Se o rock, no mais comum dos sensos, tem em seu surgimento influências diretas da música folclórica e caipira norte-americana, o passar dos anos fez questão de impor — e acentuar — as barreiras entre um estilo e o outro. Hoje, rock e sertanejo são opostos no imaginário. O primeiro assume a guitarra elétrica, o segundo a viola ou o violão e assim seguem por caminhos separados.
Mas essa ruptura, na verdade, prova-se mais comportamental do que sonora. À medida que se desenvolvem os gêneros e que as músicas encontram um público, criam-se padrões. Surgem as subculturas, as associações e começa a crescer o sentimento de uma identidade consoante às preferências musicais. O rock e o sertanejo passaram a ocupar posições diferentes no espaço social e, por consequência, representar estilos de vida distintos.
Cabe uma breve recorrida a Bourdieu para relembrar a essencialidade da negação em relação aos gostos pessoais. “[…] em matéria de gosto, mais que em qualquer outro aspecto, toda determinação é negação e, sem dúvida, os gostos são, antes de tudo, aversão, feita de horror ou de intolerância visceral […] aos outros gostos, aos gostos dos outros”1. Algumas pistas da manifestação de comportamentos mais extremos e separatistas nessa esfera — que o autor ainda relembra que operam como marcadores sociais, perpassando questões de classe e ideologia.
No Brasil, essa oposição ganha novos contornos na contemporaneidade, especialmente com a consolidação do sertanejo universitário como um dos principais produtos da indústria fonográfica nacional e sua frequente associação ao agronegócio, ao conservadorismo e a determinados setores da direita brasileira. E o rock, embora, ainda carregue um imaginário ligado à rebeldia e à contracultura, também passou a ser apropriado por discursos conservadores, servindo, não raras vezes, como justificativa para posturas intolerantes de superioridade ao marginalizar outros estilos sonoros.
No entanto, manifestações musicais desenvolvidas em nosso território foram capazes de devolver o rock ao contexto campesino e evidenciar a artificialidade, também, da fronteira sonora entre os estilos. Em meados dos anos 70, uma série de composições recuperaram temáticas da tradição caipira, seja a partir das letras ou da adição de instrumentos como a gaita e a craviola guiadas por um ritmo mais pesado, utilizando guitarras e sintetizadores.
Como grande parte dos gêneros, a popularização da categoria Rock Rural tem origem em rotulações da mídia. Neste caso, o termo vem para enquadrar um grupo de artistas que, nos duros anos pós AI-5, faziam o possível para seguir tocando suas influências da folk music e do country rock em um Brasil completamente hostil para produções culturais.
Era 1971. Um respaldo da Era dos Festivais — que desde 1965 desafiava os desdobramentos antidemocráticos no Brasil a partir de competições entre canções munidas de críticas sociais — impunha presença mesmo após o exílio da maioria dos compositores que organizavam essas manifestações, como Caetano, Gil e Vandré. Coube, portanto, a Chico Buarque e Guttemberg Guarabyra a organização do VI Festival Internacional da Canção2.
“Alguns dos compositores voltaram com um esquema para protestar contra a censura, porém, com canções escritas de última hora, o festival acabou se tornando um fracasso. Dentre as canções participantes, uma em particular chamou a atenção. Embora não tenha atingido grande resultado, a canção “Casa no Campo”, de Zé Rodrix e Tavito, que participou do evento após vencer o Festival de Música Popular de Juiz de Fora, encantou a presidente do júri, a cantora Elis Regina, que decidiu de imediato gravar a canção e seu próximo disco.”3
E é dessa Casa no Campo, onde o eu lírico deseja “compor muitos rocks rurais”, que o estilo toma o nome para si e começa a construir uma identidade baseada no afastamento urbano. Parte desse desejo por maior introspecção e simplicidade certamente bebe da ressaca sentida no circuito musical mundial após a intensidade dos anos 60, que se despediu no auge da guerra do Vietnã e com o êxtase do Woodstock.
Localmente, esse período ainda coincidia com o mais duro da ditadura militar no Brasil — os Anos de Chumbo do governo Médici — fazendo com que o rock rural e a idealização de uma vida no campo configurassem o refúgio perfeito para tudo que se desenrolava.
