Assisti a Ainda estou aqui logo na estreia, um tanto aborrecido. Como esperado, o novo filme de Walter Salles, protagonizado por Fernanda Torres, a melhor atriz do Brasil — que interpreta a matriarca Eunice Paiva no roteiro baseado no livro homônimo de Marcelo Rubens Paiva —, comoveu o Brasil e agora ganha o mundo em premiações internacionais. É nosso filme do ano e tudo isso você já sabe.
O tanto de aborrecimento, explico, não surgiu do filme, obviamente. É que fui forçado a assistir em uma sala de rede multiplex, em shopping. Isso porque o espaço onde eu desejara ver inicialmente, o icônico Cine Brasília (a sala mais importante da capital do país), sofreu boicote da distribuidora, Sony Pictures, que, de acordo com a assessoria do espaço, "optou por outras salas em Brasília na semana de estreia".
Um desaforo que aconteceu ao longo de todo o ano. O Cine Brasília perdeu a relevância para as grandes estreias do cinema nacional. A casa de um dos festivais de cinema mais importantes do país, e o mais antigo, passou a ser preterida para beneficiar salas de rede multiplex (esses cinemas de shopping) com mais algum troco, e até aqui ninguém se incomodou.
Nos últimos anos, o Cine Brasília aplaudiu novos clássicos como Aquarius e Bacurau, ambos do pernambucano Kleber Mendonça Filho, e vaiou equívocos como O mês que não terminou, dos cariocas Francisco Bosco e Raul Mourão, como uma final de Copa do Mundo de futebol, cumprindo sua tradição politizada e atenta. Kleber também comentou o boicote às salas de cinema tradicionais, no Instagram, dias depois, quando o filme enfim entrou na programação da sala.
“Esses cinemas, é bom lembrar, trabalham o ano inteiro exatamente na construção de um público para o Cinema Brasileiro, programando a maior parte dos filmes que cinemas de multiplex não exibem. Faz sentido que quando surge um filme brasileiro maior, elas façam parte do lançamento sem o bullying de salas comerciais que muitas vezes impõem às distribuidoras que barrem as salas de ingressos mais democráticos da lista de cinemas da estreia.” — Kleber Mendonça Filho
Foi triste Ainda estou aqui não ter tido pré-estreias no Cine Brasília, como aconteceu em outras salas históricas como o Cine Odeon, no Rio de Janeiro, e o Cinema São Luiz, no Recife. Mas não ter sessão na semana de estreia foi um deboche, uma vergonha, e é inaceitável.
Pode parecer exagero, mas o diabo mora nos detalhes e traiçoeiro ludibria. As salas de cinemas tradicionais são espaços livres do controle implacável do mercado da indústria cultural, que decide o que todos vão consumir e sobre o que vão pensar, discutir, comentar pelos elevadores. São essas as salas responsáveis por criar vínculos com o público e garantir a acessibilidade à produção cinematográfica brasileira.
Feito o desabafo, vi o filme, e me emocionei do início ao fim. Walter Salles filmou a memória e a ausência como personagens tão impactantes como a violência e o amor, afastando o medo no escuro para iluminar o que nos resta: fazer. Elegantíssimo, sensível, latino, brasileiro. Se a vida prestasse acima do Equador, o Oscar é que deveria batalhar por um filme como esse no palco da premiação, e não o contrário.
Gostei, estou com a maioria, mas o filme está longe de ser um consenso, embora pareça. E que bom. Há excelentes textos sobre o título por toda parte, com pontos de vistas diferentes e sempre oportunos. Uma crítica desfavorável à obra, em especial, me chama a atenção: um certo didatismo do roteiro e uma simplificação comercial. Não discordo e sou aliado dos que decidem não paternalizar o público, mas não podemos perder de vista que facilitar é também um serviço importante, que precisa ser feito e, paradoxalmente, não é fácil de se alcançar. A simplicidade e o didatismo são complexos. E, convenhamos, a história recente não tem sugerido que a inteligência brasileira anda em seus melhores dias.
