Engraçado talvez não seja a melhor palavra a ser usada quando falamos de papéis de gênero, mas talvez seja apropriado usar a palavra engraçado para descrever como essa questão, enraizada na nossa sociedade contemporânea, acaba afetando à nível celular cada antro do conviver. Acho que todo mundo tem pelo menos uma história de amor (seja sua ou de terceiros) na qual a questão de gênero mancha o relacionamento tal qual uma mancha de água sanitária na roupa recém lavada e passada.
Feminilidades e masculinidades tão presentes no nosso imaginário impregnam como existir e enxergar o mundo - e nessas e outras que artistas como Michelle Zauner (conhecida pelas ruas como Japanese Breakfast) se fascinam e exploram as nuances vistas no nosso dia com lentes tão turvas em seus trabalhos. O projeto em questão começou em 2013 e conta atualmente com quatro álbuns, o último sendo o subestimado For Melancholic Brunettes (& sad women), lançado desapercebido no ano passado.
A escrita de Japanese Breakfast se apoia muito na criação de narrativas e arquétipos como forma de aproximar suas intenções e sentimentos a uma personificação. Portanto, essa parte do texto será estruturada a partir de perfis dos arquétipos apresentados. Então, vamos ao elenco.
Para eu te introduzir ao que é a escrita de Zauner, recomendo começarmos por “Orlando in Love”, talvez a música-chave para pensar a compositora em relação ao tema do texto (e até um pouco óbvia demais). Usando do personagem Orlando de Virginia Woolf - que passa pelo romance em constante transformação e transição de gênero - para falar do ato de se apaixonar. Enquanto alterna de gênero ao se referir ao personagem, vemos uma relação fluída, tanto de identidade como de espaço-tempo, numa justaposição de sereias com fabricantes de veículos. Aqui temos o cenário: um não-tempo, um não-lugar e um não-gênero. As complexidades de um sentimento como o amor romântico nos colocam nessa posição permeável e fluvial.
É de senso comum que nossa sociedade funciona numa chave binária na qual homens e mulheres operam sob diferentes papéis. E no amor não é diferente. Espera-se que um homem seja o líder da casa, seja forte, imponente e faça todas as decisões de um relacionamento - afinal é o homem que pede a mulher em casamento. Já o lado feminino é sempre concebido como frágil, submisso e sentimental.
“Picture Window” de Japanese Breakfast retrata uma melancolia intrínseca a esses casamentos típicos da heterossexualidade, do ponto de vista dessa mulher incerta do que fez com sua vida tendo que enfrentar esse homem com seus sentimentos reprimidos. O vazio na relação é tão grande, que todo os dias ela tem seu coração quebrado, enquanto ele só chora onde ninguém vê: no alto de uma roda gigante.
Keep his mind shut
Keep his mind fixed and well hidden
You dream enough for two, dear
O lugar de esposa é sempre questionado pela compositora, principalmente nesse lugar distante e idealizado. Mesmo desejando o melhor para a pessoa amada, há uma frustração quando se olha no espelho e percebe todos os seus defeitos. “Winter in LA” deseja que o outro tenha uma esposa mais feliz, que ame todo mundo enquanto “The Woman Who Loves You” se sente como um cachorro esquecido ao não ser pedida em casamento - e que tudo vai ficar melhor depois da união.
Michelle se preocupa em explorar muitos estereótipos masculinos incorporados na nossa sociedade, seja corrompendo esses signos ou adotando-os. Em “Savage Good Boy”, Zauner quer ser colocada numa posição do clássico homem provedor, usando do imaginário capitalista com milhões de dólares e bunkers pós apocalípticos para garantir uma segurança à pessoa amada. Apesar da música não especificar o gênero do cônjuge, seu videoclipe implica uma investigação dessa relação heterossexual na qual os valores se invertem: é ele quem espera a esposa a chegar no trabalho e é ela quem garante a segurança dele.
Esse desejo de se impor que também aparece “Everybody Wants to Love You” se contrapõe com uma impotência desconfortante nas personas exploradas. “Posing in Bondage” fala de um bondage diferente do fetichista, o literal estado de estar amarrado esperando a outra pessoa vir e mostrar seu afeto. E a melhor música do mundo “Kokomo, IN” é sobre um adolescente enfurnado numa cidade pequena dos Estados Unidos sonhando com a volta de sua amada que foi estudar fora e suas estratégias para matar o tempo.
Não discuto nesse texto sua discografia numa análise musical, mas foco nas composições para investigar como a artista explora questões de gênero. É inevitável, no entanto, perceber que durante o processo criativo Michelle consegue lidar cada vez melhor com essa noção de submissão.