Não é exagero dizer que o rock rural se constrói junto a trajetória de Luiz Carlos Sá, Zé Rodrix e Guttemberg Guarabyra. Antes de formarem o trio que personificaria o gênero no Brasil, os artistas já cultivavam carreiras consolidadas.
Carioca, Sá era ativo no cenário da MPB desde a segunda metade dos anos 1960, tendo composições gravadas por grandes nomes, como Nara Leão, Pery Ribeiro e o conjunto MPB4. Em 1966, estreou nos palcos no musical Samba Pede Passagem ao lado de Baden Powell e Ismael Silva.
Rodrix trazia na bagagem a experimentação com a música popular e o rock progressivo. Começou no grupo vocal Momento Quatro, acompanhando Edu Lobo na clássica apresentação de “Ponteio”, quando a canção venceu o III Festival de Música Popular Brasileira, em 1967. No início dos anos 1970, fez parte também da formação original da Som Imaginário, a ótima banda de apoio de Milton Nascimento.
O terceiro integrante chegava de um pouco mais longe. Nas palavras do colega Sá, “Guarabyra veio contribuir com suas raízes do sertão do médio São Francisco, carregadas de uma Bahia diferente de tudo que conhecêramos antes”4. Mudou-se para o Rio de Janeiro em 1966 e, no ano seguinte, ganhou reconhecimento por vencer a fase nacional do II FIC com a música "Margarida".
Mas é em 1970 que os amigos contrariaram o imaginário da casa do campo e começam a ensaiar como trio no apartamento de Guarabyra – que logo se tornou também lar de Sá – no bairro de Ipanema, no Rio de Janeiro.
“Nossa casa era frequentada por todo tipo de gente, de jornalistas e músicos a jovens atrizes e atores em começo de carreira, a maioria deles entusiasmada com nosso trabalho, o que acabou por nos conscientizar de que estávamos conseguindo trilhar um caminho diferente daqueles até então explorados no panorama musical da época.”5
Estava feita, portanto, a assinatura como Sá, Rodrix e Guarabyra; sequência de nomes que vem tão natural às cordas vocais. No ano seguinte, vinha ao mundo o clássico disco de estreia Passado, Presente & Futuro.
Um trio que vira dupla, volta a ser trio, retorna à dupla e então, se dissolve. Precocemente, em 1973, Zé Rodrix optou por deixar o grupo para focar na carreira solo. Em 2001, os três reúnem-se novamente, com uma apresentação de re-estreia na terceira edição do Rock in Rio. No mesmo ano, lançam um disco ao vivo e seguem com a parceria até 2009, quando divulgam o último disco, Amanhã, finalizado um mês antes da morte de Rodrix.
A última separação acontece em 2025, quando Sá e Guarabyra anunciaram o fim definitivo do projeto após 50 anos de carreira. Entre os motivos, nenhuma briga, apenas a distância e a criação de novos vínculos musicais — coisas que definem como “causas naturais”.
Com o trio, juntam-se à concepção de rock rural tantos outros artistas que acabaram posteriormente absorvidos pela ampla categoria da MPB. Se o termo servia, afinal, para designar uma aproximação entre a música caipira brasileira, o folk norte-americano e a instrumentação do rock, não é mentira dizer que seus limites nunca foram muito precisos.
A mesma vontade de reencontrar o interior, a estrada, a paisagem e uma temporalidade desacelerada aparece em diferentes medidas nas obras de Tavito, Zé Ramalho, Walter Franco, Alceu Valença, Clube da Esquina, entre tantos outros. Também havia o recorte mais regional desse tipo de sentimento, como no caso do saudosismo gaúcho de Almôndegas; a incorporação de elementos da cultura cearense que faz Ednardo; ou ainda, as conhecidas referências à Minas Gerais concebidas por Beto Guedes, Milton Nascimento e Lô Borges.
Se você se interessou pelo rock rural e suas confluências, a Repeteco preparou uma playlist especial com essa temática.
Musicalmente, as canções compartilhavam alguns traços recorrentes. Violões de doze cordas, violas caipiras, gaitas e flautas conviviam com guitarras elétricas, órgãos e sintetizadores, criando uma sonoridade que parecia simultaneamente tradicional e moderna. Muitos desses aspectos também se confundem com a cena nacional de rock progressivo desenvolvida nos anos 70. Bacamarte, Moto Perpétuo, O Terço, Casa das Máquinas, possuem uma sonoridade limítrofe com o que se desenvolvia aqui.
