposto de renda do que a mordida do leão na fonte e, ainda por cima, não recebeu uma restituição, incorre imediatamente em perda de reputação e corre o risco de ser enfiado em uma clínica de reabilitação.
As pessoas entram em parafuso se você não salta a catraca que está sem guarda. O “jeitinho brasileiro” nada mais é do que a exploração profissional e já distraída da pequena vantagem. Viramos o país da pequena vantagem. E não há pau-brasil que consiga ganhar da trambicagem.
Compreensível. Somos roubados o tempo inteiro, lesados, violentados, desrespeitados. Sacaneados. É de se esperar algum gingado de enfrentamento, ainda que no armário, na discrição fora do meio. Entretanto, estou atento e recomendo: a hipocrisia é bom cobrar a cada quatro anos, pelo menos, com fartura, muito gosto e sabor, inclusive sustentado revezes digestivos. Há que se enfiar o pé na jaca, a vida é curta para não tripudiar gente loroteira.
Apesar, que, de minha parte, normalmente trato como gente quem votou em Aécio, quem xingou Dilma, quem vestiu verde e amarelo em junho de 2013 e nunca mais jogou a farda fora... Faço aí meu esforço conciliatório, porque já decidi que enlouquecemos e emburrecemos todos, todas e todes. Não bato palma para maluco dançar, mas sigo de cá a receita de que remédio para doido é um doido e meio.
“Você vai mesmo pagar inteira?” Vou, mas é porque meu carma é muito complicado, tenho essa ressalva energética, sempre que tento ser espertinho sou pego no flagra, os seguranças me adoram. “Você vai alugar o filme ao invés de baixar?” Sim, mas é uma questão de falta habilidade com esses negócios da internet. “Pagar software em vez de piratear?” Pois é, sou péssimo com computador. A pessoa vai se esquivando da fama de otário com outras menos graves, como ser incompetente, inábil, ineficiente.
Mas longe de mim querer dar bom conselho ou lição de moral, há tempos perdi a disposição para a militância, já disse. Não é o caso. Escondo minhas tentativas de coerência e consistência política embaixo da bunda, porque sei que falho mais do que acerto. De modo que se resolvo fazer discurso por honestidade, posso cair na malha fina e me juntar aos que parecem tentar vaga num convento — tão bonzinhos, tão boazinhas. Felizmente a justiça é cega, não beata. "Deus tenha misericórdia dessa nação", como dizem os homens de fé, nossos homens de bem. E enquanto as vagas em convento não aparecem aos que procuram, gosto de fazer minha política de padaria, um negócio menos ambicioso, repetindo diariamente o pedido do velho pão bulinado pelo cão.
E aí é que o bicho pega, pois somos um país de traíras. Até poucos dias atrás ainda era possível bradar pela honestidade em uma fila de caixa de pagamento, assim, no mercadinho do bairro, no cafezinho da repartição ou em um sobe e desce de elevador. Rotina brasileira. Mas quis o destino que a arrogância de homens públicos da Esplanada dos Ministérios desfigurasse nossa fantasia republicana de homens probos. Algum proativo infeliz inventou de querer ajustar a fiscalização das movimentações das nossas contas bancárias em busca de, vejam só a ousadia, corrigir deficiências na cobrança de impostas e, juro, pegar sonegadores no flagra.
Não há carnaval que sustente o enredo e a alegoria. Saímos todos do armário! Danem-se as bandeiras e quebrem-se os caixotes armados para a retórica ilibada! Aumentar a vigilância das transações bancárias é mais indiscreto que consultar a lista de tópicos pesquisados por alguém em plataformas de conteúdos pornográficos. Como assim o governo simplesmente decide levantar o lençol que cobre todo o tipo de perversão do cidadão comum, tão honesto? Uma audácia. Uma audácia que qualquer tolo conhecedor do João Grilo que há em cada um de nós — essa entidade que avaliza nossa nacionalidade e nos confere um CPF neste solo — seria capaz de prever. Não existe alma inocente vagando por estas terras.
Fiquei um pouco espantado, ainda assim. O governo tentou dizer que o que aconteceu foi mais uma onda de “fake news” ou “desinformação” — os mais irritantes eufemismos para a boa e velha mentira bem contada. Não foi nada disso nem por um minuto, que acompanhei ao vivo, como bom interessado na movimentação desta selva. O primeiro sujeito a pegar em armas e vomitar estridência já estava defendendo seu direito de driblar o fisco. Aliás, como o senhor nosso Deus sempre tolerou, desde que iluminou a inteligência lusófona dessas bandas para a engenhosa invenção dos santos do pau-oco do período colonial, quando mineiros entupiam de ouro os rabos de Santo Antônios e Virgens Marias para sonegar o quinto devido à Coroa.
Agora reparem, foi em um país com esta índole que burocratas de alta escolaridade decidiram que seria razoável revirar o colchão da povo para conferir se não há nada escondido que seja de direito da União. Isso sem sequer se darem ao incômodo da batalha pedagógica, para, quem sabe, matricular a população e recapitular as disciplinas relacionadas à cobrança de impostos, essa alternativa que está entre a meia dúzia de hipóteses de fontes de receita do tesouro. É um vexame inacreditável, mas aconteceu. Antes de uma revolução tomar as ruas do país, contudo, o governo recuou. Hoje todos já podem fingir que nada aconteceu e a maior gangue de sonegadores do planeta vai poder voltar para o armário.
Ainda estamos aqui. Para o bem e o para o mal, brasileiros, sem nenhum caráter, vivendo de chão, macunaímicos demais, como sempre, desde sempre. No esforço de tentar inventar algum bom caráter para refundar a nação, nos resta momentos de triunfo parar celebrar com histeria, como a coleção de louros que um filme nacional e uma artista brasileira têm colhido pelo mundo. Aliás, ela própria, Fernanda Torres, claro, é dona do título que melhor resume as aventuras deste início de 2025: “A glória e seu cortejo de horrores” — nome do excelente romance que publicou em 2017, com uma das célebres frases de sua mãe, Fernanda Montenegro. A sentença, que nos é entregue por quem muito já observou a vida e o país, vaticina que os períodos de grande euforia e alegria são sempre acompanhados e sucedidos de infortúnios.
Pois eis aqui. Nosso melhor e nosso pior nas capas dos jornais da semana para abrir o ano sem rodeios e sem ilusões. Somos o que somos: um país bárbaro, onde o instinto de sobrevivência apura a inteligência a ponto nos levar ao reconhecimento mundial de nossos talentos; e um país fragilizado, empobrecido de valores, a ponto de renunciar sua ninharia moral, seus resquícios de decência, para que cada um defenda o quinhão que lhe cabe, na conveniência da vez, mesmo que para isso voltemos a parecer uns selvagens. Afinal, no fim das contas, o que vale é o lema inscrito na flâmula desta pátria: farinha pouca, meu pirão primeiro.

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