Se a simplificação ou mesmo a decisão por uma linguagem comercial produz bons resultados na formação de plateias e nos debate sobre nossas contradições, não podemos julgar inoportuna. Eu mesmo, vivendo na bolha de artistas, acadêmicos e gente politizada, tenho grande dificuldade em encontrar companhia para ir ao cinema assistir a filmes nacionais, sobretudo os independentes. A bem da verdade, até prefiro ir só, mas me decepciona a minha pouca capacidade de convencimento para essa programação. As pessoas julgam nosso cinema arrastado, por vezes muito poético, contemplativo, moroso. Às vezes até me parece elogio, mas o tom é pejorativo, afinal é 2025 e as mentiras da pirotecnia iludem o juízo e a razão a todo o tempo.
Mas fato é que as pessoas não alcançam nosso cinema. Não se convencem. Não compram. Considero curioso, uma vez que Ainda estou aqui, para mim, não foge do estilo brasileiro de fazer cinema e foi capaz de gerar grande comoção — muito, é claro, atrelada à estrela de Fernanda Torres. O diferencial maior é que o filme é feito com dinheiro, com algum dinheiro. Dinheiro esse angariado por um dos cineasta mais ricos do mundo — sim, um brasileiro, tão endinheirado quanto poderoso e influente.
Audiovisual é caro, caríssimo, justificadamente caro, pois o número de pessoas envolvidas em um trabalho como Ainda estou aqui é grande e movimenta economicamente um ecossistema enorme na economia. Não é todo dia que isso acontece; que o dinheiro existe. De modo que, normalmente, nosso cinema reflete nossa falta de recursos, mas nem por isso é menor, muito ao contrário, inventa a toda sorte um jeito esperto de filmar nossas histórias, criativamente, da maneira que pode ser feito; e se sai muito bem, obrigado.
Temos o cinema que pode ser feito, a música que pode ser feita, o teatro que pode ser feito — como há décadas resumiu Fernanda Montenegro, mãe de Torres e responsável por interpretar Eunice no fim da vida em Ainda estou aqui, dizendo tanto, sem verbalizar sequer uma palavra. Realizamos da forma que é possível, nas condições que são possíveis, e nem por isso nossa produção artística deve em talento e importância para a arte de canto nenhum do mundo.
Estou convencido de que todo o estranhamento com nosso cinema é relacionado a uma escassez de recursos que, mesmo não inviabilizando as produções, é sentida em qualidade técnica, disponibilidade de tecnologia, tempo e tamanho de produção. E o público, acostumado a ver “filme de boneco”, como diz o já mencionado Kleber Mendonça, ou de super-heróis, como denunciava Glauber Rocha, se ressente. E acostumado no sentido imperativo: foi forçado a se acostumar, por decisão política de um Estado que historicamente preferiu não se ver nem se mostrar, para não se encarar.
Por isso Ainda estou aqui, um filme sobre nós filmado como são filmados os filmes com bons orçamentos pelo mundo, é tão importante para o Brasil, e não para Hollywood. Porque, com todas as grifes e todo o cuidado, consegue apresentar e sensibilizar o espectador para uma parte da tragédia brasileira que é produzida por construção política.
Filme estrangeiro nenhum do mundo daria conta de nos contar nossas próprias histórias de forma tão tocante. Com nossos artistas brasileiros, nossa língua brasileira, nosso olhar e nosso coração brasileiro. É bonito! Nosso dever é prestigiar. “Sorriam!”
Nós vamos sorrir com este filme, muito, ainda, e temos a responsabilidade de sorrir com o cinema nacional feito também com menos recursos. Porque são tempos difíceis, emburrecedores, e a arte é uma das mais eficazes formas de oferecer novos diálogos, propor reflexões, fincar um pé no sonho.
É o momento para se repetir que o cinema é importante, que a arte importa, e que o tempo investido para assistir às nossas histórias nos engrandece, ainda que seja para não gostar. Porque incomodar-se é bom e saudável.
Ainda estou aqui é um acontecimento feliz sobre nossas tristezas, mas nossa identidade e nosso caráter, se existem, são ainda mais complexos que nossos traumas políticos. O convívio com a arte e o exercício diário do pensamento crítico são as ferramentas disponíveis em que eu ainda acredito, sabendo que há muito para se fazer e muito para se compreender do que somos.
Talvez seja esse o aprendizado essencial no rigor de Eunice Paiva para enfrentar as mazelas brasileiras: o que resta é fazer. E nesta quadra da história, quando os dedos em riste da perversão e do ódio ainda invadem todos os nossos espaços, físicos e virtuais, não podemos dar chance ao medo nem às assombrações que nos adoecem. Ainda há um país. Aproveitemos para fazer algo.

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