Isso se justifica quando percebemos que as influências dos compositores vinham tanto das duplas sertanejas e da música regional brasileira quanto de nomes como Bob Dylan, The Byrds, Crosby, Stills, Nash & Young e Neil Young. Vale destacar aqui a interessantíssima versão de Mr. Tambourine Man de Zé Ramalho e Renato e Seus Blue Caps (também conhecida como Mr. do Pandeiro).
O resultado eram arranjos menos urbanos do que aqueles predominantes na MPB da época, marcados por harmonias abertas, melodias contemplativas e letras povoadas por estradas de terra, rios, montanhas, pássaros e pela constante fantasia de uma vida distante dos centros urbanos. E era comum que o uso desses elementos líricos também desembocasse em metáforas para o período repressivo que enfrentado no Brasil. Um disfarce eficiente.
Quanto a essas características, alguns bons exemplos estão no disco Terra, lançado por Sá, Rodrix e Guarabyra em 1973. O trabalho abre com a dançante “Anos 60”6 uma reflexão sobre a acepção do rock em terras brasileiras a partir de diversas referências da cultura popular. Logo chega “Mestre Jonas”7, divertida e com sonoridade ágil capaz de disfarçar as letras críticas ao conformismo com a ditadura civil-militar. E, mais adiante, em “Pó da Estrada”8, talvez habite a temática que mais remeta ao cenário rural: estradas de terra, poeira nos sapatos e o desejo de seguir viagem.
Com tantos relatos da paisagem e contatos com naturezas regionais, algumas composições da época abriam um espaço bastante inédito para a discussão de temas de preservação ambiental. Seja clamando um estilo de vida sustentável no campo ou criticando a ganância desenvolvimentista das grandes metrópoles. É o que Sá e Guarabyra alcançam em “Sobradinho”, faixa que integra Pirão de Peixe com Pimenta, disco de 1977.
“O homem chega, já desfaz a natureza
Tira gente, põe represa, diz que tudo vai mudar
O São Francisco lá pra cima da Bahia
Diz que dia menos dia vai subir bem devagar
E passo a passo vai cumprindo a profecia do beato que dizia que o Sertão ia alagar”
Diante de tantos caminhos percorridos nessa era tão frutífera da música nacional, é difícil que este texto seja capaz de dar conta da totalidade das discussões. De palavras finais sobre o estilo sonoro, portanto, não consigo encontrar melhores que as do próprio Sá.
“Tenho então a esperança de que o rótulo ou estilo “rock rural” tenha servido e continue a servir – sem pieguices, por favor – para a tentativa de um mundo melhor, com seus enfoques na preservação ambiental (onde foi um pioneiro musical no Brasil), numa vida com menos ansiedade, na satisfação com o que é suficiente e na negação da ganância e da ambição desmedidas, como um segmento musical libertário por origem, sem excessivos compromissos com modismos ou mercados e focado numa ética de respeito à vida”.9

Disponível para iOS e Android
BOURDIEU, Pierre. A Distinção: crítica social do julgamento. 2ª ed. Porto Alegre: Zouk, 2011.
Ao longo do texto, trago diversas menções aos festivais de música, então acho interessante contextualizá-los. No recorte entre 1965 e 1972, despontou uma dezena desses eventos, organizados por diferentes emissoras de TV, em diferentes cidades e com foco em estilos distintos.
Aqui, no entanto, serão citados apenas o Festival de Música Popular Brasileira, organizado pela TV Record em São Paulo e o Festival Internacional da Canção (FIC), sediado no Rio de Janeiro e produzido pela TV Globo.
SÁ, Luiz Carlos. Rock rural: origens, estrada e destinos. Revista USP, São Paulo, Brasil.
“Faz muito tempo que eu não vinha no clube
Mas as pessoas permanecem as mesmas
Parecem personagens saídas de uma balada de Neil Sedaka
Do começo dos anos 60”
“Dentro da baleia a vida é tão mais fácil
Nada incomoda o silêncio e a paz de Jonas
Quando o tempo é mal, a tempestade fica de fora
A baleia é mais segura que um grande navio"
“E o pó da estrada fica em minha roupa
O cheiro forte da poeira levantada
Levando a gente sempre mais à frente
Nada mais urgente
Que o pó da estrada”

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