No último disco For Melancholy Brunettes (& sad women) o assunto tão pertinente dessa inércia afetiva se alternou para uma análise mais gentil consigo mesma. A posição de poder até é invertida em alguns lugares, “Honey Water” a coloca como uma abelha rainha com uma colmeia que a abandonou, mesmo no lugar de perda ela quer ser adorada - não adorar.
Why can’t you be faithful? I want to believe
They say only love can change a man, but all it changes it’s me
Uma das questões mais interessantes dentro da obra da Japanese Breakfast é o confronto com a violência. “Mega Circuit” é um ótimo exemplo disso. Sobre uma cúpula de incels de extrema direita (MAGA Circuit), o eu-lírico demonstra pontas de esperança que seu amor irá curar todo o ódio enterrado e cultivado no coração geracional daqueles homens.
A violência assustadora é demonstrada nos pequenos hobbies desse garoto que gosta de atirar com airsoft e andar por aí de quadriciclo achando que é um homem crescidinho - mas tanto nós como a intérprete sabemos que ele irá crescer e propagar esse ódio de maneiras mais explosivas. Apesar de uma ironia profunda, existe um sentimento genuíno de fé na redenção dessas almas tão condenadas.
Deep in the soft hearts
Of young boys
So pissed off and jaded
“Leda” é uma delicada balada que também vai trabalhar a condição da impotência e distância; passamos a maior parte da música entendendo um relacionamento complicado que envolve o abuso de substâncias e uma co-dependência explícita. Tudo muda ao ver o último verso, uma comparação com a lenda grega de Leda, engravidada por Zeus na forma de um cisne. Muitos artistas pela história da arte ocidental interpretaram essa lenda como um momento de prazer intenso, mas as leituras mais modernas vão expor que a situação foi extremamente abusiva e violenta. E numa maturidade, delicadeza e coragem, Zauner dá voz a um momento delicado da vítima em relação ao seu agressor.
I could tell you’re drunk
Wondering somewhere Cretian
Me sinto meio enfadado ao escrever esse texto. Não queria que parecesse uma playlist descrita da obra de Japanese Breakfast, ainda que julgue necessária a introdução dos trabalhos dela para aqueles que não conhecem ou só ouviram falar. Mas isso não tira minha sensação de enfado. Então parei de escrever e me perguntei o porquê de eu escolher esse tema para falar. Não é como se o cachorrinho da Revista Repeteco estivesse apontando uma arma em direção a minha cabeça.
A verdade é que me identifico com as letras apresentadas aqui. Assim como Michelle, sou uma pessoa queer com minhas vivências individuais e, não importa o quanto eu tente, não consigo me desinfetar de questões vindas do relacionamento heterossexual - como se eu tivesse lutando contra um imaginário de uma vida que não me cabe. E não é por nada que apresentei tantos personagens criados pela artista tema do texto, eles ilustram posições e personas que encarnamos e encontramos.
Uma abelha rainha abandonada por sua própria colmeia; um cachorro esquecido no carro com as janelas fechadas; um bando incel com ódio no coração; um bilionário encomendando um bunker para passar o resto do pós apocalipse com sua amada; uma dona de casa de interior enfrentando um casamento fadado ao fracasso; um adolescente confabulando o reencontro com um amor distante. Estamos todos condenados a encontrar esses personagens em nós mesmos e no outro. Para mim, é impossível não cantarolar “Eu gostaria que você tivesse uma mulher mais feliz, uma que consiga sair de casa”. Minha vivência me faz sempre sentir tão insatisfeito com minha feminilidade quanto com a minha masculinidade, num entremeio esquisito tal qual esse Orlando apaixonado.
O objetivo desse texto era tanto introduzir, quanto explorar significações dessas músicas que muito me tocam, mas ao decorrer dele, os parágrafos viraram uma espécie de auto-análise - logo, da mesma maneira que começo o texto em aberto, termino ele igualmente em aberto. Se os trabalhos apresentados não procuram soluções para os problemas apresentados, tampouco vou me arriscar em dizer como proceder caso você se encontre em alguma das milhares de arapucas referenciadas nas canções.
Entender-se e compreender suas tendências quando numa posição de romance é uma das poucas conclusões concretas que a artista nos mostra durante seus trabalhos e seu amadurecimento. Entender-se é o passo mais importante.
Mas se mesmo assim você quiser um conselho de amigo: Faça um trabalho de arte sobre isso! Tanto eu quanto a Michelle fizemos e deu certo.
So here we are, we’re just two losers.
I want you and you want something more beautiful.
Esse texto é dedicado a minha grande amiga Gi Oliveira e às nossas longas conversas destrinchando as letras da Michelle Zauner. De certa forma, esse texto tem co-autoria.

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